Machado de Assis - Tradução



Os Trabalhadores do Mar - Parte 2



CAPÍTULO VII


INTERVÉM O INESPERADO


Clubin olhou espantado.

Era o medonho escolho isolado.

Não era possível a ilusão a respeito daquela configuração disforme. As duas Douvres gêmeas campeavam horríveis deixando ver entre si, como uma armadilha, a garganta de que falamos. Dissera-se um quebra-costas do oceano.

Estavam perto dele as rochas Douvres; o nevoeiro, como cúmplice, escondera-as.

Clubin errara o caminho por causa do nevoeiro. Apesar de toda a atenção, aconteceu-lhe o mesmo que a dois grandes navegadores, a González, que descobriu o cabo Branco, e a Fernández, que descobriu o cabo Verde. A bruma desencaminhou-o. Pareceu-lhe excelente para a execução do projeto, mas tinha os seus perigos. Clubin desviou-se para o oeste e enganou-se. O passageiro guernesiano, acreditando ver o Hanois, determinou o movimento do leme final; Clubin cuidou que se atirava ao Hanois.

A Durande, arrombada por um dos bancos do escolho, estava separada das Douvres apenas por algumas centenas de braças.

A 200 braças mais longe via-se um maciço cubo de granito. Descobriam-se nas faces escarpadas desta rocha algumas estrias e relevos apropriados para galgá-la.

Os cantos retilíneos dessas rudes muralhas de ângulo reto faziam pressentir no cume uma planura.

Era o Homem.

A rocha Homem era mais alta ainda que as Douvres. A sua plataforma dominava as pontas inacessíveis das duas rochas. Essa plataforma, abatendo-se pelas bordas, tinha uma cimalha e mostrava uma certa regularidade arquitetural. Não se podia imaginar nada mais triste e funesto. As vagas iam dobrar as suas tranqüilas toalhas nas faces quadradas daquele enorme rochedo negro, espécie de pedestal para os espectros imensos do mar e da noite.

Tudo aquilo estava mudo e morto. Havia apenas um sopro no ar e uma ruga nas ondas. Debaixo daquela superfície muda da água adivinhava-se a vasta vida afogada das profundezas.

Clubin vira muitas vezes de longe o escolho Douvres.

Convenceu-se bem que eram ali as Douvres.

Não podia duvidar.

Súbita e terrível mudança. As Douvres em vez de Hanois. Em vez de 1 milha, 5 léguas do mar! O impossível. A rocha Douvres, para o náufrago solitário, é a presença visível e palpável dos últimos momentos. É impossível chegar à terra.

Clubin estremeceu. Tinha se metido na goela da sombra. Não havia outro refúgio além do rochedo Homem. Era provável que a tempestade sobreviesse de noite, e que a chalupa da Durande, sobrecarregada, soçobrasse. Nenhum aviso do naufrágio chegaria à terra. Não se saberia mesmo que Clubin ficara no rochedo Douvres. Não havia outra perspectiva senão a morte por frio e fome. Os seus

75.000 francos nem mesmo lhe davam um bocado de pão. Tudo quanto ele construíra deu em resultado aquela cilada; foi ele próprio o arquiteto laborioso de sua emboscada. Nenhum recurso. Nenhuma solução possível. O triunfo fazia-se precipício. Em vez da liberdade, a captura. Em vez de um futuro próspero e longo, a agonia. De um relance esboroou-se-lhe o edifício. O paraíso sonhado por aquele demônio retomou a sua verdadeira figura: o sepulcro.

Entretanto, soprava o vento. O nevoeiro, sacudido, furado, repuxado, desfazia-se no horizonte em grandes lanhos informes. Reapareceu o mar.

Os bois, cada vez mais invadidos pela água, continuavam a berrar no porão.

Aproximava-se a noite; provavelmente a tempestade.

A Durande, a pouco e pouco levantada pelo mar, oscilava da direita para a esquerda, depois da esquerda para a direita, e começava a girar sobre o escolho como sobre um eixo.

Podia-se pressentir o momento em que uma vaga arrancaria o navio e o levaria água abaixo.

Havia menos obscuridade do que no momento do naufrágio. Apesar da hora ser já avançada, estava mais claro. O nevoeiro levou consigo uma parte da escuridão. O oeste limpou-se de nuvens. O crepúsculo é um vasto céu branco. Essa vasta claridade alumiava o mar.

A Durande naufragara em plano inclinado de popa a proa. Clubin trepou à proa

que estava quase fora da água. Fitou no horizonte os olhos. É próprio da hipocrisia ater-se à esperança. O hipócrita é o homem que espera. A hipocrisia é uma esperança horrível: o fundo dessa mentira é feito desta virtude, tornada vício.

Coisa estranha de dizer, há confiança na hipocrisia. O hipócrita confia-se a certa indiferença do desconhecido, que consente no mal. Clubin olhava para a extensão.

A situação era desesperada: aquela alma sinistra não desesperou. Dizia consigo que depois daquele longo nevoeiro os navios conservados na bruma, à capa ou ancorados, iam continuar viagem, e algum passaria no horizonte.

E, com efeito, apareceu uma vela. Vinha de leste e ia para oeste. Aproximando-se, desenhava-se o navio; tinha apenas um mastro, e estava

armado em goleta. O gurupés era quase horizontal. Antes de meia hora devia passar por perto do escolho Douvres. Clubin disse consigo: “Estou salvo”. Em momentos semelhantes, pensa-se primeiro na vida. O cúter era quase estrangeiro. Quem sabe se não era um dos contrabandistas que

iam a Plainmont? Quem sabe se não era Blasquito? Nesse caso, não somente salvava a vida como a fortuna; e o encontro do rochedo Douvres, apressando a conclusão, suprimindo a espera na casa mal-assombrada, dando desfecho à aventura em pleno mar, seria um incidente feliz.

Toda a certeza do bom êxito entrou freneticamente naquele espírito sombrio.

Estranha coisa é ver com que facilidade os tratantes acreditam que devem ser bem-sucedidos. Cumpria fazer apenas uma coisa. A Durande, metida nos rochedos, misturava a sua configuração à deles, confundia-

se com os seus recortes, sobre os quais parecia apenas um lineamento, ficava indistinta e perdida, e não bastava, com o pouco dia que havia, para atrair a atenção da embarcação que ia passar.

Mas uma figura humana, desenhando-se na alvura crepuscular, de pé na planura do rochedo Homem, e fazendo sinais de perigo, seria vista, sem dúvida alguma. Mandariam um escaler para recolher o náufrago.

O rochedo Homem ficava a 200 braças. Era simples atingi-lo a nado, fácil trepar por ele. Não havia tempo a perder.

Estando a proa da Durande sobre a rocha, era do alto da popa e do ponto em que estava que Clubin devia atirar-se ao mar.

Começou por deitar uma sonda, e reconheceu que havia ao pé da popa muito fundo. As conchas microscópicas de foraminíferos e de policistináceos que a sonda trouxe consigo estavam intactas, o que indicava que havia ali profundas cavas de rocha, onde a água, qualquer que fosse a agitação da superfície, era sempre tranqüila.

Despiu-se, deixando as roupas no tombadilho. Acharia roupa no cúter. Conservou apenas o cinto de couro.

Depois de despir-se, levou a mão ao cinto, apertou-o bem, apalpou a caixinha de ferro, estudou rapidamente com o olhar a direção que devia seguir no meio dos parcéis e das vagas para alcançar o rochedo Homem; depois, precipitou-se de cabeça para baixo.

Como caiu de alto, mergulhou muito.

Chegou ao fundo do mar, tocou-o. Costeou alguns instantes as rochas submarinas, depois fez um movimento para subir à superfície.

Nesse momento sentiu-se agarrado pelo pé.

LIVRO SÉTIMO

IMPRUDÊNCIA DE INTERRROGAR UM LIVRO

CAPÍTULO PRIMEIRO

A PÉROLA NO FUNDO DO PRECIPÍCIO

Minutos depois do curto colóquio com o Sr. Landoys, Gilliatt estava em Saint-Sampson.

Gilliatt ia inquieto até à ansiedade. Que teria acontecido?

Saint-Sampson tinha um rumor de colmeia assustada. Toda a gente estava às portas. As mulheres exclamavam. Muitas pessoas contavam alguma coisa fazendo gestos; as outras agrupavam-se à roda dessas. Ouviam-se estas palavras: “Que desgraça!”. Alguns sorriam. Gilliatt não interrogou ninguém. Não era próprio dele fazer perguntas. Demais ia demasiado comovido para falar a indiferentes. Desconfiava das narrações, preferia saber logo tudo; foi à casa de Lethierry.

A sua ansiedade era tal que nem mesmo teve medo de entrar naquela casa.

Demais, a porta da sala baixa estava escancarada. Na soleira havia um formigueiro de homens e mulheres. Todos entravam; ele entrou.

Entrando, achou encostado à porta o Sr. Landoys, que lhe disse a meia-voz:

— Então, já sabe do sucesso?

— Não.

— Eu não quis dizer-lhe há pouco do meio da rua. Pareceria correio de desgraças.

— Que foi então?

— Perdeu-se a Durande.

Havia muita gente na sala.

Os grupos falavam baixo, como no quarto de um doente.

Os assistentes, que eram os vizinhos, os viandantes, os curiosos, estavam amontoados ao pé da porta, com uma espécie de receio, e deixavam vazio o fundo da sala onde estava, ao lado de Déruchette lacrimosa e assentada, Mess Lethierry de pé.

Lethierry estava encostado ao tabique do fundo. O boné de marujo caía-lhe nas sobrancelhas; uma mecha de cabelos grisalhos prendia-se-lhe na face. Não dizia nada. Os braços não tinham movimento, a boca parecia não ter alento. Parecia uma coisa encostada à parede.

Ao vê-lo, sentia-se um homem dentro de quem se extinguira a vida. Deixando de existir a Durande, Lethierry já não tinha razão de ser. Tinha uma alma no mar, e essa alma acabava de perecer. Que faria ele agora? Levantar-se de manhã, deitar-se de noite. Já não podia esperar a Durande, nem vê-la partir nem voltar. O que é um resto de existência sem objeto? Beber, comer, e depois? Aquele homem tinha coroado os seus trabalhos com uma obra-prima, e as dedicações com um progresso. Abolira-se-lhe o progresso, morrera-lhe a obra-prima. Para que viver ainda alguns anos vazios? Não tinha mais nada que fazer. Naquela idade não é possível recomeçar; de mais a mais estava arruinado. Pobre velho!

Déruchette, assentada ao pé dele e chorando, tinha entre as suas duas mãos a mão de Mess Lethierry. As dela estavam postas, a de Lethierry apertada. Via-se nisso a diferença daqueles dois abatimentos. As mãos postas ainda têm esperança; a apertada nenhuma.

Mess Lethierry abandonava-lhe o braço sem resistência. Estava passivo. Tinha em si apenas aquela porção de vida que pode haver depois do raio.

Há certas descidas ao fundo do abismo que retiram um homem do meio dos vivos. As pessoas que andam em roda são confusas e indistintas; acotovelam-no e não lhe chegam. De parte a parte ficam inacessíveis. A ventura e o desespero não são os mesmos centros respiráveis; o desesperado assiste à vida dos outros, mas de muito longe; ignora quase a sua presença; perde o sentimento da própria existência; que importa ser de carne e osso, o desesperado já se não sente real; já não é ele próprio, é apenas um sonho.

Mess Lethierry tinha o olhar dessa situação.

Cochichavam os grupos.

Cada qual dizia o que sabia.

Eis as notícias:

A Durande perdera-se na véspera nos rochedos Douvres, com o nevoeiro, uma hora antes do pôr-do-sol. À exceção do capitão, que não quis deixar o navio, toda a gente salvou-se na chalupa. Uma borrasca, vinda do sudoeste, depois do nevoeiro, quase fez naufragar a chalupa, e carregou-a para o mar largo, além de Guernesey. De noite tiveram os náufragos a boa fortuna de encontrar o Cashmere, que os recolheu e levou a Saint-Pierre-Port. O culpado de tudo foi o timoneiro Tangrouille, que já estava preso. Clubin mostrou-se magnânimo.

Os pilotos que abundavam nos grupos pronunciavam estas palavras “escolho Douvres” de um modo particular. “Má hospedaria aquela!”, dizia um deles.

Viam-se na mesa uma bússola e um maço de registros e notas; eram sem dúvida a bússola da Durande e os papéis de bordo entregues por Clubin a Imbrancam e a Tangrouille no momento de partir a chalupa; magnífica abnegação desse homem, salvando até os papéis no momento em que ia morrer; minuciazinha cheia de grandeza, esquecimento sublime de si próprio.

Todos eram unânimes em admirar Clubin, e igualmente unânimes em julgá-lo salvo. O cúter Shealtiel chegara poucas horas depois do Cashmere, e esse cúter trazia as últimas informações. Esteve 24 horas nas mesmas águas da Durande. Parou e bordejou durante o nevoeiro e a tempestade. O patrão do Shealtiel estava também na sala de Lethierry.

No momento em que Gilliatt entrou, acabava ele de fazer a sua narração a Mess Lethierry. Era um verdadeiro relatório. De manhã, tendo cessado a borrasca e acalmado o vento, o patrão do Shealtiel ouviu mugido de bois em pleno mar. Este rumor próprio das campinas, ouvido ali nas vagas, surpreendeu o patrão. Descobriu a Durande nos rochedos Douvres. A calma era suficiente para que ele pudesse acercar-se dos rochedos. Chamou o navio à fala. Só lhe respondeu o mugido dos bois que se afogavam no porão. O patrão do Shealtiel estava certo de que não havia ninguém a bordo da Durande. O casco estava completamente preso; e por mais violenta que fosse a borrasca, devia ter passado a noite de bordo. Não era homem de desanimar facilmente. Não estava de bordo. Logo estava salvo.

Muitos sloops e lugres de Granville e Saint-Malo, desprendendo-se do nevoeiro, era fora de dúvida que deviam ter costeado as Douvres. Evidentemente algum deles recolheu o Capitão Clubin. Devem lembrar-se que a chalupa da Durande estava cheia ao deixar o navio, ia correr perigos, mais um homem poderia fazê-la soçobrar, e foi isso sobretudo o que resolveu Clubin a ficar na Durande; mas, cumprido esse dever, se aparecesse um navio salvador, Clubin não teria dificuldade de aproveitar-se dele. Deve-se ser herói, não se deve ser pascácio. Um suicídio seria tanto mais absurdo quanto que Clubin portara-se com dignidade. O culpado era Tangrouille, não Clubin. Tudo isto era conseqüente; o patrão do Shealtiel tinha razão e toda a gente esperava ver Clubin de um momento para outro. Premeditava-se recebê-lo em triunfo.

Da narração do mestre resultavam duas certezas: Clubin salvo e a Durande perdida.

Quanto à Durande, estava decidido que a catástrofe era irremediável. O patrão do Shealtiel assistira à última fase do naufrágio. O grandíssimo rochedo em que naufragara a Durande resistira ao choque da tempestade, como se quisesse guardar consigo o navio; mas de manhã, no momento em que o Shealtiel, verificando que não havia ninguém para salvar, afastava-se da Durande, houve um desses movimentos de mar que são como os últimos arrancos da cólera das tempestades. Essa onda levantou furiosamente a Durande, arrancou-a do cachopo, e com a rapidez e a retidão de uma flecha disparada, atirou-a entre as duas rochas Douvres. Ouviu-se um estalo “diabólico”, dizia o patrão. A Durande, levada pela vaga a uma certa altura, meteu-se entre as rochas. Estava outra vez pregada, mas desta vez mais solidamente que no escolho submarino. Ficou aí deploravelmente suspensa, exposta a todo o vento e a todo mar.

A Durande, no dizer da equipagem do Shealtiel, já estava quase toda despedaçada. Teria soçobrado, com certeza, de noite, se o cachopo não a sustivesse. O patrão do Shealtiel com o seu óculo estudou o casco. Descreveu o desastre com precisão marítima; o lado de estibordo estava roto; os mastros truncados, o velame sem tralhas, as correntes dos ovéns quase todas cortadas, as sangadilhas cortadas o mais rente possível desde o meio do mastro até acima; o lugar dos víveres arrombado, os cavaletes da chalupa destruídos, a árvore do leme rota, os cabos despregados, os paveses arrasados, as abitas levadas pelo vento, a antena do mesmo modo, o cadaste quebrado. Era a devastação frenética da tempestade. Quanto ao guindaste do carregamento, preso ao mastro de proa, já não existia, não havia notícia dele, completamente limpo, levaram-no os diabos, com todas as roldanas, polés e correntes. A Durande estava deslocada; a água começava agora a despedaçá-la. Dentro de alguns dias nada mais restaria dela.

E contudo a máquina, coisa notável, e que provava a sua perfeição, sofreu pouco com a tempestade. O patrão do Shealtiel afirmava que a manivela não teve avaria grave. Os mastros do navio cederam, mas o cano da máquina resistiu. Os baluartes de ferro do lugar do comando estavam apenas torcidos; as caixas das rodas sofreram, mas as rodas pareciam não ter um só raio de menos. A máquina estava intacta. Era a convicção do patrão do Shealtiel. O maquinista Imbrancam, que estava entre os grupos, partilhava esta convicção. Aquele negro, mais inteligente que muitos brancos, era o admirador da máquina. Levantava os braços abrindo os dez dedos das suas mãos negras, e dizia a Lethierry mudo: “Meu amo, a máquina está viva”.

O salvamento de Clubin parecia coisa segura; o casco da Durande estava sacrificado; a conversação dos grupos recaiu sobre a máquina. Interessavam-se por ela, como se fosse uma pessoa. Todos admiravam o bom procedimento da máquina. “Sólida comadre aquela”, dizia um marinheiro francês. “É magnífica!”, exclamava um pescador guernesiano. “Deve ter sido muito astuciosa”, acrescentava o patrão, “para escapar apenas com alguns arranhões.”

A pouco e pouco tornou-se a máquina a preocupação única. Animou as opiniões pró e contra. Tinha amigos e inimigos. Mais de um, que tinha algum velho cúter de vela, e esperava apanhar a freguesia da Durande, alegrou-se por ver o escolho Douvres fazer justiça à nova invenção. O cochicho tornou-se algazarra. Discutia-se com barulho. Era contudo um rumor discreto, que de quando em quando se calava sob a pressão do silêncio sepulcral de Lethierry.

Do colóquio havido em todos os pontos resultava isto:

A máquina era o essencial. Refazer o navio era possível, não a máquina. Era única. Para fabricar outra faltavam o dinheiro e o fabricante. Lembram-se de que o construtor tinha morrido. Custou 40 000 francos. Ninguém arriscaria agora aquele capital naquela eventualidade; tanto mais quanto acabava de provar-se que os vapores naufragam como navios de vela; o acidente atual da Durande metia a pique o seu passado sucedimento. E era doloroso pensar que naquele momento a máquina ainda estava em bom estado, e que, antes de cinco ou seis dias, ficaria despedaçada como o navio. Enquanto existia a máquina, podia dizer-se que não havia naufrágio. Só a perda da máquina era irremediável. Salvar a máquina era reparar o desastre.

Salvar a máquina é fácil dizê-lo. Mas quem ousaria? Era acaso possível? Dizer e executar são coisas diferentes, e a prova é que é fácil formular uma aspiração e difícil executá-la. Ora, se houve jamais um sonho impraticável e insensato era este: salvar a máquina encalhada nas Douvres. Mandar trabalhar naquelas rochas um navio e uma equipagem seria absurdo; não se devia pensar nisso. Era a estação dos temporais: ao primeiro que houvesse, rasgavam-se as correntes das amarras nas pontas submarinas e o navio despedaçava-se. Era mandar um naufrágio em socorro do primeiro. Na espécie de buraco da planura superior onde se abrigara o náufrago legendário morto de fome, mal havia lugar para um homem. Era preciso, pois, que, para salvar essa máquina, fosse um homem aos rochedos Douvres, e que fosse sozinho, só naquele mar, só naquele deserto, só a 5 léguas da costa, naquele medo, só durante semanas inteiras, só diante do previsto e do imprevisto, sem vitualhas nas angústias da privação, sem socorro nos incidentes da desgraça, sem outro vestígio humano que o do antigo náufrago morto ali, sem outro companheiro além daquele finado.

E como salvaria ele a máquina? Era preciso que fosse, não somente marujo, senão também ferreiro. E quantas dificuldades! O homem que o tentasse seria mais que um herói. Seria um louco. Porquanto, em certos cometimentos desproporcionados, onde parece necessário o sobre-humano, a bravura tem acima de si a demência. E, com efeito, sacrificar-se por um pouco de ferro não era extravagante? Não, ninguém iria aos rochedos Douvres. Devia-se renunciar à máquina do mesmo modo que ao navio. O salvador que era preciso não aparecia. Onde encontrar esse homem?

Isto, dito de outro modo, era o fundo das conversas murmuradas daquela multidão.

O patrão do Shealtiel, que era um antigo piloto, resumiu o pensamento de todos exclamando em alta voz:

— Não! Está acabado. Não existe um homem capaz de ir buscar a máquina!

— Se eu não vou — disse Imbrancam — é que é impossível ir.

O patrão do Shealtiel sacudiu a mão esquerda com aquele arrebatamento que exprime a convicção do impossível, e repetiu:

— Se existisse.

Déruchette voltou a cabeça.

— Casava-me com ele.

Houve um silêncio.

Um homem pálido saiu do meio dos grupos e disse:

— A senhora casava-se com ele, Miss Déruchette?

Era Gilliatt.

Entretanto, todos levantaram os olhos. Mess Lethierry endireitou-se. Tinha nos olhos uma luz estranha.

Tirou o boné e lançou ao chão, depois olhou solenemente para a frente sem ver pessoa alguma e disse:

— Déruchette casava-se com esse homem. Dou a minha palavra de honra a Deus.

CAPÍTULO II

GRANDE ESPANTO NA COSTA OESTE

A noite desse dia, das 10 horas em diante, devia ser noite de luar. Todavia, qualquer que fosse a boa aparência da noite, do vento e do mar, nenhum pescador estava disposto a sair nem de Hougue la Perre, nem de Bordeaux, nem de Houmet Benet, nem de Platon, nem de Port-Grat, nem da baía Vason, nem de Perelle Bay, nem de Pezeris, nem de Tielles, nem da baía dos Santos, nem de Petit Bô, nem de nenhum outro porto ou angra de Guernesey. E isso por uma razão simples: o galo tinha cantado ao meio-dia.

Quando o galo canta a uma hora extraordinária, não há peixe.

Nesse dia, pois, ao cair da tarde, um pescador que voltava a Omptolle teve uma surpresa. Na altura de Houmet Paradis, além de Brayes e Grunes, tendo à esquerda a baliza de Plattes Fougères, que representa um funil virado, e à direita a baliza de Saint-Sampson, que representa uma figura de homem, o pescador acreditou ver uma terceira baliza. Que baliza era essa? Quando foi posta ali? Que banco indicava ela? A baliza respondeu logo a estas interrogações; mexeu-se; era um mastro. Não diminuiu o espanto do pescador. Baliza era para admirar; mastro ainda mais. Não havia pesca possível. Quando todos voltavam, por que saía aquele? Quem era? Por quê?

Dez minutos depois, o mastro, caminhando lentamente, chegou a pouca distância do pescador de Omptolle. Este não pôde reconhecer o barco. Ouviu remar. O ruído era de dois remos. Provavelmente era um homem só. O vento era norte; o homem navegava evidentemente para ir tomar o vento além da ponta Fontenelle. Aí era natural que abrisse a vela. Contava pois dobrar o Ancresse e o monte Crevel. Que queria dizer aquilo?

O mastro passou; o pescador foi para terra.

Nessa mesma noite, na costa oeste de Guernesey, observadores de ocasião disseminados e isolados fizeram alguns reparos a horas diversas e em diversos pontos.

O pescador de Omptolle acabava de amarrar o barco, quando um condutor de sargaço, a meia milha distante, chicoteando os animais na estrada deserta de Clotures, perto do Cromleche, nos arredores dos martelos 6 e 7, viu no mar, um tanto longe, em lugar pouco freqüentado, porque é preciso conhecê-lo bem, do lado da Roque-Nord e da Sablonneuse, um barco içando uma vela. Deu pouca atenção, pois que era homem de carro e não de barco.

Meia hora depois, um estucador que voltava da cidade e contornava a lagoa de Pelée achou-se repentinamente quase em face de um barco que penetrara audaciosamente entre as rochas do Quenon, da Rousse de Mer, e da Gripe de Rousse. A noite era negra, mas o mar estava claro, efeito que se produz muitas vezes, e podia-se distinguir ao largo os navegantes. Só havia no mar aquele barco.

Mais abaixo e mais tarde, um pescador de lagostas, dispondo as suas tendas no areal que separa o Port Soif do Port Enfer, não compreendeu o que faria um barco que passava entre a Boue Corneille e a Moulrette. Era preciso ser bom piloto e ter pressa de chegar a algum lugar para arriscar-se a passar ali.

Sendo 8 horas no Catel, o taverneiro de Cobo Bay observou, com algum espanto, uma vela além da Boue do Jardim e das Grunettes, mui perto da Suzanne e dos Grunes do Oeste.

Não longe do Cobo Bay, na ponta solitária do Houmet da baía Vason, estavam dois namorados a despedir-se e a reter-se um ao outro; foram distraídos do último beijo por um vasto barco que passou por perto deles e dirigia-se para as Menellettes.

O Sr. Le Peyre des Norgiots, morador em Catellon Pipet, estava examinando, às 9 horas da noite, um buraco feito por larápios na cerca da sua horta, e ao mesmo tempo que averiguava os estragos, não pôde deixar de observar um barco dobrando temerariamente o Croce-Point àquela hora.

No dia seguinte ao de uma tempestade, com o resto de agitação que sempre fica no mar, aquele itinerário era pouco seguro, a menos que se não saiba de cor todos os passos. Às 9 horas e meia, no Equerrier, um pescador levando a rede, parou algum tempo para ver entre Colombelle e Soufleresse alguma coisa que devia ser um barco e que se expunha muito ao tempo. Há ventos perigosos nesse lugar. A rocha Soufleresse é assim chamada porque sopra constantemente os barcos que passam.

Ao levantar da lua, estando a maré cheia, e havendo pleno mar no estreito de Li-Hou, o guarda solitário da ilha de Li-Hou assustou-se ao ver passar entre a lua e ele uma longa forma negra. Esta forma ia resvalando lentamente por cima das espécies de paredes que formam os bancos da rocha. O guarda de Li-Hou pensou ver a Dama Negra.

A Dama Branca habita o Tau de Pez d'Amont, a Dama Cinzenta habita o Tau de Pez d'Aval, a Dama Vermelha habita a Lilleuse ao norte do Banc-Marquis, e a Dama Negra habita o Grand-Etacré ao leste de Li-Houmet. Ao clarão da lua todas essas damas saem e encontram-se às vezes.

Rigorosamente essa forma negra podia ser uma vela. As longas fileiras de rochas sobre as quais parecia que a vela andava podiam com efeito esconder o casco de um barco vogando atrás de si, deixando ver apenas a vela. Mas o guarda perguntou a si próprio que barco ousaria arriscar-se àquelas horas entre Li-Hou e a Pecheresse, e as Angullières e Lerée-Point. E com que fim? Pareceu-lhe mais provável que fosse a Dama Negra.

Estando a lua já acima da torre de Saint-Pierre-du-Bois, o sargento de Rocquaine levantou metade da escada da ponte levadiça e distinguiu na foz da baía, mais perto que a Sambule, um barco à vela que parecia descer de norte a sul.

Existe na costa sul de Guernesey, atrás do Plainmont, no fundo de uma baía, toda precipícios e muralhas, cortado a pique na onda, um porto singular que um francês, residente na ilha desde 1844, talvez o mesmo que escreve agora estas linhas, batizou com o nome de “porto do quarto andar”, nome geralmente adotado hoje. Esse porto que então se chamava a Moie, é uma planura de rocha meio natural, meio talhada, de 40 pés de altura acima da água, e comunicando com as vagas por duas grandes pranchas em plano inclinado. Os barcos içados à força de braços por correntes e roldanas, saem ao mar e descem ao longo dessas pranchas que são dois trilhos. Para os homens há uma escada. Esse porto era então muito freqüentado pelos contrabandistas. Sendo pouco praticável, era-lhes cômodo.

Pelas 11 horas, alguns trapaceiros, talvez os mesmos com quem Clubin contava, estavam com os seus fardos na Moie. Quem trapaceia, espia; eles espiavam. Admiraram-se de ver uma vela desembocando repentinamente além das linhas negras do cabo Plainmont. O luar estava claro. Os contrabandistas espreitavam a vela, receando que fosse algum guarda-costa colocar-se de emboscada atrás do grande Hanois, mas a vela passou os Hanois, deixou atrás de si a noroeste a Boue Blondil, e mergulhou-se ao largo nas brumas lívidas do horizonte.

— Aonde diabo vai aquela barca? — disseram os contrabandistas.

Na mesma noite, pouco depois de pôr o sol, ouviu-se alguém bater na porta da casa mal-assombrada em que morava Gilliatt. Era um rapaz vestido de escuro, com meias amarelas, o que indicava ser sacristão. A casa estava fechada, porta e postigos. Uma velha pescadora de frutos do mar, passeando pelo banco, com uma lanterna na mão, chamou o rapaz, e trocaram-se estas palavras entre eles:

— Que quer você?

— O hhhhhhooomem daqui.

— Não está aqui.

— Onde está?

— Não sei.

— Virá amanhã?

— Não sei.

— Foi-se embora daqui?

— Não sei.

— É que o novo cura da paróquia, o Reverendo Ebenezer Caudray, queria fazer-lhe uma visita.

— Não sei.

— O reverendo mandou-me saber se o homem estava em casa amanhã de manhã.

— Não sei.

CAPÍTULO III

NÃO TENTEIS A BÍBLIA

Nas 24 horas que se seguiram, Mess Lethierry não dormiu nem comeu, nem bebeu, beijou a testa de Déruchette, informou-se de Clubin, do qual ainda não havia notícias, assinou um papel declarando que não pretendia dar queixa, e fez soltar Tangrouille.

Ficou, todo o dia seguinte, meio encostado à mesa do escritório da Durande, nem assentado nem de pé, respondendo com brandura a quem lhe falava. Demais, estando satisfeita a curiosidade, ficou solitária a casa de Lethierry. Há muitos desejos de observar na solicitude de lamentar. Fechara-se a porta; deixava-se Lethierry com Déruchette. O relâmpago que passara nos olhos de Lethierry estava extinto; voltara-lhe o olhar lúgubre do começo da catástrofe.

Déruchette, assustada, foi caladinha, conselho de Graça e Doce, colocar ao lado dele, na mesa, um par de meias que Lethierry tecia quando a triste notícia chegou.

Lethierry sorriu amargamente e disse:

— Então pensam que não tenho juízo? Depois de um quarto de hora de silêncio, acrescentou:

— Estas manias são boas quando a gente é feliz. Déruchette tirou o par de meias, e aproveitou a ocasião para tirar também a

bússola e os papéis de bordo, que Mess Lethierry contemplava demasiadamente.

De tarde, um pouco antes da hora do chá, a porta abriu-se e entraram dois homens, vestidos de preto, um velho, e outro moço.

O moço já foi visto no curso desta narração.

Tinham ambos um ar grave, mas de gravidade diferente; o velho tinha aquilo que se pode chamar gravidade de profissão; o mancebo tinha a gravidade da natureza. A primeira vem do hábito, a segunda nasce do pensamento.

Eram, como indicava o traje, dois padres, pertencendo ambos à religião estabelecida.

O que se notava desde logo no mancebo era que a gravidade, profunda no olhar, e resultando do espírito, não nascia absolutamente da pessoa. A gravidade admite a paixão, exala-a, purificando-a, mas aquele mancebo era, antes de tudo, lindo. Sendo padre, devia ter ao menos 25 anos; parecia ter dezoito. Apresentava uma harmonia e um contraste, isto é, tinha uma alma que parecia feita para a paixão e um corpo que parecia feito para o amor. Era loiro, rosado, fresco, delicado e flexível, apesar do vestuário severo, com faces de donzela e mãos delicadas; embora reprimido, tinha o gesto vivo e natural. Tudo nele era encanto, elegância e quase volúpia. A beleza de seu olhar corrigia esse excesso de graça. O sorriso sincero, que deixava ver uns dentes de criança, era pensativo e religioso. Era a gentileza de um pajem e a dignidade de um bispo.

Debaixo dos espessos cabelos loiros, tão dourados que pareciam garridos, tinha ele um crânio elevado, cândido e bem-feito. Uma leve ruga de inflexão dupla, entre as duas sobrancelhas, despertava confusamente a idéia da ave do pensamento pairando, com as asas abertas, no meio daquela fronte.

Sentia-se, ao vê-lo, uma dessas criaturas benévolas, inocentes e puras, que progridem em sentido inverso da humanidade vulgar, a quem a ilusão torna sábias e a experiência entusiastas.

A mocidade transparente deixava ver a maturidade interior. Comparado ao padre de cabelos grisalhos que o acompanhava, à primeira vista, parecia filho, reparando-se bem, parecia pai.

Era este o Dr. Jaquemin Herodes. O Dr. Jaquemin Herodes pertencia à alta Igreja, que é pouco mais ou menos um papismo sem papa. O anglicanismo nessa época era agitado pelas tendências que depois se afirmaram e condensaram no puseísmo. O Dr. Jaquemin Herodes era desse matiz anglicano, que é quase uma variação romana. Era alto, correto, delgado e superior. O raio visual interior mal se distinguia de fora. O seu espírito era cingir-se à letra. De mais a mais era altivo. Enchia com a sua pessoa o lugar que ocupava. Parecia menos um reverendo que um monsenhor. A casaca era talhada à moda de sotaina. Em Roma é que ele estaria bem. Nascera para ser prelado da Câmara. Parecia ter sido criado expressamente para ser ornamento do papa, e ir atrás da cadeira gestatória, com toda a corte pontifícia, in abito paonazzo. O acidente de ter nascido inglês e uma educação teológica mais voltada para o Antigo Testamento que para o Novo fizeram com que lhe falhasse esse destino. Todos os seus esplendores resumiram-se nisto: ser cura de Saint-Pierre-Port, decano da ilha de Guernesey e sub-rogado do bispo de Winchester. Não há dúvida que era glória tudo isso.

Essa glória não impedia que o Sr. Jaquemin Herodes fosse um bom homem.

Como teólogo, dispunha da estima dos conhecedores e fazia quase autoridade em Arches, que é a Sorbonne da Inglaterra.

Tinha um ar douto, um piscar de olhos apto e exagerado, narinas cabeludas, dentes visíveis, o lábio inferior fino e o lábio superior espesso, muitos diplomas, uma gorda prebenda, amigos barões, a confiança do bispo, e continuamente trazia uma Bíblia na algibeira.

Mess Lethierry estava tão completamente absorto, que tudo quanto pôde produzir nele a entrada dos dois padres foi um imperceptível enrugar de sobrancelhas.

O Sr. Jaquemin Herodes aproximou-se, cumprimentou, recordou em poucas palavras, sobriamente altivas, a sua recente promoção e disse que vinha, segundo

o uso, apresentar aos notáveis, e a Mess Lethierry especialmente, o seu sucessor na paróquia, o novo cura de Saint-Sampson, o Reverendo Joe Ebenezer Caudray que daí em diante seria o pastor de Mess Lethierry.

Déruchette levantou-se.

O padre moço, que era o Reverendo Ebenezer, inclinou-se.

Mess Lethierry olhou para o Sr. Ebenezer Caudray, e mastigou entre dentes estas palavras: “Mau marinheiro”.

Graça apresentou cadeiras. Os dois reverendos assentaram-se perto da mesa.

O Dr. Herodes começou um speech. Tinha sabido de um acontecimento. Naufragara a Durande. Vinha, como pastor, trazer consolação e conselho. O naufrágio era uma desgraça, mas era também uma felicidade. Sondemo-nos; não nos inchava a prosperidade? As águas da felicidade são perigosas. Não se deve tomar as desgraças à má parte. Os caminhos do Senhor são desconhecidos. Mess Lethierry estava arruinado. Pois ser opulento é estar em perigo. Aparecem amigos falsos. A pobreza afasta-os. Fica-se isolado. Solus eris. A Durande dizem que dava 1 000 libras esterlinas por ano. Era demais para um filósofo. Fujamos às tentações, desdenhemos o ouro. Aceitemos com reconhecimento a ruína e o abandono. O isolamento dá frutos. Ganha-se nele as graças do Senhor. Foi na solidão que Aia achou as águas quentes conduzindo os asnos de Sebeão, seu pai. Não nos revoltemos contra os impenetráveis decretos da Providência. O santo homem Jó, depois da sua miséria, cresceu em riquezas. Quem sabe se a perda da Durande não teria compensações, mesmo temporais? Também ele, Herodes, empregara capitais em uma magnífica operação que se realizava em Sheffield; se Mess Lethierry, com os fundos que lhe restavam, quisesse entrar nesse negócio, podia refazer a fortuna; era um grande fornecimento de armas ao czar para reprimir a Polônia. Ganharia 300 por cento.

A palavra czar pareceu despertar Lethierry, que interrompeu o Dr. Herodes:

— Não quero nada com o czar.

O Reverendo Herodes respondeu:

— Mess Lethierry, os príncipes são aceitos por Deus. Deus escreveu: “Dai a César

o que é de César”. O czar é César.

Lethierry, meio absorto na cisma, murmurou:

— Quem é César? Não conheço.

O Reverendo Herodes continuou a exortação. Não insistiu por Sheffield. Não aceitar César era ser republicano. O reverendo compreendia que um homem fosse republicano. Nesse caso, compreendia que Mess Lethierry se voltasse para uma república. Mess Lethierry podia estabelecer a fortuna nos Estados Unidos; melhor do que na Inglaterra. Se quisesse decuplicar o que lhe restava, bastava-lhe tomar ações na grande companhia de exploração das plantações do Texas, que empregava mais de 20 000 negros.

— Não quero nada com a escravidão, disse Lethierry.

— A escravidão — replicou o Reverendo Herodes — é de instituição sagrada. Está escrito: “Se o senhor bater o escravo, nada lhe será feito, porque bate o seu dinheiro”.

Graça e Doce, na soleira da porta, ouviam com uma espécie de êxtase as palavras do reverendo doutor.

O reverendo continuou. Era, em suma, como dissemos, um bom homem; e quaisquer que pudessem ser os seus sentimentos de casta ou de pessoa com Mess Lethierry, vinha-lhe sinceramente dar o auxílio espiritual, e mesmo temporal, de que dispunha.

Se Mess Lethierry estava arruinado ao ponto de não poder cooperar, com fruto, numa especulação qualquer, russa ou americana, por que não entrava no governo e nas funções assalariadas? São nobres empregos esses, e o reverendo estava pronto a introduzir Mess Lethierry. Vagara em Jersey o lugar de deputado-visconde. Mess Lethierry era amado e estimado, e o Reverendo Herodes, decano de Guernesey, podia obter para Mess Lethierry o emprego de deputado-visconde de Jersey. O deputado-visconde é um funcionário considerável, assiste, como representante de Sua Majestade, aos atos jurídicos, aos debates da plebe e às execuções de sentenças.

Lethierry fixou os olhos no Dr. Herodes.

— Não gosto de enforcamentos — disse ele.

O Dr. Herodes, que até então pronunciara todas as palavras com a mesma inflexão, teve um acento de severidade e uma inflexão nova:

— Mess Lethierry, a pena de morte é ordenada por Deus, Deus entregou a espada ao homem. Está escrito: “Olho por olho, dente por dente”.

O Reverendo Ebenezer aproximou imperceptivelmente a sua cadeira da cadeira do Reverendo Jaquemin, e disse-lhe de modo que não fosse ouvido senão por ele:

— O que este homem diz é-lhe ditado.

Por quem? — perguntou no mesmo tom o Reverendo Herodes.

— Pela consciência.

— A consciência é isto.

O Reverendo Herodes meteu a mão no bolso, tirou um grosso volume em 18°, encadernado com fechos, pô-lo na mesa e disse em voz alta:

O livro era a Bíblia.

Depois foi-se abrandando o Dr. Jaquemin. O seu desejo era ser útil a Mess Lethierry, que considerava ser um homem forte. Como pastor, tinha ele direito e dever de aconselhar; todavia Mess Lethierry tinha a liberdade de aceitar ou recusar o conselho.

Mess Lethierry, caindo outra vez na absorção e no abatimento, já não ouvia. Déruchette, assentada ao pé dele, e pensativa também, não levantava os olhos, e dava àquela prática pouco animada a porção de acanhamento que resulta de uma presença silenciosa. Uma testemunha que não diz palavra é uma espécie de peso indefinível. Mas o Dr. Herodes não parecia senti-lo.

Como Lethierry não respondia, o Dr. Herodes deu largas à palavra. O conselhovem do homem, a inspiração vem de Deus. Há inspiração no conselho do padre. É bom aceitar os conselhos e perigoso rejeitá-los. Schoth foi agarrado por onze diabos por ter desdenhado das exortações de Nataniel. Tiburiano foi atacado de lepra por ter posto fora de casa o apóstolo André. Barjesus, apesar de mágico, ficou cego por ter zombado das palavras de São Paulo. Elxai e suas irmãs Marta e Martena estão no inferno a esta hora por terem desprezado as advertências de Valencianus, que lhes provava, claro como o dia, que o Jesus Cristo deles, de 38 léguas de comprimento, era um demônio. Oolibama, que também se chama Judite, obedecia aos conselhos. Rubem e Feniel ouviam os conselhos do céu; bastam os nomes deles para indicá-los; Rubem significa filho da visão, e Feniel significa face de Deus.

Mess Lethierry deu um soco na mesa.

— Mas a culpa é minha!

— Que que dizer? — perguntou Jaquemin Herodes.

— Digo que a culpa é minha.

— Culpa de quê?

— Por ter mandado vir a Durande à sexta-feira.

O Sr. Jaquemin Herodes murmurou ao ouvido do Sr. Ebenezer Caudray:

— Este homem é supersticioso.

Continuou depois, e em tom de mestre:

— Mess Lethierry, é pueril acreditar na sexta-feira. Não se deve acreditar em fábula. A sexta-feira é um dia como qualquer outro. Às vezes é data feliz. Melendez fundou a cidade de Santo Agostinho em sexta-feira; foi numa sexta-feira que Henrique VII deu a sua comissão a John Cabot; os peregrinos do Mayflower chegaram a Province-Town em sexta-feira. Washington nasceu na sexta-feira, 22 de fevereiro de 1732; Cristóvão Colombo descobriu a América na sexta-feira, 12 de outubro de 1492.

Dizendo isto, levantou-se.

Ebenezer, que tinha ido com ele, levantou-se também.

Graça e Doce, adivinhando que os reverendos iam despedir-se, abriram as portas.

Mess Lethierry não via nem ouvia nada.

O Sr. Jaquemin Herodes disse em aparte ao Sr. Ebenezer Caudray:

— Nem nos cumprimenta. Não é tristeza, é embrutecimento. Devemos crer que ele está doido.

Entretanto, pegou na Bíblia e colocou-a entre as mãos abertas, como quem segura um pássaro com receio que fuja. Esta atitude criou entre os personagens presentes uma certa espera. Graça e Doce esticaram a cabeça.

A voz de Herodes fez quanto pôde para ser majestosa.

— Mess Lethierry, não nos separemos sem ler uma página do livro santo. As situações da vida são esclarecidas pelos livros; os profanos têm as sortes virgilianas, os crentes têm as advertências bíblicas. O primeiro livro, apanhado ao acaso, aberto ao acaso, dá um conselho; a Bíblia, aberta ao acaso, faz uma revelação. É sobretudo boa para os aflitos. O que a Santa Escritura respira indubitavelmente é um lenitivo às dores. Diante dos aflitos deve-se consultar o santo livro sem escolher o lugar, e ler com candura o passo encontrado. O que o homem não escolhe, escolhe-o Deus. Deus sabe o que precisamos. O seu dedo invisível aponta o passo inesperado que nós lemos. Qualquer que seja a página, rebenta-lhe luz. Não busquemos outro. É a palavra do céu. O nosso destino é revelado misteriosamente no texto evocado com confiança e respeito. Ouçamos e obedeçamos. Mess Lethierry, o senhor tem uma aflição, este é o livro da consolação; está enfermo, este é o livro da saúde.

O Reverendo Jaquemin Herodes abriu a mola do fecho, meteu o dedo ao acaso entre duas páginas, pôs a mão no livro aberto, e concentrou-se; depois, abaixando os olhos com autoridade, leu em alta voz.

Eis o que leu:

“Isaac passeava no caminho que vai ter ao poço chamado Poço daquele que vive e vê.

“Rebeca, vendo Isaac, disse: `Quem é este homem que vem andando para mim?'

“Então Isaac fê-la entrar na sua tenda, e tomou-a por mulher, e grande foi o amor que lhe teve”.

Ebenezer e Déruchette olharam um para o outro.

SEGUNDA PARTE

O ENGENHEIRO GILLIATT

LIVRO PRIMEIRO

O ESCOLHO

CAPÍTULO PRIMEIRO

INCÔMODA CHEGADA, DIFÍCIL SAÍDA

Já os leitores terão adivinhado que o barco, visto em muitos pontos da costa de Guernesey, na noite anterior, em horas diversas, era a pança. Gilliatt escolheu ao longo da costa o canal que se abre entre os rochedos; era a rota perigosa, mas era o caminho direto. Tomar o mais curto foi o cuidado dele. Os náufragos não esperam. O mar é coisa urgente, uma hora de demora podia ser irreparável. Queria chegar depressa para socorrer a máquina.

Saindo de Guernesey, uma das preocupações de Gilliatt era não despertar a atenção. Saiu como quem fugia. Tinha ares de pessoa que se esconde. Evitou a costa de leste como se achasse inútil passar à vista de Saint-Sampson e SaintPierre-Port; resvalou silenciosamente ao longo da costa oposta, que é relativamente inabitada. Nos bancos teve de remar; mas Gilliatt manejava o remo segundo a lei hidráulica: tomar a água sem choque e impeli-la devagar; desse modo pôde nadar na obscuridade com a maior força e o menor rumor possíveis. Parecia que ia cometer uma ação feia.

A verdade é que, atirando-se de olhos fechados a um cometimento que parecia impossível, e arriscando a vida com todas as probabilidades contra ele, receava a concorrência.

Como o dia começava a despontar, os olhos ignotos que estão talvez abertos no espaço puderam ver no meio do mar, num ponto em que há mais solidão e ameaça, duas coisas entre as quais ia diminuindo o intervalo, sendo que uma aproximava-se da outra. Uma, quase imperceptível no largo movimento das vagas, era um barco de vela; nessa barca havia um homem; era a pança levando Gilliatt. A outra, imóvel, colossal, negra, tinha, sobranceira às vagas, uma surpreendente figura. Dois altos pilares amparavam acima da água, no vácuo, uma espécie de travessão horizontal, que era como que uma ponte entre as duas cumeadas. O travessão, tão informe de longe que seria impossível adivinhar o que era, fazia corpo com os dois pilares. Parecia uma porta. Por que haveria uma porta naquela abertura de todos os lados do mar? Dissera-se um dólmen titânico plantado ali, em pleno oceano, por uma fantasia magistral, e construído por mãos que têm o hábito de apropriar ao abismo as suas construções. Aquela medonha forma levantava-se na claridade do céu.

A luz da manhã ia crescendo a leste; a alvura do horizonte aumentava a negridão do mar. Do lado oposto, declinava a lua.

Os dois pilares eram as Douvres. A espécie de massa apertada entre eles como uma arquitrave era a Durande.

Apertando assim a sua vítima, e deixando-a ver, o escolho era horrível. A atitude daqueles rochedos era uma espécie de repto. Parecia esperar.

Nada mais altivo e arrogante como tudo aquilo; o navio vencido, o abismo vitorioso. Os dois rochedos, ainda gotejantes da tempestade da véspera, pareciam dois combatentes em suor. Tinha acalmado o vento, o mar dobrava-se placidamente; adivinhava-se que havia à flor da água alguns bancos onde os penachos de escuma caíam com graça; de longe vinha um murmúrio semelhante ao zumbido das abelhas. Tudo era um nível, menos as duas Douvres, levantadas e tesas como duas colunas negras. Os flancos escarpados tinham reflexos de armaduras. Pareciam prestes a encetar de novo a luta. Compreendia-se que elas nasciam de montanhas submarinas. Havia em tudo aquilo uma espécie de onipotência trágica.

De ordinário, o mar oculta os seus lances. Conserva-se voluntariamente obscuro. A incomensurável sombra guarda tudo para ele. É raro que o mistério renuncie ao segredo. Há um quê de monstro na catástrofe, mas em quantidade ignota. O mar é patente e secreto; esconde-se, não quer divulgar as suas ações. Produz um naufrágio e abafa-o; engolir é o seu pudor. A vaga é hipócrita; mata, rouba, sonega, ignora e sorri. Ruge, depois abranda-se.

Nada semelhante nas Douvres. Os dois rochedos, levantando acima das ondas o cadáver da Durande, tinham um ar de triunfo. Dissera-se dois braços saindo do golfão, e mostrando às tempestades o cadáver daquele navio. Era uma coisa igual ao assassino que se vangloria do crime.

A isto acrescentava-se o horror sagrado da hora. A madrugada tem uma grandeza misteriosa que se compõe de um resto de sonho e de um começo de pensamento. Nesse momento turvado, como que flutua ainda um pouco de espectro. A espécie de imenso H maiúsculo formado pelas duas Douvres com a Durande no centro aparecia no horizonte no meio de uma certa majestade crepuscular.

Gilliatt vestia a roupa do mar, camisa de lã, meias de lã, sapatos tacheados, japona de lã, calça de pano grosso mal tecido, com bolsos, e na cabeça um daqueles barretes de lã vermelha usados então na marinha, e que se chamavam, no século passado, galériennes.

Reconheceu o escolho e avançou.

A Durande estava ao contrário de um navio deitado a pique; era um navio pendurado no ar.

Não havia mais estranho cometimento que o de salvar a máquina daquele navio.

Era dia claro quando Gilliatt chegou às águas do escolho.

Como dissemos, havia pouco mar. A água tinha apenas a quantidade de agitação que lhe dava a estreiteza entre os rochedos. Há sempre marulho nos espaços de água como aquele, quer sejam grandes, quer pequenos. O interior de um estreito espuma sempre.

Gilliatt não abordou ao Douvres sem precaução.

Deitou a sonda muitas vezes.

Gilliatt tinha de fazer um pequeno desembarque de matalotagem.

Afeito às ausências, tinha sempre pronta em casa a matalotagem. Era um saco de biscoito, um saco de farinha de centeio, uma cesta de stockfish e de carne fumada, um grande pichel de água doce, uma caixa norueguense com ramagens pintadas, contendo algumas camisas de lã, grevas alcatroadas e uma pele de carneiro que ele punha de noite em cima da japona. Tinha posto tudo isso, às carreiras, na pança e mais um bocado de pão fresco. Com a pressa não levou outra ferramenta mais que o martelo da forja, o machado e a picareta, uma serra e uma corda de nós armada de fateixa. Com uma escada desta ordem e a maneira de servir dela, as subidas escabrosas tornam-se praticáveis nos mais rudes declives.

Pode-se ver na ilha de Serk a vantagem que os pescadores do Havre Gosselin tiram de semelhante corda.

As redes e as linhas e todo o arsenal de pescaria estavam na barca. Pô-los dentro por costume, e maquinalmente, porquanto, tendo de tentar até o último esforço, talvez se demorasse algum tempo no arquipélago de cachopos, e o aparelho da pescaria é inútil em tais sítios.

No momento em que Gilliatt abordou o escolho o mar baixava, circunstância favorável. As vagas decrescentes descobriram, ao pé da pequena Douvre, algumas pedras chatas ou pouco inclinadas, à semelhança de arpéus carregando um pavimento. Essas superfícies, umas estreitas, outras largas, encadeando e elevando-se, com espaços desiguais, ao longo do monólito vertical, prolongava-se em cornija até debaixo da Durande, que abarcava o espaço entre os dois rochedos. Estava apertada ali como um tornilho.

Eram cômodas aquelas plataformas para desembarcar e observar. Podia-se desembarcar ali, provisoriamente, o carregamento da pança. Mas era preciso apressar-se, porque elas estariam fora da água pouco tempo. Quando a maré enchesse, ficariam outra vez cobertas.

Foi para essas rochas, umas chatas, outras declives, que Gilliatt impeliu e fez parar a pança.

Uma espessura de sargaço, úmida e escorregadia, cobria essas rochas, e a obliqüidade de algumas delas mais escorregadias as tornava.

Gilliatt descalçou-se, saltou sobre o limo e amarrou a pança em uma ponta do rochedo.

Depois aproximou-se o mais devagar que pôde sobre a estreita cornija de granito, chegou debaixo da Durande, levantou os olhos e contemplou-a.

A Durande estava presa, suspensa, e como que ajustada entre os dois penedos, 20 pés acima das vagas. Era preciso que fosse atirada ali por uma furiosa violência do mar.

Tão impetuoso empurrão não faz pasmar a gente do mar. Para citar apenas um exemplo, a 25 de janeiro de 1840, no golfo de Stora, uma tempestade, já expirante, fez saltar um brigue, de um só pulo, por cima do casco naufragado da corveta La Marne e incrustou-o, com o gurupés à frente, entre dois penedios.

Demais, nas Douvres apenas havia um resto da Durande.

O navio arrancado às vagas foi de algum modo desenraizado da água pelo furacão. O turbilhão do vento tinha-o torcido, o turbilhão do mar tinha-o preso, e o navio, seguro em sentido inverso pelas duas mãos da tempestade, quebrou-se como se fora uma ripa. O pedaço da popa, com a máquina e as rodas, arrebatado das águas e impelido por toda a fúria do ciclone para a garganta das Douvres, lá ficou. O vento foi acertado; para meter aquele casco entre os dois rochedos, o furacão transformou-se em maça. A proa, levada e rolada pelo vento, deslocou-se nos bancos de pedra.

O porão, que estava arrombado, esvaziara no mar os bois, mortos.

Um grande pedaço da amurada da proa ainda estava preso ao casco, mas pendurado nas caixas das rodas por algumas lascas, fáceis de quebrar com um machado.

Viam-se aqui e ali, nas anfratuosidades longínquas do escolho, barrotes, tábuas, pedaços de vela, pedaços de correntes, todos os destroços, tranqüilos nos rochedos.

Gilliatt contemplava com atenção a Durande. A quilha era o teto que lhe ficava sobre a cabeça.

O horizonte, onde a água iluminada apenas se mexia, estava sereno. O sol saía esplendidamente daquela vasta massa azul.

De tempos a tempos uma gota de água destacava-se do navio e caía no mar.

CAPÍTULO II

AS PERFEIÇÕES DO DESASTRE

As Douvres eram diferentes de forma como de altura Na pequena Douvre, recurvada e aguda, viam-se ramificar-se, da base ao cimo,

longas veias de uma rocha cor de tijolo relativamente tenra, que fechava com as suas lâminas o interior do granito. Nessas lâminas avermelhadas havia, de espaço a espaço, fendas próprias para subir. Uma dessas fendas, um pouco acima do navio, foi tão bem trabalhada pelos arremessos do mar, que tornou-se uma espécie de nicho, onde podia guardar-se uma estátua. O granito da pequena Douvre era arredondado na superfície e macio como pedra de toque, o que não lhe tirava a dureza que tinha. A pequena Douvre terminava em ponta como um chifre. A grande Douvre, polida, unida, lisa, perpendicular, e feita como por desenho, era de um só jato e parecia feita de marfim preto. Nem um buraquinho, nem um relevo. Trepar por ela era impossível; não podia servir nem à fuga de um criminoso, nem ao ninho de um pássaro. No cume havia, como no rochedo Homem, uma plataforma; era, porém, inacessível.

Podia-se trepar pela pequena Douvre, mas não ficar lá, podia-se ficar na grande Douvre, mas não se podia subir.

Gilliatt, depois de lançar os olhos por tudo aquilo, voltou à pança, descarregou-a na mais larga das cornijas à flor da água, fez de todo o carregamento, aliás pequeno, uma espécie de pacote, atou-o num pano alcatroado, depois içou-o por meio de um cabo até um ponto da rocha onde o mar não podia chegar; feito isto, abraçou-se à pequena Douvre e, com pés e mãos, de fenda em fenda, trepou por ela até a Durande, que estava no ar.

Chegando à altura das caixas das rodas, saltou dentro.

O interior do navio era lúgubre.

A Durande apresentava todos os vestígios de um arrombamento medonho. Era a violação tremenda da tempestade. A tempestade comporta-se como um pirata. Nada assemelha-se mais a um atentado que-um naufrágio. Nuvens, trovão, chuva, vagas, tufões, rochedos, horrível multidão de cúmplices é esta.

No meio daqueles destroços, pensava-se em alguma coisa semelhante ao tripúdio furioso dos espíritos do mar. Tudo eram vestígios de raiva. As torções estranhas de certos ferros indicavam a ação impetuosa dos ventos. O convés assemelhava-se à célula de um louco; tudo estava despedaçado.

Nenhum animal estrangula uma pedra como o ar. A água regurgita das garras. O vento morde, o mar devora, a vaga é um queixo. É um socar e um esmigalhar ao mesmo tempo. O oceano tem um golpe igual à pata do leão.

O descalabro da Durande apresentava esta particularidade: era minucioso. Era uma espécie de terrível descascamento. Muitas coisas pareciam feitas de propósito. Que maldade!, podia dizer-se. As fraturas das amuradas eram feitas com arte. Este gênero de destruição é próprio do ciclone. Retalhar e adelgaçar tal é o capricho desse devastador enorme. O ciclone usa das averiguações do carrasco. Os seus desastres parecem suplícios. Dissera-se que algum rancor o anima; é requintado como um selvagem. Disseca examinando. Tortura o naufrágio, vinga-se, diverte-se; é mesquinhamente cruel.

Raros são os ciclones em nossos climas, e tanto mais terríveis quanto que sãoinesperados. Um rochedo encontrado pode fazer andar à roda a tempestade. É provável que a borrasca tivesse feito espiral sobre as Douvres, voltando-se subitamente em tromba ao choque do escolho, o que explicava o salto do navio a tamanha altura naquelas rochas. Quando o ciclone sopra, um navio pesa tanto como a pedra de uma funda.

A Durande tinha a chaga que fica ao homem cortado pelo meio; era um tronco aberto deixando ver um molho de destroços semelhante a entranhas. O cordoame flutuava e estremecia; as correntes balançavam e tiritavam; as fibras e os nervos do navio estavam nus e pendiam no ar. O que não estava quebrado estava desarticulado; a pregadura do casco assemelhava-se a uma almofada eriçada de pregos; em tudo havia a forma de ruína; uma barra de pé-de-cabra não era menos que um simples pedaço de ferro; uma sonda era apenas um pedaço de chumbo; uma driça era apenas uma ponta de cânhamo; uma talha era apenas um fio de debrum; por toda a parte a inutilidade lamentável da destruição; nada havia que não estivesse despregado, desenganchado, rachado, roído, recurvado, aniquilado; nenhuma adesão naquele feio montão de destroços; em tudo o deslocamento e a rutura, esse aspecto de inconsistente e líquido que caracteriza todas as confusões, desde as refregas dos homens, que se chamam batalhas, até as refregas dos elementos, que se chamam caos. Tudo esboroava, tudo caía, e uma torrente de tábuas, de lonas, de ferro, de cabos e de vigas tinha parado na grande fratura da quilha, donde o menor choque podia precipitar tudo ao mar. O que restava daquela poderosa carena tão triunfante outrora, toda aquela parte suspensa entre as duas Douvres e talvez prestes a cair, tudo estava roto e dilacerado, deixando ver pelos buracos o interior sombrio do navio.

Debaixo cuspia a espuma sobre aquela coisa miserável.

CAPÍTULO III

SÃ, MAS NÃO SALVA

Gilliatt não esperava achar somente metade do navio. Nas indicações, aliás tão precisas, do capitão Shealtiel, nada fazia pressentir aquela divisão pelo meio. Foi talvez na ocasião em que o navio partiu-se, debaixo da imensa espessura da espuma, que houve aquele “estalo diabólico” ouvido pelo capitão do Shealtiel. O capitão afastava-se sem dúvida no momento do último sopro do vento, e não viu que era uma tromba que impelia o navio. Mais tarde, aproximando-se para observar o desastre, viu apenas a parte anterior do casco, ficando-lhe escondido pelo rochedo o lado fraturado donde se rompera metade do navio.

Exceto isto, o capitão do Shealtiel disse tudo exato. O casco estava perdido, a máquina estava intacta.

São freqüentes estes acasos nos naufrágios como nos incêndios. Não se pode compreender a lógica do desastre.

Os mastros quebrados tinham caído; o cano nem mesmo envergou; a grande placa de ferro que amparava o mecanismo manteve-o intacto e completo. O revestimento de tábuas das rodas estava destruído como as lâminas de uma persiana; mas através das fendas viam-se as rodas em bom estado. Apenas faltavam alguns raios.

Além da máquina, tinha resistido o grande cabrestante da popa. Tinha ainda a corrente, e graças ao seu robusto encaixe em um quadro de tabuões, ainda podia prestar serviços, uma vez que se não rompesse a prancha. O pedaço do casco metido entre as Douvres estava firme, já o dissemos, e parecia sólido.

A conservação da máquina tinha um quê de irrisório e acrescentava a ironia à catástrofe. A sombria malícia do desconhecido mostra-se, às vezes, nessas espécies de zombarias amargas. A máquina estava salva, o que não impedia que estivesse perdida. O oceano guardava-a para demoli-la aos poucos. Divertimento de gato.

A máquina ia agonizar e desfazer-se peça por peça. Ia diminuir dia a dia e, por assim dizer, derreter-se. Ia servir de brinco às selvajarias de espuma. Que fazer? Que aquele pesado montão de mecanismos e encaixes, maciço e delicado a um tempo, condenado à imobilidade por seu peso, entregue na solidão às forças demolidoras, posto pelo cachopo à discrição do vento e do mar, pudesse, sob a pressão daquele lugar implacável, escapar à destruição lenta era até loucura imaginá-lo.

A Durande estava prisioneira das Douvres.

Como tirá-la dali? Como libertá-la?

A evasão de um homem é difícil; mas que problema não é este: a evasão de uma máquina!

CAPÍTULO IV

PRÉVIO EXAME LOCAL

Gilliatt estava cercado de urgências. O mais urgente era achar ancoradouro para a pança, e depois abrigo para si.

A Durande estava mais carregada a bombordo, que a estibordo, e, por isso, a roda direita ficava mais elevada que a da esquerda.

Gilliatt subiu à caixa das rodas da direita. Daí dominava a parte baixa dos bancos, e embora a rede de rochas alinhadas em ângulos por trás das Douvres fizesse muitos cotovelos, Gilliatt pôde estudar o plano geométrico do escolho.

Começou por aí.

As Douvres, como indicamos, eram duas altas pilastras marcando a entrada estreita de uma viela de penedos perpendiculares na frente. Não é raro achar nas formações submarinas primitivas esses corredores singulares feitos como que a machado.

Aquele, que era tortuoso, nunca estava a seco, mesmo nas marés baixas. Uma corrente agitada atravessava-o sempre. A impetuosidade do redemoinho era boa ou má, segundo o rumo do vento reinante; ora quebrava a onda, e fazia-a cair; ora exasperava-a. Este último caso era o mais freqüente; o obstáculo encoleriza a vaga e leva-a aos excessos; a espuma é a exageração da vaga.

O vento da tempestade, naqueles estrangulamentos entre duas rochas, sofre a mesma compressão e adquire a mesma malignidade. É a tempestade no estado deestranguria. O sopro imenso fica imenso, mas faz-se agudo. É ao mesmo tempo maça e dardo. Fura e esmaga. Imaginai o furacão fazendo-se vento coado.

As duas cadeias de rochedos, deixando entre si essa espécie de rua do mar, terminavam em degraus mais baixos que as Douvres, gradualmente decrescentes, e mergulhavam juntas no mar a uma certa distância. Havia aí outra foz menos elevada que as das Douvres, porém mais estreita ainda e que era a entrada, a leste, daquela garganta. Adivinhava-se que o duplo prolongamento das duas arestas de rocha continuava a rua debaixo da água até o rochedo Homem, colocado como uma cidadela quadrada na outra extremidade do escolho.

Nas marés baixas, e era nessa ocasião que Gilliatt observava, as duas fileiras de bancos mostravam os seus dorsos, alguns a seco, todos visíveis, e coordenando-se sem interrupção.

O Homem limitava e resguardava no levante a massa inteira do escolho, que era limitado, ao poente, pelas duas Douvres.

Todo o escolho, visto a vôo de pássaro, apresentava um rosário recurvado de rochedos, tendo em uma ponta as Douvres e na outra o Homem.

O escolho Douvres, visto em seu conjunto, era apenas a imersão de duas gigantescas lâminas de granito tocando-se quase e caindo verticalmente, como uma crista de montes que estão no fundo do oceano. Há, fora do abismo, essas esfoliações imensas. A lufada e a onda tinham recortado essa crista como uma serra. Via-se apenas o cimo, era o escolho. O que a onda escondia devia ser enorme. A viela onde a tempestade tinha atirado a Durande era o centro dessas duas lâminas colossais.

Essa viela, em ziguezague como o relâmpago, tinha quase em todos os pontos a mesma largura. O oceano fê-la assim. O eterno tumulto produz suas regularidades estranhas. Sobe da água uma geometria.

De um cabo a outro da garganta, as duas muralhas da rocha faziam-se face paralelamente a uma distância que a Durande media quase com exatidão entre as duas Douvres; o esvaziamento da pequena Douvre, recurvada e voltada, dera lugar às caixas das rodas. Em qualquer outro lugar as caixas ficariam quebradas.

A dupla fachada interna do escolho era hedionda. Quando na exploração do deserto de água chamado Oceano chega-se às coisas ignotas do mar, torna-se tudo surpreendente e disforme. Aquilo que Gilliatt, do alto do casco, podia ver na garganta fazia horror. Há muitas vezes nas gargantas graníticas do oceano uma estranha imagem permanente do naufrágio. A garganta das rochas Douvres tinha a sua, que era assustadora. Os óxidos da rocha davam-lhe aqui e ali umas vermelhidões imitando placas de sangue coalhado. Era uma espécie de transudação sangrenta de um matadouro. Havia um ar de açougue naqueles parcéis. A rude pedra marinha, diversamente colorida, aqui pela decomposição dos amálgamas metálicos misturados à rocha, ali pelo bolor, ostentava vermelhidões hediondas, esverdeamentos suspeitos, despertando uma idéia de morte e de extermínio. Acreditava-se ver uma parede ainda não enxuta do quarto de um assassinato. Dissera-se que eram aqueles os vestígios de um despedaçamento de homens; a rocha íngreme tinha um cunho de agonias acumuladas. Em certos lugares a carnagem parecia escorrer ainda, a muralha estava molhada e parecia impossível apoiar o dedo sem tirá-lo sangrento. Por toda a parte aparecia uma ferrugem de morticínio. Ao pé do duplo declive paralelo, esparso à flor da água ou debaixo da vaga, ou a seco nas escavações, monstruosos seixos redondos, uns escarlates, outros negros ou roxos, tinham semelhanças de vísceras; acreditava-se ver pulmões frescos ou fígados pútridos. Dissera-se que ali se tinham esvaziado ventres de gigantes. Longos fios vermelhos, que se poderiam tomar por destilações fúnebres, riscavam o granito de alto a baixo.

Esses aspectos são freqüentes nas cavernas do mar.

CAPÍTULO V

UMA PALAVRA A RESPEITO DAS COLABORAÇÕES SECRETAS DOS ELEMENTOS

A forma de um escolho não é coisa indiferente para os que, nos riscos das viagens, podem ser condenados à habitação temporária de um escolho no oceano.

Há o escolho Pirâmide, um cimo fora da água; há o escolho círculo, coisa semelhante a uma roda de pedras grandes; há o escolho corredor. O escolho corredor é o pior de todos. Não somente por causa da angústia das ondas entre as rochas e do tumulto das águas apertadas, mas também por causa das propriedades meteorológicas que parecem desprender-se do paralelismo das duas rochas em pleno mar. As duas paredes retas são um verdadeiro aparelho de Volta.

Orienta-se o escolho corredor, e isso é importante. Resulta daí uma primeira ação sobre o ar e a água. O escolho corredor atua na água e no vento mecanicamente, pela forma, galvanicamente, pela atração diversa dos seus planos verticais, massas sobrepostas e contrariadas umas pelas outras.

Esta espécie de escolhos atrai todas as forças furiosas esparsas no furacão, e tem sobre a borrasca uma singular força de concentração.

Donde resulta que nas paragens desses cachopos há uma certa acentuação da tempestade.

Cumpre saber que o vento é compósito. Acredita-se que o vento é simples; engano. Essa força não é somente dinâmica, é química; não é somente química, é magnética. Tem alguma coisa que é inexplicável.

O vento é tão elétrico como aéreo. Certos ventos coincidem com auroras boreais. O vento do banco da Anguila rola vagas de 100 pés de altura, espanto de Dumont d'Urville. “A corveta”, disse ele, “não sabia a quem havia de atender”.

Debaixo das lufadas austrais, verdadeiros tumores doentios sopram no oceano, e

o mar torna-se tão horrível que os selvagens fogem para não vê-lo.

As lufadas boreais são outras; misturam-se de pontas de gelo e esses furacões irrespiráveis impelem para a neve os trenós dos esquimós. Outros ventos queimam. É o simum da África, é o tufão da China e o samiel da Índia. Simum, Tufão, Samiel; parece que são demônios estes nomes. Fundem o cimo das montanhas; uma tempestade vitrificou o vulcão de Toluca. Este vento quente, turbilhão cor de tinta atirando-se sobre as nuvens encarnadas, fez dizer aos vedas: “Eis aí o Deus negro que vem roubar as vacas encarnadas”. Sente-se em tudo isto a pressão do mistério elétrico.

O vento é cheio desse mistério. Do mesmo modo o mar. Também ele é complicado; debaixo das suas vagas de águas, que se vêem, há outras vagas de forças, que se não vêem. Compõem-se de tudo. De todas as misturas, a do oceano é a mais invisível e a mais profunda.

Tentai conhecer esse caos, tão enorme que vai ter ao nada. É o recipiente universal, reservatório para as fecundações, cadinho para as transformações. Amassa, depois dispersa; acumula, depois semeia; devora, depois produz. Recebe todos os esgotos da terra, e aferrolha-os. É sólido no banco, líquido na água, fluido no eflúvio. Como matéria é massa, e como força é abstração. Iguala e consorcia os fenômenos. Simplifica-se no infinito pela combinação. É a força da mescla e da turvação que chega à transparência. A diversidade solúvel prende-se na sua unidade. Tem tantos elementos diversos que é idêntico. Uma das suas gotas é todo ele. Como é cheio de tempestades, torna-se equilíbrio. Platão via dançar esferas; coisa estranha, mas real na colossal evolução terrestre à roda do Sol, o oceano, com o seu fluxo e refluxo, é o pêndulo do globo.

No fenômeno do mar, todos os fenômenos estão presentes. O mar é aspirado pelo turbilhão como um sifão; uma tempestade é um corpo de bomba; o raio vem da água como do ar; nos navios sentem-se abalos surdos, depois um cheiro de enxofre sai do poço das correntes. O oceano ferve. “O diabo pôs o mar na sua caldeira”, dizia Ruyter.

Em certas tempestades que caracterizam os movimentos das estações e as entradas em equilíbrio das forças genesíacas, os navios batidos de escuma parecem evaporar uma luz, e flamas de fósforo correm pelo cordoame, tão misturadas aos cabos que os marinheiros estendem a mão e procuram apanhar esses pássaros de fogo. Depois do terremoto de Lisboa, um hálito de fornalha impeliu para a cidade uma vaga de 60 pés de altura. A oscilação oceânica liga-se ao estremecimento terrestre.

Essas energias incomensuráveis tornam possíveis todos os cataclismos.

No fim de 1864, a 100 léguas das costas de Malabar, soçobrou uma ilha, como se fosse um navio. Os pescadores que tinham saído de manhã voltaram à noite e não acharam nada; apenas puderam ver as suas aldeias debaixo da água; e desta vez foram os barcos que assistiram ao naufrágio das casas.

Na Europa, onde parece que a natureza sente-se constrangida em respeito à civilização, tais acontecimentos são raros até à impossibilidade presumível.

Todavia Jersey e Guernesey fizeram parte da Gália; e, no momento em que escrevemos, um vento equinócio acaba de demolir na fronteira da Inglaterra e da Escócia o penedio da praia chamado Primeiro dos Quatro, First of the Fourth.

Em parte alguma essas forças pânicas aparecem mais formidavelmente amalgamadas do que no surpreendente estreito boreal chamado Lyse-Fiord. O Lyse-Fiord é o mais temível dos escolhos-bocais do oceano. Aí a demonstração é completa. E o mar da Noruega, a vizinhança do tremendo golfo Stavanger, o 59° grau de latitude. A água é pesada e negra com uma febre de tempestade intermitente.

Nessa água, no meio da solidão, há uma grande rua sombria. Não é rua para pessoa alguma. Ninguém passa ali; nenhum navio se arrisca nesse lugar. Um corredor de 10 léguas de comprido, entre duas muralhas de 3 000 pés de altura: eis a entrada. Esse estreito tem cotovelos e ângulos como todas as ruas do mar, que nunca são retas, pois que são feitas pela torção da vaga.

No Lyse-Fiord, a vaga é quase sempre tranqüila; o céu é sereno; lugar terrível. Onde está o vento? Não está em cima. Onde está o trovão? Não está no céu. O vento está debaixo do mar; o trovão está debaixo da rocha.

De tempos a tempos há um estremecimento debaixo da água. Em certas horas, sem que haja uma nuvem sequer no ar, no meio da altura do penedio vertical, a 1 000 ou 1 500 pés acima das vagas, mais do lado do sul que do norte, o rochedo reboa subitamente, rompe daí um relâmpago, que fende o ar, e recolhe-se logo, como esses brinquedos que se alongam e contraem nas mãos das crianças; tem contrações e ampliações esse relâmpago, fere a rocha oposta, entra outra vez, torna a aparecer, recomeça, multiplica as suas cabeças e as suas línguas, eriça-se, fere onde pode, recomeça ainda, até que se apaga sinistramente. Fogem os bandos de pássaros. Nada é tão misterioso como essa artilharia saindo do invisível. Um rochedo ataca outro. Fulminam entre si os cachopos. É uma guerraque nada tem com os homens. Ódio de dois penedos no golfão.

No Lyse-Fiord o vento torna-se eflúvio, a rocha desempenha as funções de nuvem, e o trovão tem arrojos de vulcão. É uma pilha aquele estranho estreito; tem por elementos as suas duas filas de rochas.

CAPÍTULO VI

CAVALARIÇA PARA O CAVALO

Gilliatt era sabedor de cachopos e não tomava as Douvres ao sério. Antes de tudo,

já o dissemos, tratou ele de pôr a pança em segurança.

A dupla fileira de arrecifes que se prolongava sinuosamente por trás das Douvres fazia grupo com os outros rochedos, e adivinhavam-se cavas e sacos saindo da viela, e prendendo-se à garganta principal como ramos a um tronco.

A parte inferior dos escolhos estava tapetada de sargaço e a parte superior de líquen. O nível uniforme do sargaço em todas as rochas marcava a linha da flutuação da maré cheia.

As pontas que a água não atingia tinham o prateado e o dourado que dá aos granitos marinhos o líquen branco e o líquen amarelo.

Cobria a rocha em certos pontos uma lepra de conchas corroídas.

Em outros pontos, nos ângulos reentrantes, onde se acumulara uma areia fina, ondeada na superfície antes pelo vento que pela vaga, havia tufos de cardo azul.

Nos redentes pouco batidos pela espuma, reconheciam-se as pequenas covas furadas pelos ursos-do-mar. Este urso-concha, que anda, bola viva, rolando-se nas pontas, e cuja couraça compõe-se de mais de 10 000 peças artisticamente ajustadas e soldadas, o urso-marinho, cuja boca se chama, ninguém sabe por que, lanterna de Aristóteles, cava o granito com os cinco dentes que tem e aloja-se nos buracos. Nessas alvéolas é que os pescadores de frutos do mar dão com ele. Cortam-no em quatro partes e comem-no cru como ostra. Alguns metem o pão naquela carne mole. Daí o nome de ovo do mar.

As cumeadas dos bancos descobertas pela maré que vazava iam ter mesmo debaixo do rochedo Homem a uma espécie de angra murada quase por todos os lados. Havia ali evidentemente um ancoradouro possível. Gilliatt observou a angra. Tinha a forma de uma ferradura e abria-se de um só lado, ao vento leste, que é o menos mau daquelas paragens. O vento ali estava preso e quase adormecido. Era segura aquela baiazinha. Nem Gilliatt tinha muito onde escolher.

Se Gilliatt quisesse aproveitar a maré vazante, devia apressar-se.

O tempo continuava a ser magnífico. Estava de bom humor aquele insolente mar.

Gilliatt tornou a descer, calçou os sapatos, desatou a amarra, entrou na barca e navegou para fora. Costeava com o remo a parte externa do cachopo.

Chegando perto do Homem, examinou a entrada da angra.

Um certo ondeado na mobilidade da água, ruga imperceptível a qualquer que não fosse marinheiro, desenhava aquele passo.

Gilliatt estudou alguns instantes a curva, lineamento quase indistinto na vaga, depois tomou ao largo, a fim de virar a gosto, e entrar bem, e vivamente, de um só movimento de remo, entrou na angra.

Sondou.

Era excelente o ancoradouro.

A pança estaria protegida ali quase contra todas as eventualidades da estação.

Os mais temíveis arrecifes têm desses recantos tranqüilos. Os portos que se acham nos escolhos assemelham-se à hospitalidade do beduíno; são honestos e seguros.

Gilliatt arranjou a pança o mais perto do Homem que lhe foi possível, em ponto que não pudesse perder-se, e pôs ao mar as duas âncoras. Feito isto, cruzou os braços e refletiu.

A pança estava abrigada; era um problema resolvido; mas apresentava-se o segundo. Onde abrigar-se Gilliatt?

Ofereciam-se dois pontos; o primeiro era a própria pança, com o seu camarote mais ou menos habitável; o segundo era o cimo do rochedo Homem, fácil de escalar.

De qualquer destes dois ângulos podia-se ir a pé nas vazantes, saltando-se de rocha em rocha, até Douvres, onde estava a Durande.

Mas a vazante dura apenas um momento, e no resto do tempo ficava ele separado, ou do asilo ou da Durande, por umas 200 braças. Nadar no mar de um escolho a outro é difícil; com qualquer agitação é impossível.

Era preciso desistir da pança e do Homem.

Nenhuma estação possível nos rochedos vizinhos.

Os cimos inferiores desaparecem duas vezes por dia debaixo da enchente da maré.

Os cimos superiores eram constantemente cuspidos pelos saltos da espuma. Inóspita lavagem.

Restava o casco da Durande.

Podia-se viver ali?

Gilliatt teve essa esperança.

CAPÍTULO VII

QUARTO PARA O VIAJANTE

Meia hora depois, Gilliatt, de volta à Durande, subia e descia no interior do tombadilho ao porão, aprofundando o exame sumário de sua pequena visita.

Com auxílio do cabrestante, tinha ele içado à Durande o pacote que fez do carregamento da pança. O cabrestante comportara-se bem. Não faltava onde meter o carregamento. Gilliatt tinha, no meio daqueles destroços, muito onde escolher.

Achou entre as ruínas um escopro caído sem dúvida da selha de carpinteiro e com

o qual aumentou ele a ferramenta.

Além disso, como tudo serve onde não há abundância, tinha consigo a faca.

Gilliatt trabalhou o dia no casco, limpando, consolidando, simplificando. A tardinha se conheceu isto:

Todo o casco tiritava ao vento, tremia a cada passo de Gilliatt. Só era estável e firme a parte do casco metida entre os rochedos, que continha a máquina e ficava

poderosamente presa ao granito.

Instalar-se na Durande era imprudente. Era sobreposse; e, longe de dar peso ao navio, cumpria torná-lo mais leve. Carregar sobre o casco era o contrário do que cumpria fazer. Aquela ruína queria melhores tratos. Era uma espécie de doente que expira. Havia

bastante vento para maltratá-la.

Já era mau ter de trabalhar nela. A porção de trabalho que o casco devia suportar naturalmente talvez o fatigasse mais do que comportavam as suas forças. Além disso, se sobreviesse algum acidente noturno durante o sono de Gilliatt,

estar no navio era soçobrar com ele. Nenhum auxilio possível; tudo ficava perdido. Para socorrer o navio, era preciso estar fora dele. Fora dele e junto dele, tal era o problema. Complicava-se a dificuldade. Onde achar um abrigo em tais condições? Gilliatt pensou.

Só restavam as duas Douvres. Pareciam pouco habitáveis. Via-se, debaixo, no platô superior da grande Douvre, uma espécie de excrescência.

As rochas em pé, com a parte superior chata, como a grande Douvre e o Homem, são penedos decapitados, abundam nas montanhas e no oceano. Certos rochedos, principalmente os que se encontram em mar largo, têm entranhas como se foram árvores golpeadas. Parecem ter recebido um golpe de machado. Com efeito, essas rochas andam sujeitas ao vaivém do furacão, que é o lenhador do mar.

Existem outras causas de cataclismo mais profundas ainda. Daí vem que há tantas feridas em todos esses velhos granitos. Alguns desses colossos têm a cabeça cortada.

Às vezes a cabeça, sem que se possa explicar, não cai e fica mutilada, no cume do rochedo. Não é rara essa singularidade. A Roque-au-Diable, em Guernesey, e a Table, no vale de Annweiler, apresentam nas mais surpreendentes condições esse estranho enigma geológico.

Provavelmente tinha acontecido à grande Douvre alguma coisa semelhante.

Se a intumescência que havia no platô não era natural, era necessariamente algum fragmento que ficara da decapitação. Talvez houvesse alguma escavação nesse pedaço de rocha. Buraco para meter-se um homem; era o que Gilliatt queria. Mas como chegar até lá. Como trepar por aquela coluna vertical, densa e polida

como um seixo, meio coberta de uns filamentos viscosos, tendo o aspecto escorregadio de uma superfície ensaboada? Gilliatt tirou da caixa da ferramenta a corda de nós, prendeu-a à cintura e pôs-se

a escalar a pequena Douvre. À proporção que ia subindo, tornava-se mais difícil a ascensão. Esquecera-se de tirar os sapatos, o que aumentava a dificuldade. Não sem custo chegou à ponta. Chegando à ponta, pôs-se de pé sobre ela. Havia apenas lugar para os pés. Fazer disso um lugar para descansar e dormir era difícil. Um estilita contentara-se; Gilliatt, mais exigente, queria coisa melhor.

A pequena Douvre curvava-se para a grande, e de longe parecia cumprimentá-la, e o intervalo das duas Douvres, que era de uns 20 pés embaixo, era apenas de 8 ou 10 pés em cima.

Da ponta, onde trepara, Gilliatt viu mais distintamente a intumescência que cobria a plataforma da grande Douvre. Essa plataforma elevava-se umas 3 toesas acima da cabeça dele. Separava-o dela um precipício.

O declive da pequena Douvre desaparecia debaixo dele. Gilliatt desprendeu da cintura a corda de nós, tomou rapidamente com o olhar as dimensões e atirou a ponta da corda sobre a plataforma.

O gancho arranhou a rocha e resvalou. A corda de nós que tinha o gancho na

extremidade caiu aos pés de Gilliatt ao longo da pequena Douvre. Gilliatt recomeçou, lançando a corda mais longe e visando a protuberância granítica onde via buracos.

O lanço foi tão destro e tão firme que o gancho segurou. Gilliatt puxou. Desprendeu-se a corda, e veio bater na coluna abaixo de Gilliatt. Gilliatt lançou a corda pela terceira vez. Desta vez não caiu. Gilliatt puxou a corda. A corda resistiu. O gancho estava seguro. Ficara seguro em

alguma anfratuosidade da plataforma que Gilliatt não podia ver. Tratava-se de confiar a vida àquela desconhecida prisão do gancho. Gilliatt não hesitou. Urgia tudo. Era preciso ir quanto antes. Além de que, descer ao tombadilho da Durande para procurar qualquer outro meio

era coisa impossível. O resvalamento era provável e a queda quase certa. Sobe-

se, não se desce. Tinha Gilliatt, como todos os bons marinheiros, movimento de previsão. Nunca perdia força. Vinham daí os prodígios de vigor que ele executava com músculos ordinários; tinha as forças comuns, mas uma grande coragem. Ao lado da força, que é física, tinha a energia, que é moral.

Devia praticar ali um ato tremendo.

Galgar, suspenso àquele fio, o intervalo das duas Douvres; tal era a questão.

São freqüentes nos atos de dedicação ou de dever esses pontos de interrogação que parecem postos pela morte.

Farás isto?, diz a sombra.

Gilliatt executou uma segunda tração de ensaio sobre o gancho; o gancho resistiu.

Gilliatt embrulhou a mão esquerda no lenço, apertou a corda com a mão direita coberta pela mão esquerda, depois tendo um pé adiante, e empurrando com o outro pé a rocha a fim de que o vigor do impulso impedisse a rotação da corda, precipitou-se do alto da pequena Douvre sobre a coluna da grande.

Duro foi o choque.

Apesar da precaução tomada por Gilliatt a corda volteou, e foi o ombro dele que bateu no rochedo.

Por sua vez os punhos bateram na rocha. Desatara-se o lenço. As mãos ficaram arranhadas; admirou que não ficassem esmagadas.

Gilliatt conservou-se algum tempo aturdido e suspenso.

Mas ainda assim, bastante senhor de si para não largar a corda.

Decorreu algum tempo em oscilação e sobressaltos antes que pudesse agarrar a corda com os pés, mas conseguiu afinal.

Voltando a si e conservando a corda entre as mãos, Gilliatt olhou para baixo.

Não se assustava a respeito do comprimento da corda que mais de uma vez lhe servira a maiores alturas. A corda, com efeito, arrastava na Durande.

Gilliatt, certo de poder descer, começou a trepar.

Em poucos momentos chegou ao cume.

Ninguém, a não ser os pássaros, tinha posto ali o pé. A plataforma estava coberta de esterco de pássaros. Era um trapézio irregular, lasca daquele colossal granito chamado grande Douvre. No meio havia uma cava como uma bacia. Trabalho das chuvas.

Gilliatt conjeturara com exatidão. Via-se no ângulo meridional do trapézio uma superposição de rochedos, destroços prováveis do descalabro do cimo. Esses rochedos, espécie de monte de pedras desmedidas, deixavam lugar a um animal feroz que ali tivesse trepado para passar. Equilibravam-se no meio da confusão; tinham os interstícios de um montão de grabatos. Não havia grota nem antro, mas buracos como uma esponja. Um desses podia admitir Gilliatt.

O fundo desse buraco era de relva e musgo. Gilliatt estaria ali como se fosse em casa.

A alcova na entrada tinha 2 pés de altura. Estreitava-se para o fundo. Há túmulos de pedra que têm essa forma. O monte de rochedos estava encostado ao sudoeste, de modo que a casinhola de Gilliatt ficava garantida das águas, mas aberta ao vento do norte.

Gilliatt achou que isso era bom.

Os dois problemas estavam resolvidos, a pança tinha um porto, ele tinha casa.

A excelência da casa era ficar perto da Durande.

O gancho da corda tinha caído entre dois pedaços de rocha e ficou solidamente preso. Gilliatt imobilizou-o pondo em cima uma grossa pedra. Depois entrou imediatamente em livre prática com a Durande.

Já estava em casa.

A grande Douvre era a casa, e Durande era a oficina.

Ir e vir, subir e descer, nada mais simples.

Atirou-se vivamente pela corda abaixo até o tombadilho.

O dia foi bom, a coisa começava bem, Gilliatt estava satisfeito, reparou que tinha fome.

Desatou o cesto de provisões, abriu a faca, cortou um pedaço de carne fumada, trincou o pão de rala, bebeu um gole do pichel de água doce e ceou admiravelmente.

Trabalhar bem e comer bem são duas alegrias. O estômago cheio assemelha-se a uma consciência satisfeita.

Acabada a ceia, ainda havia sol. Gilliatt aproveitou a claridade para começar a aliviar o navio, que era urgente.

Tinha passado uma parte do dia a separar os destroços. Pôs de lado, no compartimento sólido, onde estava a máquina, tudo o que podia servir, madeira, ferro, cordoame, velame. O que era inútil deitou ao mar.

O carregamento da pança, içado pelo cabrestante até o tombadilho, era, embora sumário, um estorvo. Gilliatt viu a espécie de nicho cavado na pequena Douvre, a uma altura que ele podia tocar com a mão. Vêem-se muitas vezes nos rochedos esses armários naturais, não fechados, é verdade. Pensou que era possível confiar

o depósito àquele nicho. Pôs no fundo as duas caixas, a da ferramenta e a do vestuário, os dois sacos, o centeio e o biscoito, e na frente, demasiado chegado à borda, por não haver mais lugar, o cesto das provisões.

Teve cuidado de retirar da caixa das roupas a pele de carneiro, a japona e as grevas alcatroadas.

Para impedir que o vento desse na corda de nós, prendeu a ponta em uma porca da Durande.

A porca era muito curva e prendia a corda tão bem como se fosse uma mão fechada.

Restava a parte superior da corda. Prender a extremidade de baixo era fácil, mas no cimo da coluna, no lugar onde a corda encontrava a borda da plataforma, era de esperar que fosse a pouco e pouco gasta pelo ângulo do rochedo.

Gilliatt investigou o montão de destroços que reservara, apanhou alguns pedaços de lona e alguns fios de carreta achados entre os cabos, e meteu tudo nas algibeiras.

Qualquer marujo adivinhava logo que ele ia forrar com a lona e os fios o pedaço da corda na altura do ângulo do rochedo, de modo a preveni-lo de qualquer avaria.

Feita a provisão dos trapos, pôs as grevas nas pernas, vestiu a japona, prendeu ao pescoço a pele de carneiro, e assim vestido, com essa panóplia completa, agarrou a corda, robustamente presa ao flanco da grande Douvre, e subiu por aquela sombria torre do mar.

Gilliatt, apesar de ter as mãos arranhadas, chegou rapidamente à plataforma.

Os últimos clarões do poente iam-se apagando. Fazia noite no mar. O alto da Douvre conservava alguma claridade.

Gilliatt aproveitou o resto da claridade para forrar a corda. Aplicou no cotovelo que ela fazia no rochedo uma ligadura de muitos pedaços de vela, fortemente atada em cada pedaço. Era pouco mais ou menos o forro que costumam pôr nos joelhos as atrizes para as agonias e súplicas do 5° ato.

Terminado o forro, Gilliatt levantou-se.

Desde alguns instantes, enquanto esteve forrando a corda, ouvia ele confusamente no ar um estremecimento singular.

Assemelhava-se, no silêncio da noite, ao rumor que fizesse o bater das asas de um morcego.

Gilliatt levantou os olhos.

Um grande círculo negro volteava-lhe por cima da cabeça no céu profundo e alvo do crepúsculo.

Costuma-se ver, nos velhos quadros, círculos iguais sobre a cabeça dos santos. A diferença é que são de ouro em fundo sombrio; este era tenebroso em fundo claro. Nada mais estranho. Dissera-se a auréola noturna da grande Douvre.

O círculo abaixava-se e levantava-se; estreitava-se e alargava-se.

Eram gaivotas, goelanos, corvos, cotovias, uma nuvem de pássaros do mar, espantados.

É provável que a grande Douvre fosse a hospedaria deles, e que eles fossem buscar aí o repouso. Gilliatt tinha-lhes tomado um quarto. Assustou-os o inesperado inquilino.

Nunca tinham visto esse homem ali.

Durou algum tempo aquele voar assustado.

Os pássaros pareciam esperar que Gilliatt se fosse embora. Gilliatt, vagamente pensativo, acompanhava-os com os olhos.

O turbilhão volante acabou por tomar uma resolução, o círculo desfez-se em espiral, e a nuvem de pássaros foi cair do outro lado do escolho, no rochedo Homem.

Aí pareceram consultar e deliberar. Gilliatt, estendendo-se no seu buraco de granito, e pondo debaixo da cabeça uma pedra como travesseiro, ouviu por muito tempo a conversa dos pássaros, que guinchavam cada um por sua vez.

Depois calaram-se, e tudo dormiu, os pássaros em uma rocha e Gilliatt em outra.

CAPÍTULO VIII

IMPORTUNAE QUE VOLUCRES

Gilliatt dormiu bem. Mas sentiu frio, e por isso acordou várias vezes. Tinha naturalmente os pés colocados no fundo do buraco, e a cabeça à borda. Não teve

o cuidado de tirar daquele leito uma porção de seixos agudos que não lhe davam melhor sono.

De quando em quando entreabria os olhos.

Ouvia em certos instantes detonações profundas. Era o mar que enchia e entrava nas cavas do escolho com um ruído de canhão.

Tudo ali em roda apresentava o extraordinário da visão; Gilliatt tinha a quimera à roda de si. O meio espanto da noite contribuía para que ele se visse mergulhado no impossível. Gilliatt dizia consigo: “Estou sonhando”.

Depois tornava a dormir e, sonhando então, achava-se na casa dele, na de Lethierry, em Saint-Sampson; ouvia cantar Déruchette; estava no real. Enquanto dormia acreditava estar acordado e viver; quando acordava, pensava dormir.

Com efeito, era um sonho aquilo.

Lá pelo meio da noite, ouviu-se um vasto rumor no céu. Gilliatt teve confusamente consciência disso através do sono. Era provável que fosse o vento.

De uma vez que ele acordou, com um estremecimento de frio, abriu as pálpebras mais do que até então. Havia largas nuvens no zênite; a lua fugia e uma grande estrela ia atrás dela.

Gilliatt tinha o espírito cheio da difusão dos sonhos, e esse crescimento do sonho complicava as medonhas paisagens da noite.

De madrugada estava gelado e dormia profundamente.

A aurora tirou-o daquele sono talvez perigoso. A alcova de Gilliatt estava em frente ao sol nascente.

Gilliatt bocejou, espreguiçou-se e levantou-se do buraco.

Dormira tão bem que não compreendeu nada.

A pouco e pouco foi-lhe voltando o sentimento da realidade, e ele exclamou: “Almocemos!”

O tempo estava calmo, o céu estava frio e sereno, não havia nuvens, a vassoura da noite limpara o horizonte, o sol levantava-se bem. Era um segundo dia bonito que começava. Gilliatt sentiu-se alegre.

Tirou a japona, envolveu-a na pele de carneiro, atou tudo e meteu o embrulho no fundo do buraco ao abrigo de alguma chuva eventual.

Depois fez a cama, isto é, pôs fora os seixos agudos.

Feita a cama, deixou-se rolar ao longo da corda sobre o tombadilho da Durande, e correu para o nicho onde pusera o cesto de provisões.

Não achou o cesto; como estava muito à beira, o vento da noite atirou-o ao mar.

Isto anunciava uma intenção de luta.

Era preciso que houvesse no vento uma certa vontade e malícia para ir buscar o cesto.

Era um começo de hostilidades. Gilliatt compreendeu isso. É difícil, quando se vive em familiaridade com o mar, não ver no vento e nas rochas criaturas e personagens.

Só restava a Gilliatt, além do biscoito e da farinha de centeio, o recurso das conchas com que se alimentou o náufrago morto de fome no rochedo Homem.

A pesca era impossível. O peixe, inimigo dos choques, evita os escolhos; as redes perdem o seu tempo nos recifes; as pontas da rocha só servem para rasgar as redes.

Gilliatt almoçou alguns mariscos que arrancou da pedra com dificuldade, escapando-se-lhe de quebrar a faca; feito este guapo lanche, ouviu um estranho tumulto no mar. Olhou.

Era o bando de goelanos e gaivotas que caía sobre uma das rochas baixas, batendo as asas, empurrando-se, gritando. Formigavam no mesmo ponto. Aquela horda de bicos e unhas saqueava alguma coisa.

Essa coisa era o cesto de Gilliatt.

O cesto, lançado sobre um banco pelo vento, rasgou-se. Os pássaros correram logo. Levaram no bico toda a espécie de pedaços de comida. Gilliatt reconheceu de longe a sua carne fumada e o seu stockfish.

Era a vez de entrarem também em luta os pássaros. Faziam represálias. Gilliatt tomara-lhes a casa; eles tomavam-lhe a comida.

CAPÍTULO IX

O ESCOLHO E A MANEIRA DE SE SERVIR DELE

Passou-se uma semana.

Embora fosse a estação das chuvas, não chovia, o que alegrava Gilliatt.

Mas o que ele empreendia estava acima da força humana, em aparência ao menos. O sucesso era de tal modo inverossímil que a tentativa parecia louca.

As operações encaradas de perto mostram os seus empecilhos e perigos. Basta começar para ver como é difícil concluir. Todo começo resiste. O primeiro passo que se dá é um revelador inexorável. A dificuldade que se toca fere como um espinho.

Gilliatt teve logo de contar com o obstáculo.

Para salvar a máquina da Durande, para tentar com alguma probabilidade um tal salvamento naquele lugar e naquela estação, parecia que seria necessário uma grande porção de homens. Gilliatt era só; precisava ter uma ferramenta completa de carpinteiro e maquinista, e Gilliatt apenas tinha uma serra, um machado, uma faca e um martelo; precisava ter uma boa oficina e um bom telheiro; Gilliatt não tinha nada disso; precisava ter provisões e víveres. Gilliatt não tinha pão.

Alguém que, durante essa primeira semana, visse Gilliatt trabalhando no escolho, não saberia o que pretendia ele. Parecia não pensar nem na Durande nem nas Douvres. Estava ocupado com o que havia nos bancos; parecia absorto no salvamento dos pequenos destroços do naufrágio. Aproveitava as marés baixas, para limpar os recifes de tudo o que o naufrágio lhes tinha dado. Andou de rocha em rocha apanhando o que o mar aí depusera: pedaços de velame, pedaços de corda, pedaços de ferro, tábuas rasgadas, vergas destruídas, aqui um barrete, ali uma corrente, além uma roldana.

Ao mesmo tempo estudava todas as anfratuosidades do escolho. Nenhum deles era habitável, com grande decepção de Gilliatt, que sentia frio de noite no buraco arranjado na grande Douvre, e desejaria achar melhor pousada.

Duas dessas anfratuosidades eram assaz espaçosas, posto que o chão de rocha natural fosse quase geralmente oblíquo e desigual, podia-se andar ali de pé. A chuva e o vento entravam ali a gosto, mas as altas marés não lhes chegavam. Eram vizinhas da pequena Douvre e fáceis de trepar a qualquer hora. Gilliatt decidiu que uma seria um depósito e a outra uma forja.

Com todos os cabos que pôde recolher fez pacotes dos restos do naufrágio, ligando os destroços em molhos e as lonas em embrulhos. Apertou tudo cuidadosamente. À proporção que a maré enchente batia nesses pacotes, Gilliatt arrastava-os através dos recifes até o depósito. Achou na cava de uma rocha um cabo de guindar, por meio do qual podia levantar mesmo os grossos pedaços de madeira. Do mesmo modo arrancou ao mar os numerosos pedaços de corrente esparsos nos escolhos.

Gilliatt era tenaz e admirável nesse trabalho. Fazia quanto queria. Nada resiste a um encarniçamento de formiga.

No fim da semana, Gilliatt tinha nesse depósito de granito todo o arsenal de objetos destruídos pela tempestade. Havia o lugar dos cabos e o das escotas; as bolinas não estavam misturadas com as driças; as bigotas estavam arranjadas conforme a quantidade de buracos que tinham; as roldanas estavam classificadas separadamente; as cavilhas do papa-figo, as machadinhas, os cabos e mil outros objetos ocupavam, uma vez que não estivessem completamente desfigurados pela avaria, compartimentos diferentes; tudo quanto era de carpintaria estava à parte; de cada vez que era possível, as tábuas dos fragmentos do casco eram ajustadas umas às outras; não havia confusão de rises com viradores, nem pateraces com enxárcias, nem amuradas com precintas; um dos recantos era reservado à tabuiga da Durande que apoiava os ovéns do cesto de gávea e as gabundonas. Cada destroço tinha o seu lugar. Todo o naufrágio estava ali classificado e com o rótulo competente. Era uma coisa semelhante ao caos armazenado.

Uma vela de estais, presa por pedras, cobria, aliás rota, o que a chuva podia estragar.

Por mais quebrada que estivesse a proa da Durande, Gilliatt conseguiu salvar os dois cepos da âncora, com as três rodas de polé.

Achou o gurupés, e teve muito trabalho em desvencilhá-lo das cordas; estavam seguras, e foram postas em tempo seco. Gilliatt, porém, tirou-as porque o massame podia ser-lhe útil.

Recolheu igualmente a pequena âncora que ficara pendurada em uma cava do banco onde o mar a encalhara.

Achou no que fora camarote de Tangrouille um pedaço de giz e guardou-o cuidadosamente. Podia ter necessidade de fazer algumas marcas.

Uma selha de couro para incêndio e algumas tinas em bom estado completavam a ferramenta de trabalho.

O resto de carvão que havia na Durande foi levado para o armazém.

Em oito dias o salvamento dos destroços estava acabado; o escolho estava limpo e a Durande aliviada. No casco só restava a máquina.

O pedaço da amurada que ainda aderia ao resto não fatigava o casco. Pendia sem peso, pois que era sustentada embaixo por uma saliência de pedra; demais era largo e vasto, e pesado, e não podia ficar no armazém. Parecia uma jangada aquele pedaço de madeira. Gilliatt deixou-o onde estava.

Gilliatt, profundamente pensativo neste labor, procurou em vão a boneca da Durande. Era uma dessas coisas que a onda tinha levado para sempre, Gilliatt para achá-la daria os seus dois braços, se não precisasse tanto deles.

Na entrada do armazém, e fora, viam-se dois montes de rebotalho, um de ferro, para fundir, outro de pau para queimar.

Gilliatt trabalhava desde a madrugada. Fora do tempo do sono, não descansava nunca.

Os corvos-marinhos, voando aqui e ali, contemplavam-no a trabalhar.

CAPÍTULO X

A FORJA

Feito o depósito, Gilliatt fez a forja.

A segunda anfratuosidade escolhida por Gilliatt oferecia um refúgio, espécie de garganta, assaz profunda. Gilliatt teve a princípio a idéia de dormir aí, mas o vento, renovando-se constantemente, era tão contínuo e teimoso nesse corredor que ele teve de renunciar à morada. O vento deu-lhe idéia de fazer a forja. Se a caverna não podia ser quarto, podia ser oficina. Utilizar o obstáculo é um grande passo para o triunfo. O vento era o inimigo de Gilliatt, Gilliatt resolveu fazer dele o seu lacaio.

O que se diz de certos homens: próprios para tudo, bons para nada, pode-se dizer das cavas de rochedo. Não dão o que oferecem. Tal cava de rochedo é uma banheira, mas deixa escapar a água; outra é um leito de musgo, porém molhado; outra é uma cadeira, mas de pedra.

A forja que Gilliatt queria estabelecer estava esboçada pela natureza; mas domar esse esboço, até torná-lo apropriado, e transformar a caverna em laboratório, nada mais áspero e difícil. Com três ou quatro rochas largas, abertas como funil, e abrindo para uma fenda estreita, o acaso fizera ali um vasto fole informe, muito melhor que os antigos foles de 14 pés de comprimento, que davam, por cada vez, 98 000 polegadas de ar. Aquilo era outra coisa. As proporções de operação não se calculam.

O excesso de força era incômodo; era difícil regularizar aquele sopro.

A caverna tinha dois inconvenientes; o ar e a água atravessavam de um lado para o outro.

Não era a onda, era um pequeno esgoto perpétuo, mais semelhante a uma destilação que a uma torrente.

A espuma, continuamente lançada pela ressaca sobre o escolho, algumas vezes a mais de 100 pés no ar, acabara por encher de água do mar uma bacia natural situada nas altas rochas que dominavam a escavação. A abundância de água nesse reservatório fazia, um pouco atrás, no declive, uma pequena queda-d'água, de cerca de 1 polegada, caindo de 4 a 5 toesas. Ajuntava-se a isso um contingente de chuva. De tempos a tempos uma nuvem de passagem derramava algumas gotas naquele reservatório inesgotável e sempre transbordando.

A água era salobra, não potável, mas límpida, embora salgada. A queda escorria graciosamente nas extremidades dos filamentos verdes como nas pontas de uma cabeleira.

Gilliatt pensou em servir-se dessa água para disciplinar o vento. Por meio de um funil de dois ou três tubos de tábuas, arranjados à pressa, sendo um de torneira, e de uma larga tina disposta como reservatório inferior, sem contrapeso, Gilliatt, que era, como dissemos, um pouco ferreiro e um pouco mecânico, conseguiu compor, para substituir o fole da forja, que não tinha, um aparelho menos perfeito do que aquele que se chama hoje cagniardelle, porém menos rudimentar do que o que se chamava outrora nos Pireneus uma trompa.

Tinha farinha de centeio, fez cola, tinha corda branca, fez estopa. Com essa estopa e essa cola e alguns pedacinhos de pau, tapou ele todas as fendas do rochedo, deixando apenas um bico, feito com um pedaço de espoleta que achou na Durande e que servira à pedra de sinal. O bico ficava horizontalmente dirigido contra uma larga pedra onde Gilliatt pôs a lareira da forja. Gilliatt fez uma rolha para tapar o bico quando fosse preciso.

Depois disto, Gilliatt ajuntou carvão e lenha na lareira, arranjou a pedra de ferir fogo no próprio rochedo, fez cair a faísca em um punhado de estopa, com a estopa acesa acendeu a lenha e o carvão.

Experimentou o fole. Era admirável.

Gilliatt sentiu essa altivez de ciclope, senhor do ar, da água e do fogo.

Senhor do ar, deu ao vento uma espécie de pulmão, criou no granito um aparelho respiratório, e fez um fole; senhor da água, da pequena cascata fez um tubo; senhor do fogo, tirou a flama daquele rochedo inundado.

Estando a escavação quase toda aberta, o fumo saía livremente, enegrecendo o rochedo. Aquele rochedo, que parecia feito para a espuma, conheceu a ferrugem.

Gilliatt tomou por bigorna um seixo multicor oferecendo a forma e as dimensões que se quisesse. Era uma perigosa base para bater, e podia acontecer que rebentasse. Uma das extremidades do seixo, arredondada, e acabando em ponta, podia a rigor figurar de bigorna conóide, mas faltava a bigorna piramidal. Era a antiga bigorna de pedra dos trogloditas. A superfície polida pela água tinha a rigidez do aço.

Gilliatt lastimava não ter trazido a sua bigorna. Como ignorava que a Durande estivesse partida pelo meio, esperava achar toda a ferramenta de carpintaria, ordinariamente colocada no porão da proa. Ora, era exatamente a proa que faltava.

As duas escavações, conquistadas no escolho por Gilliatt, eram vizinhas uma da outra. O depósito e a forja comunicavam-se.

Todas as noites, acabado o trabalho, Gilliatt ceava um pedaço de biscoito molhado em água, um ursozinho da água, ou algumas castanhas do mar, caça única daquele rochedo, e, tiritando como a corda, trepava para ir dormir na grande Douvre.

A espécie de abstração em que Gilliatt vivia aumentava-se pela materialidade das suas ocupações. A realidade era em alta dose. O trabalho corporal com os seus pormenores inumeráveis não diminuía a estupefação que sentia de achar-se ali, e de fazer o que estava fazendo. Ordinariamente o cansaço material é um fio que puxa para terra; mas a própria singularidade do trabalho empreendido por Gilliatt mantinha-o em um trabalho de região ideal e crepuscular. Parecia-lhe às vezes estar dando marteladas nas nuvens. Outras vezes parecia-lhe que as suas ferramentas eram armas. Tinha o singular sentimento de um ataque latente que ele repelia ou prevenia. Tecer massame, desfiar uma vela, escorar duas pranchas, era fabricar máquinas de guerra. Os mil cuidados minuciosos deste salvamento acabavam por assemelhar-se a precauções contra as agressões inteligentes, mui pouco dissimuladas e muito transparentes. Gilliatt não sabia as palavras que exprimem as idéias, mas percebia as idéias. Sentia-se cada vez menos operário e cada vez mais pelejador.

Entrou ali como um domador. Compreendia isso quase. Estranha ampliação para o seu espírito.

Além disso, tinha à roda de si, a perder de vista, o imenso sonho do trabalho perdido. Nada mais perturbador do que ver manobrar a difusão das forças no insondável e no ilimitado. Procuram-se os fins. O espaço sempre em movimento, a água infatigável, as nuvens que parecem afadigadas, o vasto esforço obscuro, toda essa convulsão é um problema. Que faz este perpétuo tremor? Que constroem estes ventos? Que levantam estes abalos? Em que se ocupam os choques, os soluços, os gritos? Que faz todo esse tumulto? O fluxo e refluxo dessas questões é eterno como a maré. Gilliatt sabia o que fazia; mas a agitação da extensão era um enigma que o aturdia confusamente. Sem querer, mecanicamente, imperiosamente, por pressão e penetração, sem outro resultado mais que uma fascinação inconsciente e quase feroz, Gilliatt pensativo ajuntava, ao seu trabalho, o prodigioso trabalho inútil do mar. Na verdade, como não impressionar-se e sondar, ali à vista, o mistério da tremenda vaga laboriosa? Como não meditar, na proporção da meditação que se tem, a oscilação da onda, a impetuosidade da espuma, a usura imperceptível do rochedo, o esfalfamento insensato dos quatro ventos? Que terror para o pensamento não é o recomeçar perpétuo, o oceano poço, as nuvens Danaides, todo esse trabalho para coisa nenhuma!

Para coisa nenhuma, não; só o Ignoto o sabe!

CAPÍTULO XI

DESCOBERTA

Um escolho próximo da costa é algumas vezes visitado pelos homens; um escolho em mar largo, nunca. Que se iria buscar aí? Não é uma ilha. Não se pode contar com vitualhas, nem árvores com fruta, nem pastos, nem animais, nem fontes deágua potável. É uma nudeza numa solidão. É uma rocha, com declives fora da água e pontas debaixo da água. Nada se encontra aí a não ser o naufrágio.

Essa espécie de escolhos, que a velha língua marinha chama os Isolados, são, como dissemos, lugares estranhos. Só há o mar. O mar faz ali o que lhe parece. Nenhuma aparição terrestre o perturba. O homem assusta o mar; o mar desconfia dele; esconde-lhe o que é e o que faz. No escolho está seguro; lá não vai o homem. Não será perturbado o monólogo da onda. A água trabalha no escolho, repara-lhe as avarias, aguça-lhe as pontas, eriça-o, conserta-o. Empreende a abertura do rochedo, desconjunta a pedra mole, desnuda a pedra dura, tira a carne, deixa o osso, remexe, fura, esburaca, canaliza, põe os intestinos em comunicação, enche o escolho de células, imita a esponja em grande, cava o interior, esculpe o exterior.

Nessa montanha, que lhe pertence, o mar faz para si antros, santuários, palácios; tem uma vegetação hedionda e esplêndida; compõe-se de ervas flutuantes que mordem e monstros que se enraízam; mete na sombra da água essa horrível magnificência. No escolho isolado, ninguém o espreita, nem o incomoda; o mar desenvolve aí a gosto o seu lado misterioso e inacessível ao homem. Depõe aí as secreções vivas e horríveis. Acha-se ali todo o ignorado do mar.

Os promontórios, os cabos, os cachopos, os arrecifes, são verdadeiras construções. A formação geológica é pouca coisa comparada à formação oceânica. Os escolhos, casas de vaga, pirâmides da espuma, pertencem à arte misteriosa que o autor deste livro chamou algures a Arte da Natureza, e têm uma espécie de estilo enorme. Ali o fortuito parece intencional. Essas construções são multiformes. Têm o embaraçado do pólipo, a sublimidade da catedral, a extravagância do pagode, a amplidão da montanha, a delicadeza da jóia, o horror do sepulcro. Têm alvéolos como uma colméia, latíbulos como um pátio de bichos, túneis como um combro de toupeiras, cárceres como uma bastilha, emboscadas como um campo. Têm portas, mas tapadas colunas, mas truncadas, torres, mas inclinadas, pontes, mas despedaçadas. Os seus compartimentos são inextrincáveis; isto é só para os pássaros; aquilo é só para os peixes. Não se passa. A figura arquitetural transforma-se, desconcerta-se, afirma e nega a estática, quebra-se, detém-se, começa em arquivolta, acaba em arquitrave; seixo sobre seixo. Encélado é o pedreiro. Uma dinâmica extraordinária ostenta ali os seus problemas resolvidos. Terríveis abóbadas pendentes ameaçam cair, mas não caem. Ninguém sabe como se seguram estes edifícios vertiginosos. Declives, lacunas, suspensões insensatas; desconhece-se a lei desse babelismo. O Ignoto, imenso arquiteto, nada calcula e tudo consegue; os rochedos, construídos confusamente, compõem um monumento monstro; nenhuma lógica, um vasto equilíbrio. É mais do que a solidez, é a eternidade. É a desordem ao mesmo tempo. O tumulto da vaga parece ter passado no granito. Um escolho é a tempestade petrificada. Nada mais impressível para o espírito do que essa medonha arquitetura, sempre esboroante, sempre de pé. Tudo ali se ajuda e se contraria. É um combate de linhas donde resulta um edifício. Reconhece-se a colaboração dessas duas querelas, o oceano e

o furacão.

Arquitetura que tem terríveis obras-primas. O escolho Douvres era uma delas.

Esse foi construído e aperfeiçoado pelo mar com um amor formidável. Lambia-o a água rabugenta. Era hediondo, pérfido, obscuro; cheio de cavas.

Tinha um sistema de veias que eram fendas submarinas, ramificando-se em profundezas insondáveis. Muitos orifícios desse rasgão inextrincável ficavam a seco nas vazantes.

Podia-se entrar, então, com risco.

Gilliatt, pela necessidade do trabalho, teve de explorar todas essas grotas. Nenhuma delas deixava de ser temível. Em todas as cavas, reproduzia-se, com as dimensões exageradas do oceano, aquele aspecto de matadouro e açougue estranhamente imitado do centro das Douvres. Quem não viu as escavações desse gênero, na parede do eterno granito, esses horríveis frescos da natureza, não pode fazer uma idéia do que é.

Eram dissimuladas essas grotas ferozes, era inconveniente demorar-se nelas. A maré enchente invadia-as até o teto.

Abundavam os mariscos e os frutos do mar.

Estavam cheias de seixos rolados e amontoados no fundo. Muitos pesavam mais de 1 tonelada. Eram de todas as proporções e de todas as cores, a maior parte pareciam ensangüentados, alguns, cobertos de filamentos peludos e viscosos, pareciam grossas toupeiras verdes focinhando no rochedo.

Muitas dessas cavas terminavam como um forno. Outras, artérias de uma circulação misteriosa, prolongavam-se no rochedo em fendas tortuosas e negras. Eram as ruas do golfão. Essas fendas estreitavam-se constantemente de modo a não deixar passar um homem. Um brandão aceso deixava ver obscuridades gotejantes.

Gilliatt aventurou-se uma vez numa dessas fendas. A hora da maré prestava-se a isso. Era um belo dia de calma e de sol. Não havia que temer nenhum acidente do mar que pudesse complicar o perigo.

Duas necessidades, como dissemos, levavam Gilliatt a essas explorações: procurar os destroços úteis e achar lagostas para comer. Já lhe faltavam conchas nas Douvres.

A fenda era estreita e a passagem quase impossível. Gilliatt via claridade do outro lado. Fez esforço, espremeu-se como pôde e entrou até onde lhe foi possível.

Achou-se, sem pensar, no interior do rochedo da ponta do qual Clubin atirara-se da Durande. Gilliatt estava debaixo dessa ponta. O rochedo abrupto exteriormente, e inacessível, era vazio no interior. Tinha galerias, poços e quartos como o túmulo de um rei do Egito. Aquele dédalo era dos mais complicados, trabalho da água, infatigável solapa do mar. As divisões daquele subterrâneo submarino comunicavam provavelmente com a água imensa do exterior por mais de uma saída, umas abertas ao nível da água, outras profundos funis invisíveis. Perto dali, Gilliatt nem o sabia, foi que Clubin atirou-se ao mar.

Gilliatt, naquela fisga de crocodilos, onde na verdade não havia medo de achá-los, serpenteava, arrastava-se, esbarrava, curvava-se, levantava-se, perdia o pé, encontrava o chão, avançava penosamente. A pouco e pouco alargou-se o bocal, apareceu uma meia-luz, e de repente Gilliatt entrou em uma caverna extraordinária.

CAPÍTULO XII

O INTERIOR DE UM EDIFÍCIO DEBAIXO DO MAR

A luz vinha a propósito.

Um passo mais, Gilliatt estaria em uma água talvez sem fundo. As águas das cavas têm um tal resfriamento e uma paralisia tão súbita, que lá ficam muitas vezes os mais fortes nadadores.

Demais, não havia meio de subir e agarrar às rochas entre as quais ficaria preso.

Gilliatt parou.

A grota, donde ele saíra, ia ter a mesma saliência estreita e viscosa, espécie de vulcão na muralha a pique. Gilliatt encostou-se à muralha e olhou.

Estava numa grande cava. Tinha acima de si alguma coisa semelhante ao interior de um crânio dissecado. E parecia dissecado de fresco. As nervuras gotejantes das estrias do rochedo imitavam na abóbada as fibras dentadas de uma bola. Por teto, a pedra; por assoalho, o mar; as ondas apertadas entre as quatro paredes da grota pareciam vastos ladrilhos flutuantes. A grota estava fechada por todos os lados. Nenhuma trapeira, nenhum respiradouro, nenhuma fenda na parede. A luz vinha de baixo, através da água. Era um resplendor tenebroso.

Gilliatt, cujas pupilas se dilataram durante o trajeto obscuro do corredor, distinguia tudo naquele crepúsculo.

Conhecia, por lá ter ido mais de uma vez, as cavas de Pleinmont em Jersey, o Croux-Maillé em Guernesey, as Boutiques em Jerk, assim chamadas por causa dos contrabandistas que ali depunham as suas mercadorias; nenhum desses maravilhosos antros era comparável ao quarto subterrâneo e submarino onde penetrara.

Gilliatt via diante dele, debaixo da vaga, uma espécie de arcada afogada. Essa arcada, ogiva natural, trabalhada pela onda, era brilhante entre as suas duas colunas profundas e negras. Era por aquele pórtico submergido que entrava na caverna a claridade do alto-mar. Luz estranha que vinha por um buraco na água.

Essa claridade esvazava-se debaixo da água como um largo leque e repercutia no rochedo. Os raios retilíneos, cortados em longas fitas negras, sobre a opacidade do fundo, clareando ou escurecendo de uma anfratuosidade a outra, imitavam interposições de lâminas de vidro. Havia luz, mas luz desconhecida. Já não era a nossa luz. Podia-se crer que se estava em outro planeta. A luz era um enigma; dissera-se o verde clarão da pupila de uma esfinge. A cava figurava o interior de uma cabeça enorme; a esplêndida abóbada era o crânio, e a arcada era a boca; não havia buracos dos olhos. A boca engolindo e vomitando o fluxo e o refluxo, aberta em pleno meio-dia exterior, bebia a luz e vomitava o amargor.

Certos entes, inteligentes e maus, assemelham-se a isto. O raio do sol, atravessando aquele pórtico obstruído de uma espessura vidrenta da água do mar, tornava-se verde como um raio de Aldebarã. A água, cheia dessa luz molhada, parecia esmeralda em fusão. Um reflexo de água-marinha de incrível delicadeza tingia brandamente toda a caverna.

A abóbada, com os seus lóbulos quase cerebrais e as suas ramificações semelhantes a nervos, tinha um fraco reflexo de crisópraso. O chamalote da onda, reverberado no teto, decompunha-se e recompunha-se constantemente, alargando e estreitando as suas rodas de ouro com um movimento de dança misteriosa. Saía dali uma impressão espectral; o espírito podia perguntar que presa ou que espera era aquela que fazia tão alegremente aquele magnífico filete de fogo vivo. Nos relevos da abóbada e nas asperidades da rocha pendiam longas e finas vegetações banhando provavelmente as raízes através do granito em alguma toalha de água superior, e desbagando, nas pontas, uma gota de água, uma pérola. Essas pérolas caíam no golfão com um pequeno rumor. Todo esse conjunto era inexprimível. Não se podia imaginar nada mais lindo nem mais lúgubre. Era ali o palácio da Morte, alegre.

CAPÍTULO XIII

O QUE SE VÊ E O QUE SE ENTREVÊ

Sombra que deslumbra, tal era aquele sítio surpreendente.

A palpitação do mar fazia-se sentir naquela cava. A oscilação externa inchava e deprimia a toalha de água interior com a regularidade de uma respiração. Cuidava-se ver uma alma misteriosa naquele grande diafragma verde elevando-se e abaixando-se em silêncio.

A água era magicamente límpida, e Gilliatt distinguia, em profundezas diversas, estações imersas, superfícies de rochas de um verde carregado a mais e mais. Certas cavas obscuras eram provavelmente insondáveis.

Dos dois lados do pórtico submarino esboços de címbrios abatidos, cheios de trevas, indicavam pequenas cavas laterais, pontos inferiores da caverna central, acessíveis talvez na época das marés extremamente baixas.

Essas anfratuosidades tinham tetos em plano inclinado, em ângulos mais ou menos abertos. Pequenas plagas, descobertas pelas escavações do mar, mergulhavam-se e perdiam-se debaixo dessas obliquidades.

Longas ervas espessas, de mais de 1 toesa, ondulavam debaixo da água como um balancear de cabelos ao vento. Entreviam-se florestas de sargaço.

Fora da água, e dentro da água, toda a muralha da cava, de alto a baixo, desde a abóbada até ao desaparecimento no invisível, era tapetada dessas prodigiosas florescências do oceano, tão raramente visíveis ao olho humano, que os velhos navegadores espanhóis chamaram praderias del mar. Espesso musgo, com todos os matizes da azeitona, escondia e ampliava as exostoses de granito. De todos os declives rompiam os delgados loros lavrados do sargaço com que os pescadores fazem barômetros. O hálito obscuro da caverna agitava essas correias luzentes.

Debaixo dessas vegetações escondiam-se e mostravam-se ao mesmo tempo as mais raras jóias do escrínio do oceano, os martins, as mitras, os elmos, as púrpuras, os búzios, os estrutiolários, as conchas univalves. As campanas de lapas, semelhantes a barracas microscópicas, aderiam ao rochedo e grupavam-se em aldeias em cujas ruas rolavam as multivalves, esses escarabeus da vaga. Não podendo os seixos de mariscos entrar facilmente nessa grota, aí se refugiavam as conchas. As conchas são grandes fidalgos que, bordados e paramentados, evitam

o rude e incivil contato do populacho das pedras. A fúlgida reunião das conchas fazia debaixo da água, em certos lugares, inefáveis irradiações através das quais entrevia-se um grupo de azuis e vermelhos, e todos os reflexos da água.

Na parede da caverna, um pouco acima da linha de flutuação da maré, uma planta magnífica e singular prendia-se como um debrum à tapeçaria do sargaço, continuava-o e terminava-o. Essa planta, fibrosa, vasta, inextrincavelmente dobrada, e quase negra, oferecia ao olhar largas toalhas embaraçadas e obscuras, ornadas em toda a extensão de numerosas florinhas cor de lápis-lazúli. Na água parecia que essas flores acendiam-se, e cuidava-se ver brasas azuis. Fora da água eram flores, dentro da água eram safiras, de modo que a onda, subindo e inundando o esvazamento da grota, revestia essas plantas e cobria o rochedo de carbúnculos.

A cada enchimento da vaga túmida como um pulmão, essas flores banhadas resplandeciam, a cada abaixamento apagavam-se; melancólica semelhança com o destino. Era a aspiração, que é a vida; era a expiração, que é a morte.

Uma das maravilhas daquela caverna era a rocha. Essa rocha, ora muralha, ora címbrio, ora pilastra, era em alguns lugares bruta e nua, em outros trabalhada pelos mais delicados lavores naturais. Um não sei quê, aliás de espírito, misturava-se à estupidez maciça da pedra. Que artista não é o abismo! Tal pedaço de parede, cortado em quadro, e cheio de altos e baixos representando atitudes, figurava um vago baixo-relevo; ante essa escultura, em que havia um tanto denuvem, podia-se sonhar com Prometeu esboçando para Miguel Ângelo. Parecia que com alguns toques de cinzel o gênio poderia acabar o que o gigante começara. Em outros lugares a rocha era embutida como um broquel sarraceno ou traçada como uma florentina. Tinha almofadas que pareciam bronze de Corinto, arabescos como uma porta de mesquita; como uma pedra rúnica tinha sinais de unha obscuros e improváveis. Plantas com ramos torcidos em forma de verruma, cruzando-se no dourado do musgo, cobriam-na de filigranas. Era um antro e um alhambra. Era o encontro da selvajaria e da ourivesaria na augusta e disforme arquitetura do acaso.

O magnífico bolor do mar aveludava os ângulos de granito. As pedras estavam adornadas de lianas grandifloras, tão destras que não caíam, e pareciam inteligentes tão bem adornavam elas.

Parietárias com estranhos ramalhetes mostravam os seus tufos a propósito e com gosto. Havia aí a casquilhice possível numa caverna. A surpreendente luz edênica que vinha de baixo da água, a um tempo penumbra marinha e radiação paradisíaca, esfumava todos os lineamentos em unia espécie de difusão visionária. Cada vaga era um prisma. O contorno das coisas debaixo desses ondeamentos iriados tinha o cromatismo das lentes de óptica demasiado convexas; espectros solares flutuavam debaixo da água.

Acreditar-se-ia ver torcer-se nessa diafaneidade auroreal pedaços de arco-íris afogados. Em outros lugares havia na água um certo luar. Todos os esplendores pareciam amalgamados ali para fazer um quê de cego e de noturno. Nada mais impossível e enigmático do que aquele fasto naquela cava. O que dominava ali era

o encanto. A vegetação fantástica e a estratificação informe acordavam-se e compunham uma harmonia. Era de belo efeito aquele consórcio de coisas medonhas. Penduravam-se as ramificações parecendo apenas tocar de leve. Era profundo o afago da rocha selvagem e da flor ruiva.

Pilares maciços tinham, por capitéis e por ligaduras, frágeis e trêmulas grinaldas; parecia ver-se dedos de fada fazendo cócegas nas patas de um hipopótamo, e o rochedo sustentava a planta e a planta abraçava o rochedo com uma graça monstruosa.

Resultava dessa deformidade misteriosamente ajustada uma beleza soberana. As obras da natureza, não menos supremas que as obras do gênio, contêm o absoluto e impõem-se. O inesperado delas faz-se obedecer imperiosamente pelo espírito; sente-se uma premeditação que fica fora do homem, e elas não são mais surpreendentes do que quando fazem subitamente sair o delicado do terrível.

Aquela grota estava, por assim dizer, e se tal expressão é admissível, sideralizada. Sentia-se ali o imprevisto do espanto. O que enchia aquela cripta era luz do apocalipse. Não havia certeza de que aquilo existisse. Tinha-se diante dos olhos uma realidade cheia de impossível. Olhava-se isto, tocava-se, presenciava-se; mas era difícil crer.

Era luz aquilo que jorrava daquela janela debaixo da água? Era água aquilo que tremia naquela bacia obscura? Aqueles címbrios e pórticos não eram nuvem celeste imitando uma caverna? Que pedra era aquela que se pisava? Aquele apoio não ia desconjuntar-se e tornar-se fumo? Que joalheria de conchas era aquela que se entrevia? Que distância havia dali à vida, à terra, aos homens? Que encanto era aquele misturado àquelas trevas? Comoção inaudita, quase sagrada, à qual misturava-se a doce inquietação das ervas no fundo da água.

Na extremidade da cava, que era oblonga, debaixo de uma arquivolta ciclópica singularmente correta, em um buraco quase indistinto, espécie de antro no antro, espécie de tabernáculo no santuário, atrás de uma toalha de luz verde, interposta como um véu de templo, descobria-se fora da água uma pedra de ângulos cortados em quadro com uma parecença de altar. A água circundava essa pedra. Parecia que uma deusa tinha descido dali. Era impossível deixar de pensar, debaixo daquela cripta, em cima daquele altar, em alguma nudeza celeste eternamente pensativa, que a entrada de um homem tinha feito fugir. Era difícil conceber aquela célula augusta sem uma visão dentro dela; a aparição, evocada pelo devaneio, recompunha-se por si; um rorejar de casta luz sobre espáduas apenas entrevistas, uma fronte banhada de alvores, um oval de rosto olímpico, uns misteriosos seios arredondados, uns braços pudicos, uma coma esparsa em uma aurora, uns quadris inefáveis, modelados em luz pálida, no meio da sagrada bruma, umas formas de ninfa, um olhar de virgem, uma Vênus saindo do mar, uma Eva saindo do caos; tal era o sonho que forçosamente assaltava a imaginação. Era inverossímil que não estivesse antes um fantasma naquele lugar. Uma mulher nua, com um astro em si, devia provavelmente ter ocupado aquele altar. Sobre aquele pedestal, donde emanava um êxtase inexprimível, imaginava-se uma alvura, viva e de pé. O espírito criava, no meio da adoração muda daquela caverna, uma Anfitrite; uma Tétis, alguma Diana que pudesse amar, estátua do ideal formada de um raio e contemplando a sombra com meiguice. Foi ela quem, ao esquivar-se, deixou na caverna aquela claridade, espécie de perfume-luz saído daquele corpo-estrela. A fascinação daquele fantasma já não estava ali; já se não via a figura, feita para ser vista somente pelo invisível, mas sentia-se; recebia-se aquele estremecimento que é uma volúpia. A deusa estava ausente, mas a divindade estava presente.

A beleza do antro parecia feita para aquela presença. Era por causa dessa deidade, dessa fada dos nácares, dessa rainha das brisas, dessa graça nascida das vagas, era por causa dela, ao menos supunha-se isto, que o subterrâneo estava religiosamente murado, a fim de que nada perturbasse nunca, em derredor daquele divino fantasma, a obscuridade que é um respeito, o silêncio que é uma majestade.

Gilliatt, que era uma espécie de vidente da natureza, cismava, confusamente comovido.

De súbito, alguns palmos abaixo dele, na transparência encantadora daquela água, que eram pedras preciosas dissolvidas, Gilliatt viu alguma coisa inexprimível. Uma espécie de longo andrajo movia-se na oscilação das vagas. Esse andrajo não flutuava, vogava; tinha a forma de um cetro de truão com pontas; essas pontas tinham reflexos; parecia que uma poeira impossível de molhar-se cobria aquele todo. Era mais que horrível, era nojento. Tinha um quê de quimérico; era um ente, a menos que não fosse uma aparência. Parecia dirigir-se para o obscuro da cava e mergulhava-se ali. As espessuras da água tornaram-se sombrias sobre aquela coisa que resvalou e desapareceu. Sinistra.

LIVRO SEGUNDO

O TRABALHO

CAPÍTULO PRIMEIRO

OS RECURSOS DAQUELE QUE NÃO TEM RECURSOS

A cava não soltava facilmente quem lá ia. A entrada era pouco cômoda, a saída foi ainda pior. Gilliatt entretanto safou-se, mas não voltou lá. Nada encontrou do que procurava, e não tinha tempo para ser curioso.

Pôs imediatamente a forja em atividade. Faltava ferramenta, Gilliatt fabricou-a.

Tinha por combustível os destroços, a água por motor, o vento por fole, uma pedra por bigorna, por arte o instinto, por força a vontade.

Gilliatt entrou ardentemente nesse trabalho sombrio.

O tempo mostrava-se complacente. Continuava belo, e o menos equinocial possível. Chegara o mês de março, mas tranqüilamente. Os dias tornavam-se compridos. O azul do céu, a vasta doçura dos movimentos da extensão, a serenidade do meio-dia, pareciam excluir qualquer intenção má. Alegrava-se o mar debaixo do sol. Um afago prévio tempera as traições. A água marinha não é avara desses afagos. Com aquela mulher é preciso desconfiar do sorriso.

Havia pouco vento; a hidráulica soprava bem. O excesso do vento tolheria em vez de ajudar.

Gilliatt tinha uma serra; fabricou uma lima; com a serra atacou a madeira, com a lima, o metal; depois ajuntou as duas mãos do ferreiro, uma tenaz e uma pinça: a tenaz agarra, a pinça maneja; uma trabalha como a mão, a outra como o dedo. A ferramenta é um organismo. A pouco e pouco Gilliatt arranjava auxiliares, e construía as suas armaduras. Com um pedaço de ferro em folha fez uma antepara na forja.

Um dos seus primeiros cuidados foi a separação e a reparação das roldanas. Consertou as caixas e as rodas das polés. Cortou a esfoliação de todos os barrotes quebrados e aplainou as extremidades; como dissemos, tinha para as necessidades da carpintaria grande cópia de peças de madeira armazenadas, e aparelhadas, segundo as formas, as dimensões e as essências, o carvalho de um lado, o pinheiro de outro, as peças curvas, como as porcas, separadas das peças direitas, como as que ligam as escotilhas. Era uma reserva de pontos de apoio e alavancas, de que podia precisar em um momento dado.

Quem quer construir um guindaste deve munir-se de traves e polés, mas não basta isso, é preciso corda. Gilliatt restaurou os cabos e as cordas. Estendeu as velas rasgadas, e conseguiu extrair excelente fio com que compôs uma sarja, e cerziu o cordoame. Mas essas costuras eram sujeitas a apodrecer, era preciso empregar as cordas e os cabos, Gilliatt apenas pôde fazer o massame sem ter alcatrão.

Consertou as cordas, consertou as correntes.

Pôde, graças à ponta lateral da bigorna, fazer anéis grosseiros, mas sólidos; com esses anéis, prendeu uns aos outros os pedaços de correntes quebrados, e fez correntes compridas.

Forjar só e sem auxílio é mais do que incômodo. Contudo, Gilliatt conseguiu fazê-lo. É certo que só teve de trabalhar na forja peças de pequeno volume; podia meneá-las com uma mão e martelar com a outra.

Cortou em pedaços as barras de ferro redondas do lugar do comando; forjou nas duas extremidades de cada pedaço, de um lado uma ponta, do outro uma larga cabeça chata, e desse modo fez grandes pregos de palmo e meio. Esses pregos, muito usados em trabalhos marítimos, são úteis para fixar os paus nas pedras.

Por que motivo Gilliatt tomava todo este trabalho? Ver-se-á.

Teve de refazer muitas vezes o fio da machadinha e os dentes da serra. Para a serra fabricou uma lima triangular.

Servia-se também do cabrestante da Durande. Quebrou-se a fateixa da corrente. Gilliatt fez outra.

Com ajuda da pinça e da tenaz e servindo-se da faca como de um virador empreendeu desmontar as duas rodas do navio; conseguiu. É preciso não esquecer que isso era exeqüível; essa era a particularidade da construção das rodas. As caixas que as tinham coberto serviram-lhes de capas; com as tábuas das caixas, Gilliatt arranjou dois caixotes onde meteu peça por peça, as duas rodas, cuidadosamente numeradas.

O pedaço de giz serviu-lhe para essa numeração.

Arranjou os dois caixotes na parte mais sólida do convés da Durande. Terminados estes preliminares, Gilliatt achou-se diante da dificuldade suprema. Surgiu a questão da máquina.

Desmontar as rodas foi possível; desmontar a máquina, não.

Primeiramente, Gilliatt conhecia mal aquele mecanismo. Trabalhando ao acaso, podia produzir algum desconserto irreparável. Depois, mesmo para tentar desmontá-la peça por peça, se tivesse esta imprudência, eram-lhe precisas outras ferramentas do que as que ele podia fazer numa caverna por oficina, com o vento por fole, e uma pedra por bigorna. Tentando desmontar a máquina arriscava-se a despedaçá-la.

Aqui podia-se crer que estava diante do impraticável.

Afigurou-se-lhe que estava ao pé deste muro: o impossível.

Que fazer?

CAPÍTULO II

DE QUE MODO SHAKESPEARE PODE ENCONTRAR-SE COM ÉSQUILO

Gilliatt tinha uma idéia.

Desde aquele carpinteiro de Salbris que, no VI século, na infância da ciência, muito antes que Amontons tivesse achado a primeira fricção, Lahire a segunda, e Coulomb a terceira, sem conselho, sem guia, sem mais auxiliar que um menino, filho dele, com uma ferramenta informe resolveu em massa, arriando o grande relógio da igreja de Charité-sur-Loire, cinco ou seis problemas de estática e de dinâmica, todos juntos, como as rodas de carros embaraçados; desde esse trabalhador extravagante que achou meio de, sem quebrar um fio de latão e sem desfazer um encaixe, arriar de uma só vez, por uma simplificação prodigiosa, do segundo andar da torre ao primeiro, aquela maciça gaiola de horas, toda de ferro e cobre, grande como uma guarita, com o seu movimento, cilindros, tambores, ganchos, mostrador, pêndulo horizontal, âncoras de escapamento, meada de corda, pesos de pedra dos quais um pesava 500 libras, tímpano, carrilhão; desde esse homem que fez esse milagre, e cujo nome já se não sabe, jamais houve nada igual à empresa que Gilliatt cometia.

A operação de Gilliatt era talvez pior, isto é, mais bela ainda que a outra.

O peso, a delicadeza, o conjunto das dificuldades, não eram menores na máquina da Durande que no relógio de Charité-sur-Loire.

O carpinteiro gótico tinha um auxiliar, o filho; Gilliatt era só.

Havia uma população vinda de Menug-sur-Loire, de Nevers, e mesmo de Orleans, a qual podia, em caso de necessidade, ajudar o carpinteiro de Salbris, e animá-lo com os seus rumores benévolos; Gilliatt só tinha à roda de si o rumor do vento e a multidão das ondas.

Nada se compara à timidez da ignorância, a não ser a sua temeridade. Quando a ignorância começa a ousar é que tem uma bússola consigo. Essa bússola é a intuição da verdade, mais clara às vezes num espírito simples que num espírito complicado.

Ignorar convida a tentar. A ignorância é um devaneio e o devaneio curioso é uma força. Saber, desconcerta às vezes, e desaconselha muitas. Se Vasco da Gama soubesse, recuaria ante o cabo das Tormentas. Se Cristóvão Colombo fosse bom cosmógrafo, não teria descoberto a América.

O segundo que subiu ao monte Branco foi um sábio, Saussure; o primeiro foi um pastor, Balmat.

Tais casos, digamo-lo de passagem, são a exceção, e tudo isto não tira nada à ciência, que fica sendo a regra. O ignorante pode achar, só o sábio inventa.

A pança continuava a estar ancorada na angra do Homem, onde o mar a deixava tranqüila. Gilliatt, como se sabe, arranjou tudo de modo a ficar em livre prática com a barca. Foi ali e mediu-a em diversos pontos. Depois voltou à Durande e mediu o grande diâmetro da máquina. O grande diâmetro, sem as rodas, bem entendido, era mais curto 2 pés que o espaço da pança. Portanto, a máquina podia entrar na barca. Mas como metê-la aí?

CAPÍTULO III

A OBRA-PRIMA DE GILLIATT AJUDA A OBRA-PRIMA DE LETHIERRY

Alguns dias depois, o pescador que fosse assaz tonto para ir perlustrar aquelas paragens, em semelhante estação, teria pago a sua ousadia com a visão de uma coisa singular entre as Douvres.

Veria isto o pescador: quatro robustas pranchas com espaços iguais entre si, indo de uma Douvre a outra, e como que forçadas entre os rochedos o que é a melhor solidez deste mundo. Do lado da pequena Douvre, as suas extremidades pousavam e fincavam-se nas fendas da rocha; do lado da grande Douvre, essas extremidades deviam ter sido violentamente espetadas na coluna com um martelo por um robusto trabalhador trepado na própria prancha. Essas pranchas eram um pouco mais longas que o intervalo das Douvres; daí, a segurança e o plano inclinado em que estavam formando uma ladeira. Tocavam a grande Douvre em ângulo agudo e a pequena em ângulo obtuso. Era suave o declive, mas desigual, o que se tornava defeito. A essas quatro pranchas prendiam-se quatro polés guarnecidas todas de corda e boça, e tendo esta singularidade e ousadia, que a polé de rodas estava em uma extremidade da prancha e a polé simples na extremidade oposta. Este desvio de arte, tamanho que era perigoso, era provavelmente exigido pela necessidade da operação. As polés compostas eram fortes e as símplices eram sólidas. A essas prendiam-se cabos que de longe pareciam fios, e por baixo desse aparelho aéreo de guindastes e tábuas, o maciço casco da Durande parecia suspenso a esses fios.

Ainda não estava suspensa. Perpendicularmente por baixo das pranchas, oito aberturas foram praticadas no casco, quatro a bombordo e quatro a estibordo da máquina, e mais oito debaixo dessas, na carena. Os cabos desciam verticalmente, entravam no convés, depois saíam pela carena, pelas aberturas de estibordo, passavam por baixo da quilha e da máquina, entravam outra vez no navio pelas aberturas de bombordo e, subindo, atravessando o convés, voltavam a prender-se nos quatro guindastes das pranchas, onde um guincho prendia-os e fazia um rolo de um cabo único podendo ser dirigido por um só braço. Um gancho e um carretel por cujo centro passava e dividia-se o cabo único completavam o aparelho, e em caso de necessidade, continham-no. Esta combinação obrigava as quatro polés a trabalharem juntas, e, verdadeiro freio de forças pendentes, leme de dinâmica na mão do piloto da operação, mantinha a manobra em equilíbrio. O ajustamento engenhoso do guincho tinha alguma das qualidades simplificadoras do guindaste Weson de hoje, e do antigo polipastono de Vitrúvio. Gilliatt descobriu isso, sem conhecer Vitrúvio, que já não existe, nem Weson, que não existia ainda. O comprimento dos cabos variava segundo o desigual declive das pranchas e corrigia um pouco a desigualdade. As cordas eram perigosas, o massame branco podia quebrar; era melhor empregar correntes, finas as correntes não poderiam passar com facilidade nas polés.

Tudo isso, cheio de defeitos, mas feito por um só homem, era surpreendente.

Demais, abreviemos a explicação. Compreender-se-á que omitimos muitos pormenores que tornariam a coisa clara para as pessoas do ofício, e obscura para as outras.

O cimo do cano da máquina passava por entre as duas pranchas do meio.

Gilliatt, sem dar por isso, plagiário inconsciente do desconhecido, refez, a três séculos de distância, o mecanismo do carpinteiro de Salbris, mecanismo rudimentar e incorreto, assustador para quem ousasse manobrá-lo.

Digamos aqui que os defeitos mais grosseiros não impedem que um mecanismo funcione. O obelisco da praça de São Pedro de Roma foi levantado contra todas as regras da estática. O coche do Czar Pedro era construído de tal modo que parecia tombar a cada passo; entretanto, andava. Quantas deformidades na máquina de Marly. Tudo ali era malfeito. Nem por isso deixou de dar de beber a Luís XIV.

Fosse como fosse, Gilliatt tinha confiança. Contava até com o sucesso ao ponto de fixar na borda da pança, no dia em que lá foi, dois pares de argolas de ferro, diante um do outro, nos dois lados da barca, nos mesmos espaços que as quatro argolas da Durande às quais se prendiam as quatro correntes do cano.

Gilliatt tinha evidentemente um plano muito completo e definitivo. Tendo contra si todas as probabilidades, queria pôr todas as precauções do seu lado.

Fazia coisas que pareciam inúteis, sinal de uma premeditação atenta. A sua maneira de proceder desafiava um observador, e mesmo um conhecedor.

Uma pessoa que o visse, por exemplo, com esforços inauditos e em risco de quebrar o pescoço, pregar com um martelo oito ou dez grandes pregos que ele forjou, no esvazamento das duas Douvres, na entrada da garganta do escolho, compreenderia dificilmente o motivo desses pregos, e perguntaria provavelmente por que razão fazia todo aquele trabalho.

Se visse Gilliatt medir o pedaço da amurada da proa que ficara pendurada, depois prender uma forte corda na borda superior desta peça, cortar com um machado as madeiras descoladas que a retinham, arrastá-las fora da garganta, com auxílio da maré que descia, e enfim prender laboriosamente com a corda essa pesada massa de tábuas e vigas, mais larga que a entrada da garganta, aos pregos metidos na base da pequena Douvre, o observador compreenderia menos ainda, e diria que se Gilliatt quisesse, para facilidade da manobra, desimpedir o intervalo das Douvres, bastava deixar cair aquele pedaço de tábuas na maré que o levaria à flor da água.

Gilliatt provavelmente tinha lá as suas razões.

Gilliatt, para fixar os pregos na base das Douvres, tirava partido de todas as fendas do granito, alargava-as quando era preciso, e metia ao princípio tocos de paus, nos quais introduzia depois os pregos. Emboçou a mesma preparação nas duas rochas que se levantavam noutra extremidade do escolho, do lado de leste; guarneceu de cavilhas de pau todos os buracos, como se as quisesse ter prontas para receber ganchos; mas isso pareceu ser uma simples reserva, porque Gilliatt não meteu pregos nessas fendas. Compreende-se que, por prudência na sua penúria, ele não podia gastar materiais senão à proporção que tivesse necessidade, e no momento em que a necessidade se manifestasse. Era mais uma complicação no meio de tantas dificuldades.

Acabado um primeiro trabalho, surgia um segundo. Gilliatt passava sem hesitar de um a outro e dava resolutamente esse pulo de gigante.

CAPÍTULO IV

SUBRE

O homem que fazia estas coisas tornara-se medonho.

Gilliatt, naquele trabalho múltiplo, gastava todas as suas forças; dificilmente as refazia.

Privações de uma parte, cansaço de outra. Gilliatt tinha emagrecido. Cresceram-lhe as barbas e cabelos. Exceto uma camisa, todas as mais estavam em frangalhos. Tinha os pés nus, porque o vento levara-lhe um sapato, e o mar o outro. Pedaços da bigorna rudimentar, e mui perigosa, de que se servia, tinham-lhe feito nas mãos e nos braços pequenas chagas, salpicos de trabalho. Essas chagas, mais esfoladuras que feridas, eram superficiais, mas irritadas pelo ar vivo e pela água salgada.

Tinha fome, tinha sede, tinha frio.

O pichel de água doce estava vazio. A farinha de centeio fora já comida ou empregada no trabalho. Restava-lhe um pouco de biscoito.

Não tendo água para molhá-lo, Gilliatt quebrava-o com os dentes.

Dia a dia iam-lhe escasseando as forças.

Aquele temível rochedo esgotava-lhe a vida.

Beber era uma questão; comer era uma questão; dormir era uma questão.

Gilliatt comia quando apanhava algum marisco ou outro bichinho do mar; bebia quando via um pássaro descer a alguma ponta da rocha. Trepava então e achava numa cava um pouco de água doce. Bebia depois do pássaro, às vezes ao mesmo tempo; porque as gaivotas já estavam acostumadas a ele, e não fugiam quando ele se aproximava. Gilliatt, mesmo na maior fome, não lhes fazia mal. Sabemos que ele tinha a superstição dos pássaros. Os pássaros, como os cabelos de Gilliatt estivessem eriçados e horríveis, e a barba longa, já lhe não cobravam medo; a mudança do aspecto tranqüilizava-os; já não viam naquilo um homem, acreditavam-no bicho.

Os pássaros e Gilliatt eram agora bons amigos. Todos aqueles pobres ajudavamse uns aos outros. Enquanto Gilliatt teve centeio, deu-lhes algumas migalhas dos bolos que fazia; agora os pássaros indicavam-lhe em que lugar havia água.

Comia as conchas cruas; as conchas, em certa proporção, são refrigerantes. Quanto aos caranguejos, cozia-os; não tendo vasilha própria, cozia-os entre duas pedras abrasadas ao fogo, como os selvagens das ilhas Feroe.

Declarou-se, entretanto, um pouco de equinócio; veio a chuva; mas chuva hostil. Nem ondas, nem aguaceiros, mas longos chuviscos, finos, gelados, que atravessavam-lhe a roupa até a pele, e a pele até os ossos. Era chuva que dava pouco de beber e molhava muito.

Avara de auxílio, pródiga de miséria, tal era aquela chuva, indigna do céu. Gilliatt apanhou-a toda, durante uma semana, de noite e de dia. Era uma má ação lá de cima.

De noite, no seu buraco do rochedo, só dormia por cansaço. Os grandes mosquitos do mar iam mordê-lo. Acordava coberto de pústulas.

Tinha febre, que o sustentava; a febre é um amparo, que mata. Mastigava, por instinto, o musgo, ou chupava as folhas de cocleária selvagem, magras produções das fendas secas do rochedo. Mas ocupava-se bem pouco com o sofrimento. Não tinha tempo de distrair-se do trabalho para cuidar de si. A máquina da Durande estava de saúde. Era o que bastava.

A cada momento, para as necessidades do trabalho, Gilliatt atirava-se ao mar, depois tomava pé. Entrava na água e saía, como se passa de um quarto a outro.

As roupas já lhe não secavam. Estavam embebidas da água da chuva que não parava, e da água do mar que não seca nunca. Gilliatt vivia molhado.

Viver molhado é um hábito que se adquire. Os pobres grupos irlandeses, velhos, mães, raparigas, quase nuas, crianças, que passam o inverno debaixo de aguaceiros e neve, apertados uns contra os outros nos ângulos das casas nas ruas de Londres, vivem e morrem molhados.

Estar molhado e ter sede; Gilliatt suportava essa tortura estranha. De quando em quando mordia a manga da japona.

O fogo que ele acendia não o aquecia; o fogo no meio de um grande espaço arejado é um meio socorro; seca-se de um lado, umedece-se de outro.

Gilliatt suava e tiritava.

Tudo lhe resistia em roda dele numa espécie de silêncio terrível. Ele sentia o inimigo.

As coisas têm um sombrio Non possumus.

A inércia delas é uma lúgubre advertência.

Imensa má vontade cercava Gilliatt. Estava cheio de queimaduras e tinha arrepios de frio. Queimava-o o fogo, gelava-o a água, a sede causava-lhe febre, o vento rasgava-lhe a roupa, a fome minava-lhe o estômago. Ele suportava a opressão em um conjunto fatigante. O obstáculo, tranqüilo, vasto, tendo a irresponsabilidade aparente da fatalidade, mas cheio de uma unanimidade feroz, convergia de todas as partes sobre Gilliatt. Gilliatt sentia-o apoiado inexoravelmente sobre ele. Nenhum meio de escapar-lhe. Era quase uma entidade. Gilliatt tinha a consciência de um desprezo sombrio e de um ódio que fazia esforço por diminuí-lo. Dependia dele fugir, mas, pois que ficava, tinha de lutar com hostilidade impenetrável. Não podendo pô-lo fora dali, punham-no debaixo dos pés. Quem? O Ignoto. Apertavam-no, comprimiam-no, tiravam-lhe lugar e alento. Estava abatido pelo invisível. Cada dia, a misteriosa verruma entrava um pedaço.

A situação de Gilliatt naquele medonho lugar assemelhava-se a um duelo equívoco com um traidor.

Cercava-o a coalizão das forças obscuras. Ele sentia uma resolução de alguémpara expulsá-lo dali. É assim que a geleira expele a massa errática.

Quase sem parecer que o tocava, essa coalizão latente punha-o em farrapos, cheio de sangue, falho de recursos, e, por assim dizer, fora de combate antes do combate. Nem por isso deixava ele de trabalhar, e sem cessar, mas, à proporção que a obra se fazia, ia-se desfazendo o operário. Dissera-se que aquela feroz natureza, receando a alma, resolvera-se a extenuar o homem. Gilliatt afrontava, e esperava. O abismo começava por cansá-lo. Que faria depois o abismo?

A dupla Douvres, dragão de granito e emboscado em pleno mar, admitira Gilliatt. Deixou-o entrar e trabalhar. A admissão assemelhava-se à hospitalidade de um sorvedouro aberto.

O deserto, a extensão, o espaço onde há para o homem tantos recursos, a inclemência muda dos fenômenos seguindo o seu curso, a grande lei geral implacável e passiva, o fluxo e o refluxo, o escolho, plêiada negra onde cada ponto é uma estrela de turbilhões, centro de uma irradiação de correntes, a conspiração da indiferença das coisas contra a tenacidade de um ente, o inverno, as nuvens, o mar sitiante, cercavam Gilliatt, apertavam-no lentamente, fechavam-se sobre ele, e o separavam dos vivos, como um cárcere que fosse subindo à roda de um homem. Tudo contra ele, nada a favor dele; estava isolado, abandonado, minado, esquecido.

Gilliatt tinha esgotado as provisões, as ferramentas já estavam usadas, a sede e a fome de dia, o frio de noite, feridas e andrajos, vestidos rotos cobrindo supurações, buracos nas roupas e na carne, mãos dilaceradas, pés sangrentos, membros magros, rosto lívido, uma flama nos olhos.

Flama soberba essa, era a vontade visível. O olho do homem é feito de modo que se lhe vê por ele a virtude. A nossa pupila diz que quantidade de homens há dentro de nós. Afirmamo-nos pela luz que fica debaixo da sobrancelha. As pequenas consciências piscam o olho, as grandes lançam raios. Se não há nada que brilhe debaixo da pálpebra, é que nada há que pense no cérebro, é que nada há que ame no coração. Quem ama quer, e aquele que quer relampeja e cintila. A resolução enche os olhos de fogo; admirável fogo que se compõe da combustão de pensamentos tímidos.

Os teimosos são os sublimes. Quem é apenas bravo tem só um assomo, quem é apenas valente tem só um temperamento, quem é apenas corajoso tem só uma virtude; o obstinado na verdade tem a grandeza. Quase todo o segredo dos grandes corações está nesta palavra: perseverando. A perseverança está para a coragem como a roda para a alavanca; é a renovação perpétua do ponto de apoio. Esteja na terra ou no céu o alvo da vontade, a questão é ir a esse alvo; no primeiro caso, é Colombo, no segundo caso, é Jesus. Insensata é a cruz; vem daí a sua glória. Não deixar discutir a consciência, nem desarmar a vontade, é assim que se obtêm o sofrimento e o triunfo. Na ordem dos fatos morais o cair não exclui o pairar. Da queda sai a ascensão. Os medíocres deixam-se perder pelo obstáculo especioso; não assim os fortes. Parecer é o talvez dos fortes, conquistar é a certeza deles. Podes dar a Estêvão todas as boas razões para que ele não se faça apedrejar. O desdém das objeções razoáveis cria a sublime vitória vencida que se chama o martírio.

Todos os esforços de Gilliatt pareciam agarrados ao impossível, o êxito era mesquinho ou lento, e cumpria gastar muito para obter pouco; isso é que o fazia magnânimo, isso é que o fazia patético.

Que para fazer um andaime de quatro pranchas acima de um navio naufragado, para cortar nesse navio a parte que se podia salvar, para ajustar a esse resto dos restos quatro guindastes com os seus cabos, fossem precisos tantos preparativos, tantos trabalhos, tantas apalpadelas, tantas noites mal dormidas, tantos dias afadigados, essa era a miséria do trabalho solitário. Fatalidade na causa, necessidade no efeito. Gilliatt fez mais do que aceitar essa miséria; qui-la. Temendo um concorrente, porque um concorrente poderia ser um rival, não procurou auxiliar. A esmagadora empresa, o risco, o perigo, o trabalho multiplicado por si mesmo, o engolimento possível do salvador no salvamento, a fome, a febre, a nudez, o abandono, tudo isso tomou ele para si só. Teve este egoísmo.

Gilliatt estava debaixo de uma espécie de máquina pneumática. A vitalidade ia-se retirando dele a pouco e pouco. E ele mal o sentia.

A perda das forças não esgota a vontade. Crer é apenas a segunda potência; a primeira é querer; as montanhas proverbiais que a fé transporta nada valem ao lado do que a vontade produz. O que Gilliatt perdia em vigor reavia em tenacidade. A diminuição do homem físico debaixo da ação repelente daquela natureza selvagem produzia o engrandecimento do homem moral.

Gilliatt não sentia a fadiga, ou, para melhor dizer, não consentia nela. O consentimento da alma recusado ao desfalecimento do corpo é uma força imensa.

Gilliatt via os progressos do trabalho, e não via nada mais. Era miserável sem sabê-lo. O seu alvo, que ele tocava quase, alucinava-o, sofria todos os sofrimentos sem ter outra idéia que não fosse esta: Avante! A sua obra subia-lhe à cabeça. Vontade embriagada. O homem pode embriagar-se com a própria alma. Essa embriaguez chama-se heroísmo.

Gilliatt era uma espécie de Jó do Oceano.

Mas um Jó que lutava, um Jó que combatia e afrontava os flagelos, um Jó que conquistava, e se tais palavras não são demasiado grandes para um pobre marinheiro pescador de caranguejos e de lagostas, um Jó Prometeu.

CAPÍTULO V

SUB UMBRA

Às vezes, alta noite, Gilliatt abria os olhos e olhava para a sombra.

Sentia-se extremamente comovido.

Olhar aberto sobre trevas. Situação lúgubre; ansiedade.

Existe a pressão da sombra.

Inexprimível teto de tênebras; alta obscuridade sem mergulhador possível; luz mesclada à obscuridade, mas uma luz vencida e sombria; claridade reduzida a pó; é semente? é cinza? milhões de fachos, claridade nula; vasta ignição que não diz o seu segredo, uma difusão de fogo em poeira que parece um bando de faíscas paradas, a desordem do turbilhão e a imobilidade do sepulcro, o problema oferecendo uma abertura de precipício, o enigma desvendando e escondendo a sua face, o infinito mascarado com a escuridão, eis a noite. Pesa no homem esta superposição.

Esse amálgama de todos os mistérios a um tempo, do mistério cósmico e do mistério fatal, abate a cabeça humana.

A pressão da sombra atua em sentido inverso nas diferentes espécies de almas. O homem, diante da noite, reconhece-se incompleto. Vê a obscuridade e sente a enfermidade. O céu negro é o homem cego. Entretanto, com a noite, o homem abate-se, ajoelha-se, prosterna-se, roja-se, arrasta-se para um buraco, ou procura asas. Quase sempre quer fugir a essa presença informe do desconhecido.

Pergunta o que é; treme, curva-se, ignora; às vezes quer ir lá.

Aonde?

Lá.

Lá? O que é? Que há lá?

Essa curiosidade é evidentemente a das coisas defesas, porque para aquele lado todas as pontes à roda do homem estão cortadas. Mas o desejo atrai, porque é golfão. Onde não vai o pé, vai o olhar, onde o olhar pára, pode continuar o espírito. Não há homem que não tente, por mais fraco e insuficiente que seja. O homem, segundo a sua natureza, investiga ou espera diante da noite. Para uns é um rechaçamento, para outros é uma dilatação. O espetáculo é sombrio. Mescla-se a ele o indefinível.

Vai a noite serena? É um fundo de sombra. Vai tempestuosa? É um fundo de fumaça. O ilimitado recusa-se e oferece-se ao mesmo tempo, fechado à experiência, aberto à conjetura. Infinitas picadas de luz tornam mais negra a obscuridade sem fundo. Carbúnculos, cintilações, astros. Presenças verificadas no Ignorado; tremendos reptos para ir tocar esses clarões. São estacas da criação no absoluto; são marcos de distância lá onde já não há distância; é uma espécie de numeração impossível, e todavia real, do canal das profundezas. Um ponto microscópico que fulge, depois outro, mais outro, mais outro; é o imperceptível, é

o enorme. Essa luz é um foco, esse foco é uma estrela, essa estrela é um sol, esse sol é um universo, esse universo é nada. Todo o número é zero diante do infinito.

Esses universos, que nada são, existem. Verificando-os, sente-se a diferença que vai entre ser nada, e não ser.

O inacessível ligado ao inexplicável, eis o céu.

Dessa contemplação solta-se um fenômeno sublime: o crescimento da alma pelo assombro.

O medo sagrado é próprio do homem; a besta ignora esse medo. A inteligência acha nesse terror augusto o seu eclipse e a sua prova.

A sombra é una: vem daí o seu horror. É, ao mesmo tempo, complexa: vem daí o terror. A sua unidade pesa no nosso espírito e saca-lhe a vontade de resistir.

A complexidade faz com que se olhe para todos os lados; parece que se devem recear assaltos súbitos. O homem rende-se e defende-se. Fica em presença de Tudo, daí vem a submissão, e de Muitos, daí vem a desconfiança. A unidade da sombra contém um múltiplo. Múltiplo misterioso, visível na matéria, sensível no pensamento. Faz silêncio, razão de mais para espreitar.

A noite — já o disse algures quem escreve estas linhas — é o estado próprio, normal da criação especial de que fazemos parte. O dia, breve na duração como no espaço, é apenas uma proximidade de estrela.

O prodígio noturno universal não se realiza sem atritos, e os atritos de uma tal máquina são as contusões da vida. Os atritos da máquina, é o que chamamos o Mal. Sentimos nessa obscuridade o mal, desmentido latente da ordem divina, blasfêmia implícita do fato rebelde ao ideal. O mal acrescenta uma teratologia de mil cabeças ao vasto conjunto cósmico. O mal está presente em tudo para protestar. É furacão e atormenta a marcha de um navio, é caos e entrava o desabrochar de um mundo. O Bem tem a unidade, o Mal tem a ubiqüidade. O mal desconcerta a vida, que é uma lógica. Faz devorar a mosca pelo pássaro, e o planeta pelo cometa. O mal é um borrão na natureza.

A obscuridade noturna peja-se de uma vertigem. Quem a aprofunda, submerge-see debate-se. Não há fadiga comparável a esse exame de trevas. É o estudo de um apagamento.

Não há lugar definitivo para pousar o espírito. Pontos de partida sem ponto de chegada. O cruzamento das soluções contraditórias, todos os ramos da dúvida a um tempo, a ramificação dos fenômenos esfoliando-se sem limite sob uma impulsão indefinida, mistura de todas as leis, uma promiscuidade insondável que faz com que a mineralização vegete, com que a vegetação viva, com que o pensamento pese, com que o amor irradie e a gravitação ame; a imensa frente de ataque de todas as questões desenvolvendo-se na obscuridade sem limites; o entrevisto esboçando o ignorado; a simultaneidade cósmica em plena aparição, não para o olhar, mas para a inteligência, no espaço indistinto; o invisível tornado visão. É a sombra. O homem está embaixo. Não conhece os pormenores, mas suporta, em qualidade proporcionada ao seu espírito, o peso monstruoso do conjunto. Esta obsessão impelia os pastores caldeus à astronomia. Saem dos poros da criação revelações involuntárias; faz-se por si mesma uma transudação de ciência e invade o ignorante. Debaixo dessa impregnação misteriosa torna-se o solitário, muitas vezes sem ter consciência, um filósofo natural.

A obscuridade é indivisível. É habitada. Habitada sem deslocação pelo absurdo; habitada também com deslocação. Move-se ali dentro alguma coisa, o que é para assustar. Uma formação sagrada desenvolve ali as suas fases. Premeditações, potências, destinos intencionais laboram aí em comum uma obra desmedida. Vida terrível e horrível é o que existe ali dentro. Há vastas evoluções de astros, a família estelar, a família planetária, o pólen zodiacal, o Quid divinum das correntes, dos eflúvios, das polarizações e das alterações; há o amplexo e o antagonismo, um magnífico fluxo e refluxo da antítese universal, o imponderável em liberdade no meio dos centros; há a seiva nos globos, a luz fora dos globos, o átomo errante, o germe esparso, curvas de fecundação, encontros de ajuntamento e de combate, profusões inauditas, distâncias que parecem sonhos, circulações vertiginosas, mergulhos de mundos no incalculável, prodígios perseguindo-se nas trevas, um maquinismo definitivo, sopro de esferas em fuga, rodas que se sente andarem, existe e esconde-se; é inexpugnável, fora de alcance. Fica-se convencido até à opressão. Tem-se em si uma evidência negra. Nada se pode agarrar. Esmaga-nos o impalpável.

Por toda a parte o incompreensível: em parte alguma o inteligível.

E a tudo isto acrescentai a terrível questão: esta Imanência é um Ser?

Está-se debaixo da sombra. Olha-se. Escuta-se.

Entretanto a terra sombria caminha e rola, as flores têm consciência desse movimento enorme; a silena abre-se às 11 horas da noite e o hemerocale às 5 horas da manhã. Impressível regularidade.

Em outras profundidades a gota de água faz-se mundo, o infusório pulula, a fecundidade gigante sai do animálculo, o imperceptível ostenta a sua grandeza, o sentido inverso da imensidade manifesta-se; uma diatoméia produz em uma hora 1 milhar e 300 milhões de diatoméias.

Que proposição de todos os enigmas ao mesmo tempo!

Está aí o irredutível.

Constrange-se-nos à fé. Crer por força, eis o resultado. Mas para estar tranqüilo não basta ter fé. A fé tem uma estranha necessidade de forma. Daí vêm as religiões. Nada é tão opressivo como uma crença sem delineamento.

Qualquer que seja o pensamento e a vontade, qualquer que seja a resistência interior, olhar a sombra não é olhar, é contemplar.

Que fazer desses fenômenos? Como mover-se debaixo de sua convergência? É impossível decompor esta pressão. Que devaneio se deve ajuntar a todos esses confinantes misteriosos? Quantas revelações abstrusas, simultâneas, obscurecendo-se em sua própria multidão, espécie de balbuciar do verbo! A sombra é um silêncio; mas esse silêncio diz tudo. Surge majestosamente um resultado: Deus. Deus é a noção incompreensível. Essa noção está no homem. Os silogismos, as querelas, as negações, os sistemas, as religiões passam por cima sem diminuí-la. A sombra inteira afirma aquela noção. Mas turva-se tudo o mais. Imanência formidável. A inexprimível harmonia das forças manifesta-se pelo equilíbrio dessa obscuridade. O universo pende; nada tomba. O deslocamento incessante e desmedido opera-se sem acidente e sem fratura. O homem participa deste movimento de translação e à quantidade de oscilação que suporta chama êle destino. Onde começa o destino? Onde acaba a natureza? Que diferença há entre um acontecimento e uma estação, entre um pesar e uma chuva, entre uma virtude e uma estrela? Uma hora não é uma onda? Continua o movimento da roda, sem responder ao homem, em sua revolução impassível. O céu estrelado é uma visão de rodas, de pêndulas e de contrapesos. É a contemplação suprema forrada da suprema meditação. É toda a realidade e mais a abstração. Nada além daí. O homem sente-se preso. Fica à discrição da sombra. Não há evasão possível. Vê-se ele naquele composto de rodas, é parte integrante de um Todo ignorado, sente o desconhecido que está fora dele. Isto é o anúncio sublime da morte. Que angústia e, ao mesmo tempo, que fascinação! Aderir ao infinito e por essa aderência atribuir-se uma imortalidade necessária, quem sabe? Uma eternidade possível sentir na prodigiosa vaga desse silêncio universal a obstinação insubmersível do eu! Contemplar os astros e dizer: “Sou uma alma como vós!” Contemplar a obscuridade e dizer: “Sou um abismo como tu”.

Essas enormidades são a noite.

Tudo isso aumentado, pela solidão, pesava em Gilliatt.

Compreendia-o ele? Não. Sentia-o? Sim.

Gilliatt era um grande espírito turvado e um grande coração selvagem.

CAPÍTULO VI

GILLIATT COLOCA A PANÇA EM POSIÇÃO

O salvamento da máquina, meditado por Gilliatt, era, como dissemos, uma

verdadeira evasão e são conhecidas as paciências da evasão. Também se conhecem as suas indústrias. A indústria chega ao milagre; a paciência atinge a agonia. Tal prisioneiro, Thomas, por exemplo, no monte São Miguel, achou meio de esconder metade de uma parede dentro da palha em que dormia. Outro, em Tulle, em 1820, cortou chumbo na plataforma de passeio da prisão, não se sabe com que faca, fundiu-o não se sabe com que fogo, vazou-o numa fôrma feita de migalhas de pão; com esse chumbo e essa fôrma fez uma chave e com essa chave abriu uma fechadura que ele apenas conhecia por ter-lhe visto o buraco. Gilliatt tinha essas habilidades inauditas. Era capaz de subir e descer o penedio Boisrosé. Era o Trenk de um destroço e o Latude de uma máquina.

O mar, que era o carcereiro, vigiava-o.

Demais, por ingrata e má que fosse a chuva, Gilliatt aproveitou-a. Refez com ela a sua provisão de água doce; mas a sede era inextinguível e Gilliatt esvaziava o pichel quase tão rapidamente como o enchia.

Um dia, o último de abril, creio, ou o 1° de maio, tudo estava pronto. O assoalho da máquina estava como que metido entre os oito-cabos das polés, quatro de um lado, quatro de outro. As dezesseis aberturas, por onde passavam esses cabos, estavam ligadas ao tombadilho e à carena. A madeira foi cortada com o machado,

o ferro com a lima, o forro com a faca e o resto com a serra. A parte da quilha onde estava a máquina foi cortada em quadro e estava pronta para resvalar com a máquina sustentando-a. Todo esse grupo assustador só estava preso por uma corrente, a qual dependia só de um golpe de lima. Tão perto do remate, a pressa era prudência.

A maré estava baixa, o momento era bom.

Gilliatt tinha conseguido desmontar a árvore das rodas, cujas extremidades podiam fazer obstáculo e impedir aquele levantar de âncora. Tinha conseguido amarrar verticalmente a pesada peça na própria máquina.

Era tempo de acabar. Gilliatt, como dissemos, não estava cansado porque não queria, mas as suas ferramentas estavam. A forja tornava-se impossível a pouco e pouco. A pedra que servia de bigorna tinha-se quebrado. O fole começava a trabalhar mal. Como a pequena queda hidráulica era de água marinha, formaram-se depósitos salinos nas junturas do aparelho e impediam-lhe o jogo.

Gilliatt foi à angra do Homem, passou revista à pança, assegurou-se de que tudo estava bom, particularmente as quatro argolas pregadas a bombordo e estibordo, levantou a âncora e remando voltou com a pança às duas Douvres.

O intervalo das Douvres podia admitir a pança. Havia bastante fundo e bastante largura. Gilliatt reconheceu, desde o primeiro dia, que podia-se levar a pança até debaixo da Durande.

A manobra era contudo excessiva, exigia uma precisão de joalheiro e esta inserção do barco no escolho era tanto mais delicada quanto que, para o que Gilliatt queria fazer, era necessário entrar pela popa com o leme na proa. Era necessário que o mastro e os aparelhos da pança ficassem aquém do casco do vapor, do lado da entrada.

Este agravo na manobra tornou a operação difícil ao próprio Gilliatt. Já não era, como na angra do Homem, uma questão de movimento de leme; era preciso ao mesmo tempo entrar, puxar, remar e sondar. Gilliatt empregou nisso nada menos de um quarto de hora, mas conseguiu.

Em quinze ou vinte minutos a pança ficou colocada debaixo da Durande. Ficou quase atravessada. Gilliatt, por meio de duas âncoras, segurou a pança. A maior ficou colocada de modo a trabalhar com o vento mais forte, que era o vento de oeste, depois, por meio de uma alavanca e de um cabrestante, Gilliatt passou para a pança as duas caixas, contendo as rodas desmontadas, cujos cabos de guindar estavam prontos. As duas caixas fizeram lastro.

Desembaraçado das duas caixas, Gilliatt prendeu ao gancho da corrente do cabrestante o cabo regulador destinado a conter os guindastes.

Para a obra de Gilliatt os defeitos da pança tornavam-se qualidades; não tinha coberta, o carregamento achava mais fundo e podia pousar no porão. Era mastreada na proa, muito na proa talvez, o carregamento achava mais facilidade e

o mastro ficava fora da máquina, de modo que nada impedia a saída; era uma espécie de concha, e nada mais estável e sólido no mar corno uma concha.

De repente Gilliatt viu que a maré enchia. Tratou de ver donde soprava o vento.

CAPÍTULO VII

SURGE UM PERIGO

Havia pouca brisa, mas vinha do oeste. É um mau costume do vento no equinócio.

A maré enchente, conforme o vento que sopra, comporta-se diversamente no escolho Douvres. Conforme o vento, a onda entra naquele corredor ou por leste ou por oeste. Se o mar entra por leste a água é boa e mole, se entra por oeste é furiosa. A razão disto é que o vento de leste, vindo de terra, tem pouco alento, enquanto que o vento de oeste, que atravessa o Atlântico, traz consigo o sopro da imensidade. Mesmo quando a brisa é fraca assusta quando vem do oeste. Rola largas ondas da extensão ilimitada e cospe grossas vagas no estreito.

A água que se engolfa é sempre terrível. A água é como a multidão; uma multidão é um líquido; quando a quantidade que pode entrar é menor que a quantidade que deseja entrar, a multidão machuca-se e a água convulsiona-se. Enquanto sopra o vento do poente, ainda a mais fraca brisa, há nas Douvres este assalto duas vezes por dia. A maré levanta-se, a rocha resiste, a abertura é pequena, a onda entrando à força, salta e ruge, e um marulho enraivecido bate as duas fachadas internas da viela. De modo que as Douvres, ao menor vento do oeste, oferecem este espetáculo singular: no mar, calma, no escolho, tempestade. Esse tumulto local e circunscrito não é uma tormenta; é apenas uma revolta de vagas, mas terrível. Quanto aos ventos do norte e do sul, esses fazem pouca ressaca na garganta do escolho. A entrada por leste, é preciso lembrá-lo, confina com o rochedo Homem; a abertura temível do oeste fica na extremidade oposta exatamente entre as duas Douvres.

Nessa abertura de oeste é que se achava Gilliatt com a Durande naufragada e a pança ancorada.

Parecia inevitável uma catástrofe, esta catástrofe iminente tinha, embora pouco, o vento de que precisava.

Dentro de poucas horas o inchamento do mar que subia, ia naturalmente entrar em grande luta, no estreito das Douvres. As primeiras vagas já começavam a rugir. Inchamento esse, refluxo impetuoso de todo o Atlântico que teria atrás de si a totalidade do mar. Nenhuma borrasca, nenhuma cólera; mas uma simples onda soberana, contendo em si uma força de impulsão que, partindo da América para chegar à Europa, tinha 2 000 léguas de jato. Essa onda, barra gigantesca do oceano, encontraria o hiato do escolho, e, apertada nas duas Douvres, torres de entrada, pilares do estreito, inchada pela maré, inchada pelo obstáculo, repelida pelo rochedo, castigada pelo vento, faria violência ao escolho, penetraria, com todas as torções do obstáculo encontrado, e todos os frenesis da vaga entravada, entre as duas muralhas, encontraria a pança e a Durande, e as estrangularia.

Era preciso um broquel contra essa eventualidade. Gilliatt tinha-o.

Cumpria impedir que a maré entrasse toda, impedir que esbarrasse embora enchesse, tapar-lhe a passagem sem recusar-lhe a entrada, resistir-lhe e ceder-lhe, prevenir a compressão da onda na boca do rochedo, que era o perigo, substituir a irrupção pela introdução, conter a raiva e a brutalidade da vaga, obrigar aquela fúria a ser tranqüila. Era preciso substituir ao obstáculo que irrita, o obstáculo que aplaca.

Gilliatt, com a destreza que tinha, mais forte que a força, executando uma manobra de cabrito-montês na montanha ou de macaco na floresta, utilizando com saltos oscilantes e vertiginosos a menor saliência de pedra, pulando na água, nadando nos redemoinhos, trepando ao rochedo, com uma corda nos dentes, um martelo na mão, desatou o cabo que prendia à pequena Douvre o pedaço da amurada de proa da Durande, fez com as pontas da maroma uma espécie de gonzos prendendo aquele pedaço de madeira aos grandes pregos metidos no granito, fez voltar naqueles gonzos aquela armadura de tábuas semelhante ao alçapão de um dique, expô-lo em flanco, como se faz com um leme, à onda que impelia, e aplicou essa extremidade à grande Douvre, enquanto os gonzos de cordas retinham na pequena Douvre a outra extremidade; operou na grande Douvre, por meio de pregos, postos de antemão, a mesma fixação que na pequena, amarrou solidamente essa vasta placa de madeira ao duplo pilar da abertura, travou nessa barra uma corrente como um talabarte numa couraça e, em menos de uma hora, levantou-se o obstáculo contra a maré, e a viela do escolho ficou fechada como por uma porta.

Este robusto tapamento, pesada massa de pranchas, que deitado seria uma jangada, e de pé uma parede, foi, com auxílio da vaga, trabalhado por Gilliatt com uma agilidade de saltimbanco. Podia-se dizer quase que a coisa foi feita antes que

o mar se apercebesse disso.

Era um desses casos em que Jean Bart dizia o famoso dito que ele dirigia à vaga do mar, cada vez que esquivava um naufrágio: “Apanhei-te, inglês!” Sabe-se que Jean Bart quando queria insultar o oceano chamava-o inglês.

Tapado o estreito, Gilliatt cuidou da pança. Dividiu o cabo nas duas âncoras para que ela pudesse subir com a maré. Operação análoga a que os antigos marítimos chamavam: mouiller avec des embossures.

Em tudo isso Gilliatt não foi surpreendido, o caso estava previsto; um homem do oficio reconhecê-lo-ia vendo as duas roldanas de guindar metidas por trás da pança, nas quais passavam dois pequenos cabos cujas pontas estavam presas às argolas das duas âncoras.

Entretanto, crescia a maré; já subira a metade; é nesse momento que os choques das ondas, mesmo plácidos, podem ser rudes. O que Gilliatt combinara realizou-se. A onda rolava violentamente para a porta, encontrava-a, inchava e passava por cima. Fora era o marulho. Dentro a infiltração. Gilliatt imaginou alguma coisa semelhante às forcas caudinas do mar. A maré estava vencida.

CAPÍTULO VIII

MAIS PERÍCIA QUE DESENLACE

Chegara o tremendo instante.

Tratava-se agora de pôr a máquina na pança.

Gilliatt ficou pensativo alguns momentos, tendo o cotovelo do braço esquerdo na mão direita, e a fronte na mão esquerda.

Depois subiu à Durande, cuja metade, que era a máquina, devia sair e cujo casco devia ficar.

Cortou os quatro cabos que prendiam a estibordo e a bombordo as quatro correntes do cano. Como era corda, bastou-lhe a faca.

As quatro correntes, livres, ficaram pendentes ao longo do cano.

Do navio subiu ele ao aparelho que construíra, bateu com o pé em todas as pranchas, examinou as roldanas, viu as polés, apalpou os cabos, verificou as emendas, assegurou-se de que o massame não estava profundamente molhado, certificou-se de que nada faltava, nem estava bambo, depois, pulando do alto das peças sobre o tombadilho, tomou posição, ao pé do cabrestante, na parte da Durande que devia ficar nas Douvres. Era esse o seu posto de trabalho.

Grave, sentindo somente a comoção útil, lançou um último olhar ao aparelho, depois tomou uma lima e pôs-se a cortar a corrente que sustentava tudo.

Ouvia-se o ranger da lima no meio do murmúrio do mar.

A corrente do cabrestante, presa ao cabo regulador, ficava ao alcance da mão de Gilliatt.

De repente, houve um estalo. A argola que a lima cortava, já limada por metade, tinha-se quebrado; todo o aparelho estava solto. Gilliatt teve apenas tempo de agarrar o grande cabo.

A corrente quebrada bateu no rochedo, os oito cabos retesaram-se, toda a massa cerrada e cortada desprendeu-se do navio, abriu-se o ventre da Durande, o assoalho de ferro da máquina, pesando sobre os cabos, apareceu debaixo da quilha.

Se Gilliatt não tivesse chegado a tempo ao cabo regulador, havia uma queda. Mas a sua mão terrível estava lá; foi apenas uma descida.

Quando o irmão de Jean Bart, Pierre Bart, aquele bêbado possante e sagaz, aquele pobre pescador de Dunquerque que tratava o grande almirante por tu, salvou a galera Langeron, perdida na baía de Ambleteuse, quando, para tirar aquela pesada massa flutuante dos cachopos da baía furiosa, amarrou a vela grande com juncos marinhos, quando ele quis que os juncos, quebrando-se por si, abrissem a vela ao vento, fiou-se na rotura dos juncos, como Gilliatt na fratura da corrente, foi a mesma estranha audácia coroada pela mesma vitória surpreendente.

A corda motora, segura por Gilliatt, operou admiravelmente. Devem lembrar-se de que essa corda tinha por fim diminuir as forças convertidas em uma só e reduzidas a um movimento de conjunto. Aquela corda tinha alguma relação com uma bolina; somente em vez de orientar uma vela, equilibrava um maquinismo.

Gilliatt, de pé e com a mão no cabrestante, tinha por assim dizer a mão no pulso do aparelho.

Aqui a invenção de Gilliatt manifestou-se toda.

Produziu-se uma notável coincidência de forças.

Enquanto a máquina da Durande separada em massa, descia para a pança, a pança subia para a máquina. O navio naufragado e o barco salvador, ajudando-se em sentido inverso, iam encontrando-se. Poupava-se, deste modo, metade do trabalho.

A maré, enchendo sem rumor entre as duas Douvres, levantava a embarcação e aproximava-a da Durande. A maré estava mais que vencida, estava domesticada. O oceano fazia parte do maquinismo.

A vaga subindo, levantava a pança sem choque, brandamente, quase com precaução e como se ela fosse de porcelana.

Gilliatt combinava e proporcionava os dois trabalhos, o da água e do aparelho, e, imóvel, no cabrestante, espécie de estátua temível, obedecida por todos os movimentos ao mesmo tempo, regulava a lentidão da descida pela lentidão da subida.

Nenhum abalo na água, nenhum balanço nas pranchas. Era uma estranha colaboração de todas as forças naturais dominadas. De um lado a gravitação levava a máquina; do outro a maré trazia o barco. A atração dos astros, que é o fluxo, e a atração do globo, que é a gravidade, pareciam harmonizar-se para servir a Gilliatt. A sua subordinação não tinha hesitação nem parada, e, debaixo da pressão de uma alma, aquelas duas potências passivas tornavam-se ativas auxiliares. A obra caminhava de minuto a minuto; o intervalo entre a pança e a Durande diminuía insensivelmente. Fazia-se a aproximação em silêncio e com uma espécie de terror pelo homem que estava ali. O elemento recebia uma ordem e executava-a.

Quase no momento em que a maré cessou de subir, os cabos cessaram de correr subitamente, mas sem comoção; as roldanas pararam. A máquina, como se fosse colocada a mão, assentou-se no fundo da pança. Estava direita, de pé, imóvel, sólida. A placa que a sustentava apoiava-se com os seus quatro ângulos e a prumo no porão.

Estava pronto.

Gilliatt olhou atônito.

A pobre criatura não tinha tido muitas alegrias em sua vida. Sentiu o alquebramento de uma imensa felicidade. Dobravam-se-lhe os membros; e diante do seu triunfo, ele que não se perturbara até então, começou a tremer.

Contemplou a pança debaixo do navio e a máquina dentro da pança. Parecia não acreditar. Dissera-se que ele não contava com aquilo. Saíra-lhe um prodígio das mãos, e ele contemplava-o com espanto.

Mas esse espanto durou pouco.

Gilliatt teve o movimento de um homem que desperta, travou da serra, cortou os oito cabos, depois, separado agora da pança apenas uns 10 pés, deu um salto, caiu dentro, pegou em um rolo de fio, fez quatro cabos, passou-os nas argolas preparadas de antemão e prendeu por ambos os lados da pança as quatro correntes do cano que uma hora antes ainda estavam presas na amurada da Durande.

Amarrada ao cano, Gilliatt desembaraçou a parte superior da máquina. Um pedaço do tombadilho da Durande ainda ali estava preso. Gilliatt despregou-o e limpou a pança daquela porção de tábuas e vergas que atirou sobre os rochedos. Útil alívio.

Demais, como é de prever, a pança sustentou com firmeza a carga da máquina. Mergulhou muito pouca coisa. A máquina da Durande, embora maciça, era menos pesada que o montão de pedras e o canhão trazido outrora de Herm pela pança.

Tudo estava acabado. Só restava ir-se embora.

CAPÍTULO IX

INTERROMPE-SE O ÊXITO

Nem tudo estava acabado.

Abrir a entrada das Douvres, fechada pelo pedaço da amurada da Durande, e levar imediatamente a pança para fora do escolho, nada mais claro do que isto.

No mar todos os minutos são urgentes. Pouco vento, apenas uma ruga ao longe; a bela tarde prometia uma bela noite. O mar era de rosas, mas o refluxo começava; excelente momento para partir. Gilliatt teria a vazante para sair das Douvres, e a enchente para entrar em Guernesey. Podia estar em Saint-Sampson de madrugada.

Mas apresentou-se um obstáculo inesperado. Houve uma lacuna na previdência de Gilliatt.

A máquina estava livre, o cano estava preso.

A maré, aproximando a pança da Durande, tinha diminuído os perigos da descida; mas essa diminuição do intervalo deixou a parte superior do cano metida na espécie de quadro que apresentava o bojo aberto da Durande. O cano estava preso como entre quatro paredes.

O serviço prestado pelo mar complicava-se com esta dissimulação. Parece que o mar, obrigado a obedecer, teve uma segunda tenção.

É verdade que aquilo que a enchente fizera ia desfazê-lo a vazante.

O cano, tendo mais de 3 toesas de altura, tinha uns 8 pés metidos na Durande; o nível da água aí baixaria 12 pés; o cano, descendo com a pança, teria 4 pés de espaço acima de si, e poderia sair.

Mas quanto tempo era preciso para isto? Seis horas.

Daí a seis horas seria meia-noite. Que meio tentaria Gilliatt para sair àquela hora, que canal tomaria através daqueles cachopos, já tão inextrincáveis de dia, e como arriscar-se no meio da noite em semelhante emboscada de bancos de pedras?

Era força esperar até o dia seguinte. Aquelas seis horas perdidas faziam perder ao menos doze horas.

Era mesmo necessário não adiantar trabalho abrindo a entrada ao cachopo. O tapamento era preciso até a maré próxima.

Gilliatt devia repousar.

Cruzar os braços era a única coisa que ele não tinha feito desde que estava no escolho Douvres.

Irritou-o, indignou-o quase, como se fosse culpa dele, aquele descanso. Disse consigo: “Que pensaria de mim Déruchette se me visse aqui sem fazer nada?”

Contudo, não lhe era inútil refazer as forças.

Estando a pança à sua disposição, Gilliatt resolveu passar a noite a bordo.

Foi buscar a pele de carneiro no alto da grande Douvre, desceu, comeu algumas conchas e duas ou três castanhas do mar, bebeu por ter muita sede os últimos goles da água doce do pichel quase vazio, embrulhou-se na pele cuja lã deu-lhe prazer ao corpo, deitou-se como um cão de guarda ao pé da máquina, abaixou o chapéu sobre os olhos e adormeceu.

Dormiu profundamente. Tem-se daqueles sonos depois das obras acabadas.

CAPÍTULO X

AS ADVERTÊNCIAS DO MAR

No meio da noite, bruscamente, e como por mola, Gilliatt acordou.

Abriu os olhos.

As Douvres, acima da cabeça dele, estavam iluminadas como pela reverberação de uma grande brasa branca. Havia em toda a fachada negra do escolho um reflexo de fogo.

Donde vinha o fogo?

Da água.

O mar estava extraordinário.

Parecia que a água incendiava-se. Onde os olhos alcançavam, no escolho e fora do escolho, flamejava o oceano. Não era uma flama vermelha; não se parecia com a grande flama viva das crateras e das fornalhas. Nenhuma crepitação, nenhum ardor, nenhum avermelhado, nenhum ruído. Rastilhos azulados imitavam na água as dobras de uma mortalha. Um grande clarão lívido estremecia na água. Não era incêndio; era o espectro dele.

Era uma coisa semelhante ao abrasamento lívido do interior de um sepulcro por uma chama ideal.

Imaginai trevas acesas.

A noite, a vasta noite turva e difusa, parecia ser um combustível daquele fogo gelado. Era uma claridade feita de cegueira. A sombra entrava como elemento naquela luz fantasma.

Os marinheiros da Mancha conhecem todas essas indescritíveis fosforescências, que advertem o navegante. Em parte alguma são mais surpreendentes do que no Grande V, perto de Isigny.

Diante desta luz as coisas perdem a realidade. Uma penetração fantástica torna-as como que transparentes. Os rochedos são apenas lineamentos. Os cabos das âncoras parecem barras de ferro ardentes. As redes dos pescadores parecem um crivo de fogo debaixo da água. Metade do remo é de ébano, a outra metade debaixo da água é de prata. Os pingos da água que caem dos remos fazem estrelas no mar. Todos os barcos arrastam um cometa. Os marinheiros molhados e luminosos parecem homens que ardem. Mergulha-se a mão no mar e sai calçada de chama: é uma chama morta, não se sente. O braço parece um tição aceso. Vêem-se as formas que estão no mar rolarem debaixo das vagas alumiadas. A espuma cintila. Os peixes são línguas de fogo e uns pedaços de relâmpago serpenteiam naquela pálida profundidade.

Gilliatt acordou porque o clarão atravessou-lhe as pálpebras fechadas.

Acordou a tempo.

A maré tinha descido; começava a encher de novo.

O cano da máquina, solto durante o sono de Gilliatt, ficou outra vez preso no casco do navio.

Subia lentamente.

Mais palmo e meio, e o cano estaria dentro da Durande.

Para isso ainda havia meia hora. Gilliatt, se quisesse aproveitar a ocasião, tinha essa meia hora diante de si.

Levantou-se sobressaltado.

Por mais urgente que fosse a situação, ele não pôde deixar de ficar alguns instantes de pé, contemplando a fosforescência e meditando.

Gilliatt conhecia o mar a fundo. Embora tivesse sido muito maltratado por ele, o mar era já de muito tempo companheiro de Gilliatt. Aquele ente misterioso que se chama oceano não podia ter nenhuma idéia que Gilliatt não a adivinhasse. Gilliatt, à força de observação, de cisma e de solidão, tornara-se um vidente do tempo, aquilo que se chama, em inglês, um wheater wise.

Gilliatt correu às amarras e guindou-as; depois, já não estando retido pelas âncoras, travou do croque da pança e, apoiando-se nas rochas, afastou-a para fora algumas braças distante da Durande perto do tapamento de tábuas. Havia rang, corno dizem os marítimos de Guernesey. Em menos de dez minutos a pança estava fora do casco. Já não havia receio de que o cano pudesse ficar preso.

Entretanto, Gilliatt não se mostrava disposto a partir.

Contemplou ainda a fosforescência e levantou as âncoras, mas não era para navegar, era para ancorar de novo a pança, e muito solidamente; é verdade que o barco ficou junto da porta.

Até então só tinha usado das duas âncoras da pança, e não tinha ainda empregado a pequena âncora da Durande, achada, como se sabe, nos cachopos. Essa colocou-a ele, pronta para as urgências, num canto da pança entre maromas e polés, e juntamente o cabo guarnecido de boças. Gilliatt deitou ao mar essa terceira âncora, tendo cuidado de prender o cabo a outro cabo pequeno, cuja ponta passava na argola da âncora, ficando a outra ponta no ferro de guindar. Deste modo amarrou a pança com três âncoras, o que era mui forte. Indicava isto uma viva preocupação e um redobrar de cautelas. Qualquer marinheiro reconheceria, nessa operação, alguma coisa semelhante a um deitar ferros obrigado, quando há a recear uma corrente que possa fazer garrar o navio.

A fosforescência sobre a qual Gilliatt tinha os olhos fixos ameaçava-o talvez, mas ao mesmo tempo servia-o. Se não fosse ela, Gilliatt era prisioneiro do sono e vítima da morte. Ela não só o despertou, senão que o alumiava também.

Havia no escolho uma luz opaca. Mas esse clarão, por mais assustador que parecesse a Gilliatt, foi-lhe útil porque tornou-lhe o perigo visível e a manobra possível.

Agora, quando Gilliatt quisesse abrir vela, a pança, carregando a máquina, estava livre.

Somente Gilliatt parecia pensar cada vez menos em partir. Ancorada a pança, foi ele buscar a mais forte corrente que tinha no depósito e prendeu-a nos pregos metidos nas duas Douvres, fortificou com ela o baluarte de vergas e barrotes já protegido pelo lado de fora pela outra corrente. Longe de abrir caminho, Gilliatt tapava-o.

A fosforescência ainda iluminava, mas ia diminuindo. É verdade que o dia começava a romper.

De repente, Gilliatt prestou ouvidos.

CAPÍTULO XI

PARA UM BOM ENTENDEDOR MEIA PALAVRA BASTA

Pareceu-lhe ouvir, imensamente longe, um quê de fraco e indistinto.

As profundezas, em certas horas, têm um certo rugido.

Gilliatt atentou pela segunda vez. O rumor longínquo recomeçou. Gilliatt sacudiu a cabeça como quem sabia o que era.

Momentos depois, estava ele na outra extremidade da viela do escolho, na entrada de leste, livre até ali, e com grandes marteladas meteu grossos pregos no granito dos portais daquela abertura vizinha do rochedo Homem.

Os buracos desses rochedos estavam preparados e guarnecidos de cavilhas de madeira, quase tudo carvalho. O escolho desse lado estava escalavrado, tinha muitas fendas, e Gilliatt pôde meter aí mais pregos ainda que no esvaziamento das Douvres.

Num momento dado, e como se lhe soprassem de cima, a fosforescência apagou-se; o crepúsculo, cada vez mais luminoso, substituía-a.

Metidos os pregos, Gilliatt arrastou umas pranchas, depois cordas, depois correntes, e, sem desviar os olhos do trabalho, sem se distrair um momento, começou a construir na abertura do Homem, com tábuas fixadas horizontalmente e presas por cabos, um desses tapamentos de clarabóia, que a ciência já adotou, e qualifica de quebra-mar.

Os que viram, por exemplo, na Rocquaine em Guernesey, ou no Bouryd'eau na França, o efeito que fazem algumas estacas pregadas no rochedo, compreendem a força desses trabalhos símplices. O quebra-mar é a combinação daquilo que na França se chama epi e daquilo que na Inglaterra se chama dick. O quebra-mar são os cavalos de frisa das fortificações contra as tempestades. Não se pode lutar contra o mar senão aproveitando a divisibilidade dessa força.

Entretanto, levantara-se o sol, perfeitamente puro. O dia estava claro, o mar calmo.

Gilliatt apressava o trabalho. Também ele estava calmo, mas na sua pressa havia ansiedade.

Passava, em grandes pulos, de rocha em rocha, do tapamento ao depósito e do depósito ao tapamento. Voltava puxando apressadamente, ora um gancho, ora um cabo. Manifestou-se então a necessidade daquele depósito de destroços. Era evidente que Gilliatt estava diante de uma eventualidade prevista.

Uma forte barra de ferro servia-lhe de alavanca para mover os barrotes.

O trabalho executava-se tão depressa que mais parecia um crescimento que uma construção. Quem não viu trabalhar um portageiro militar não pode fazer idéia daquela rapidez.

A abertura de leste era ainda mais estreita que a de oeste. Tinha apenas 5 ou 6 pés de largura. A estreiteza ajudava Gilliatt. Sendo estreito o espaço que tinha de fortificar e fechar, a armadura seria mais sólida e podia ser mais simples. Bastavam, pois, vigas horizontais; as peças verticais eram inúteis.

Postos os primeiros travessões do quebra-mar, Gilliatt trepou em cima e escutou.

O rugido tornava-se expressivo.

Gilliatt continuou a construção. Acrescentou-lhe dois cepos da Durande ligados às pontas das vigas com driças passadas nas três rodas das polés. Ligou tudo com correntes.

Essa construção era nada menos que uma espécie de grade colossal; as pranchas eram as tenazes e as correntes eram os vimes.

Parecia entrançado como parecia construído.

Gilliatt multiplicou os laços e pôs mais pregos onde era preciso.

Tendo muito ferro redondo na Durande, pôde fazer uma grande provisão desses pregos.

Ao mesmo tempo que trabalhava ia mastigando biscoito. Tinha sede, mas não podia beber, por já não ter água doce. Esgotara o pichel na noite anterior.

Acrescentou ainda quatro ou cinco tábuas, depois trepou em cima de tudo. Escutou.

Cessou o rumor ao longe e calava-se tudo.

O mar estava manso e soberbo; merecia todos os madrigais que lhe dirigem os burgueses quando estão contentes com ele — um espelho, um mar de rosas, um tanque, um mar de leite. O azul profundo do céu correspondia ao verde profundo do oceano. Aquela safira e aquela esmeralda podiam admirar-se ambas. Não tinham de que exprobrar-se. Nenhuma nuvem em cima, nenhuma espuma embaixo. No meio desse esplendor subia magnificamente o sol de abril. Era impossível ver mais belo dia.

No extremo horizonte uma fila negra de aves de arribação atravessava o céu. Iam depressa. Dirigiam-se para a terra. Parecia uma fuga.

Gilliatt continuou a levantar o quebra-mar.

Levantou-o o mais que pôde, tão alto como lhe permitiu a curvatura dos rochedos.

Ao meio-dia, o sol pareceu-lhe mais quente do que devia estar. Meio-dia é a hora crítica do dia. Gilliatt, de pé na robusta clarabóia que acabava de construir, entrou a contemplar a extensão.

O mar estava mais que tranqüilo, estava estagnado. Não se via uma vela. O céu estava límpido; somente o azul tornara-se mais branco. Era um branco singular. No horizonte, a oeste, havia uma manchazinha de aparência ruim. Essa mancha estava imóvel, mas crescia. Junto dos cachopos o mar palpitava brandamente.

Gilliatt fizera bem em construir o quebra-mar.

Aproximava-se uma tempestade.

O abismo resolvera dar batalha.

LIVRO TERCEIRO

A LUTA

CAPÍTULO PRIMEIRO

O EXTREMO TOCA O EXTREMO E O CONTRÁRIO ANUNCIA O CONTRÁRIO

Nada tão ameaçador corno o equinócio que retarda.

Há no mar um fenômeno medonho que se pode chamar a chegada dos ventos do largo.

Em todas as estações, especialmente na época das sizígias, no momento em que menos se espera, o mar apresenta uma súbita e estranha tranqüilidade. Aplaca-se aquele prodigioso movimento contínuo; cai em madorna e languidez; parece que vai descansar; crer-se-ia que está fatigado. Todos os trapos marinhos, desde as flâmulas de pesca, até às insígnias de guerra, pendem ao longo dos mastros. Os pavilhões almirantes, reais, imperiais, dormem todos.

De repente esses panos começam a mexer-se discretamente.

É a hora, se há nuvens, de espreitar a formação dos cirros; se o sol se põe, é a hora de examinar a cor da tarde; se é de noite e há luar, é a hora de estudar as auréolas planetárias.

Nessa hora, o capitão ou chefe de esquadra que tem a fortuna de possuir um desses vidros de tempestade, cujo inventor não se conhece, observa o vidro com o microscópio e toma as suas precauções contra o vento do sul, se a mistura tem aspecto de açúcar fundido; e contra o vento do norte, se a mistura se esfolha em cristalizações semelhantes aos tufos de ervas ou aos bosques de pinheiro. Nessa hora, depois de ter consultado o gnomo misterioso gravado pelos romanos, ou pelos demônios, numa dessas estreitas pedras enigmáticas que na Bretanha se chamam menires, e na Irlanda cruachs, o pobre pescador irlandês ou bretão retira a sua barca do mar.

Persiste entretanto a serenidade do céu e do oceano. A manhã rompe radiosa e a aurora sorri, o que enchia de religioso horror os antigos poetas e os antigos adivinhos, assustados de que se pudesse crer na deslealdade do sol. Solem quis

dicere falsum audeat?

A sombria visão do possível latente é interceptada ao homem pela opacidade fatal das coisas. O mais temível e o mais pérfido aspecto é a máscara do abismo.

Diz-se: anguis in herba; devia dizer-se: borrasca na calma.

Assim se passam horas e, às vezes, dias. Os pilotos assestam os seus óculos. O rosto dos velhos marinheiros tem um ar de severidade que se prende à cólera secreta da expectação.

De súbito ouve-se um grande murmúrio confuso. Há uma espécie de diálogo misterioso no ar.

Não se vê coisa alguma.

A extensão fica impassível.

Entretanto o rumor cresce, engrossa, eleva-se. Acentua-se o diálogo.

Há alguém por trás do horizonte.

Pessoa terrível essa, é o vento.

O vento, isto é, a população de titãs que chamamos Tufões.

Imensa plebe da sombra.

A Índia chamava-os Morouts, a Judéia Querubins, a Grécia Aquilões. São os invisíveis pássaros ferozes do infinito. Esses Bóreas precipitam-se.

CAPÍTULO II

OS VENTOS DO LARGO

Donde vêm eles? Do incomensurável. Os seus grandes vôos exigem o diâmetro do golfão. As suas asas desmedidas precisam das solidões indefinidas. O Atlântico, o Pacífico, essas vastas aberturas azuis, eis o que lhes convém. Fazem-nas sombrias. Voam em bandos. O Comandante Page viu de uma vez, no mar alto, sete trombas a um tempo. Aí são medonhas. Premeditam os desastres. Têm por trabalho deles o intumescimento efêmero e eterno dos vagalhões. Ignora-se o que eles podem, desconhece-se o que eles querem. São as esfinges do abismo; e Vasco da Gama é o seu Édipo. Faces de nuvens aparecem nessa obscuridade da extensão sempre em movimento. Quem descobre os seus lineamentos lívidos nessa dispersão que é o horizonte do mar sente-se em presença da força irredutível. Dissera-se que a inteligência humana os assusta, e eriçam-se contra ela. A inteligência é invencível, mas o elemento é indomável. Que fazer contra a ubiqüidade que se não sujeita! O vento faz-se massa e torna-se vento outra vez. Os ventos combatem esmagando e defendem-se esvaindo-se.

Quem depara com eles só pode lançar mão de expedientes. Eles frustram-nos pelo assalto diverso e repercutido. Tanto atacam como fogem. São os impalpáveis tenazes. Como vencê-los? A proa do navio Argo, esculpida em um carvalho de Dodona, ao mesmo tempo proa e piloto, costumava falar-lhes. Eles maltratavam aquela proa deusa. Cristóvão Colombo, vendo-os vir de encontro à Pinta, subiu ao tombadilho e dirigiu-lhes os primeiros versículos do Evangelho de São João. Surcouf insultava-os. “Aí vem a pandilha”, dizia ele. Napier descarregava-lhes tiros em cima. Eles têm a ditadura do caos.

Têm o caos. Que fazem dele? Fazem uma coisa implacável. A cova dos ventos é mais monstruosa que a cova dos leões. Quantos cadáveres debaixo dessas dobras sem fundo! Os ventos empurram sem piedade a grande massa obscura e amarga. A gente os ouve sempre, mas eles não ouvem a ninguém. Cometem coisas que parecem crimes. Não se sabe sobre quem atiram eles os punhados brancos de espuma. Que ferocidade ímpia no naufrágio! Que afronta à Providência! Às vezes parecem que cospem em Deus. São os tiranos dos lugares desconhecidos. “Luoghi spaventosi”, murmuravam os marinheiros de Veneza.

Os espaços trêmulos suportam os seus ataques. É inexprimível o que se passa nesses grandes abandonos. Mistura-se à sombra um elemento eqüestre. O ar faz um rumor de floresta. Não se vê nada, mas ouve-se um ruído de cavalos. É meio-dia, de súbito anoitece; passa um tornado; é meia-noite, de repente esclarece, acende-se o eflúvio polar. Alternam em sentido inverso os turbilhões, espécie de dança hedionda, tripúdio dos flagelos sobre o elemento. Quebra-se pelo meio uma pesada nuvem, e os pedaços vão precipitar-se no mar. Outras nuvens, purpureadas, iluminam e roncam, depois escurecem lugubremente; a nuvem, esvaziada de raio, é carvão apagado. Sacos de chuva rompem-se em bruma. Fornalha em que chove, onda que vomita luz. As nuvens do mar debaixo do aguaceiro iluminam surpreendentes quadros; desfiguram-se espessuras onde se reproduzern as semelhanças. Monstruoso umbigo vai rompendo as nuvens. Volteiam os vapores, saracoteiam as vagas; rolam embriagadas as náiades; a perder de vista, o mar maciço e mole move-se sempre sem jamais deslocar-se; tudo é lívido; desesperados gritos sobem desse palor.

No fundo da obscuridade inacessível tremem grandes germes de sombra. De quando em quando há paroxismo. O rumor torna-se tumulto, do mesmo modo que a vaga se torna marulho. O horizonte, superposição confusa de vagas, oscilação sem fim, murmura continuamente; ali arrebentam estranhamente uns arremessos de fracasso; parece-se ouvir as hidras espirrando; sopram hálitos frios, seguem-se hálitos quentes. A trepidação do mar anuncia um medo que tudo espera. Inquietação. Angústia. Terror profundo das águas. Subitamente, o furacão, como uma besta, desce a beber no oceano; sorvo inaudito, a água sobe para a boca invisível, forma-se uma ventosa, incha o tumor; é a tromba, o Prester dos antigos, estalactite em cima, estalagmite embaixo, duplo cone inverso girante, uma ponta equilibrada em cima de outra, beijo de duas montanhas, uma montanha de espuma que se levanta, uma montanha de nuvem que desce; coito medonho da vaga e da sombra. A tromba, como a coluna da Bíblia, é tenebrosa de dia e luminosa de noite. Diante da tromba cala-se o trovão. Parece que tem medo.

Há uma escala, na vasta turvação das solidões; temível crescendo; a brisa, a lufada, a borrasca, o temporal, a tormenta, a tempestade, a tromba; as sete cordas da lira do vento, as sete notas do abismo. O céu é uma largura, o mar é um arredondado; passa um vento, já não há nada disso, tudo é fúria e confusão.

Tais são aqueles severos sítios.

Os ventos correm, voam, abatem-se, expiram, revivem, pairam, asso-viam, rugem, riem: frenéticos, lascivos, desvairados, tomam conta da vaga irascível. Têm harmonia esses berradores. Tornam sonoro todo o céu. Sopram nas nuvens como num metal; embocam o espaço, e cantam no infinito, com todas as vozes amalgamadas dos clarins, buzinas e trombetas, uma espécie de tangeres prometeanos. Quem os ouve, ouve Pã. O que mais assusta é vê-los assim. Têm uma colossal alegria composta de sombra. Fazem nas solidões a batida dos navios. Sem tréguas, noite e dia, em todas as estações, no trópico, como no pólo, tocando a trombeta delirante, vão eles, por meio do travamento da nuvem e da vaga, fazendo a grande caça negra dos naufrágios. São os donos das matilhas. Divertem-se. Fazem ladrar as ondas, que são os seus cães, contra as rochas. Combinam e desunem as nuvens. Amassam, como se tivessem milhões de mãos, a flexibilidade da água imensa.

A água é flexível porque é incompressível. Resvala debaixo do esforço. Apertada por um lado, escapa por outro. É assim que a água se faz onda. A vaga é a sua liberdade.

CAPÍTULO III

EXPLICAÇÃO DO RUMOR OUVIDO POR GILLIATT

A grande aproximação dos ventos para a terra faz-se nos equinócios. Nessas épocas o grande balanço do trópico e do pólo e a colossal maré atmosférica derramam o seu fluxo em um hemisfério, e o refluxo em outro. Há constelações que significam esses fenômenos. Libra e Aquário. É a hora das tempestades.

O mar espera silencioso.

Às vezes o céu tem feio aspecto. Fica baço, e como que coberto por um grande pano obscuro; os marinheiros contemplam ansiosos o ar oprimido de sombra.

Mas o que eles temem é o ar alegre. Céu risonho no equinócio é a tempestade com pés de lã. Com céus desses, a Torre das Carpideiras de Amsterdão enchia-se de mulheres que examinavam o horizonte.

Quando se demora a tempestade invernal ou outonal é que está ajuntando uma massa ainda maior. Entesoura para destruir. Desconfia da acumulação de juros. Ango dizia: “O mar é bom pagador”.

Quando a demora é demasiado longa, o mar trai a sua impaciência pela calma. Somente a tensão magnética se manifesta naquilo que se pode chamar a inflamação da água. Rompem clarões da vaga. Ar elétrico, água fosfórica. Os marinheiros sentem-se estafados. É uma hora especialmente perigosa para os encouraçados; o casco de ferro pode produzir falsas indicações da bússola e perdê-los. Assim pereceu o paquete transatlântico Yowa.

Para os que estão familiarizados com o mar, o seu aspecto nesses momentos é estranho; dissera-se que o mar deseja e receia o ciclone. Certos himeneus, aliás impostos pela natureza, são acolhidos assim. A leoa desejosa foge diante do leão. Também a água tem o seu calor, e daí lhe vem o estremecimento.

Vai realizar-se o imenso consórcio.

Este consórcio, como as núpcias dos antigos imperadores, celebra-se com exterminações. É uma festa temperada de desastres.

Atenção, aí vem o fato equinocial.

Conspira a tempestade. A velha mitologia entrevia essas personalidades indistintas misturadas à grande natureza difusa. Éolo harmoniza-se com Bóreas. O acordo do elemento com o elemento é necessário. Distribuem entre si a tarefa. Há impulsões para a vaga, para a nuvem, para o eflúvio; a noite é um auxiliar; deve ser empregada. Há bússolas para desviar, faróis para apagar, estrelas para esconder. É preciso que o mar coopere. Todas as tempestades são precedidas de um murmúrio. Por trás do horizonte há o cochicho prévio dos furacões.

É o que se ouve, na obscuridade, ao longe, por cima do silêncio assustado do mar.

Gilliatt ouviu esse cochichar tremendo. A fosforescência foi a primeira advertência; o rumor foi a segunda.

Se existe o demônio Legião, esse demônio é o Vento, com certeza.

O vento é múltiplo, mas o mar é um.

Daí esta conseqüência: toda tempestade é mista. A unidade de ar o exige.

Abismo implica tempestade. O oceano inteiro está numa borrasca. A totalidade das suas forças entra em linha e toma parte nela. Uma vaga é o golfão de baixo; um tufão é o golfão de cima. Lutar com uma tempestade é lutar com o mar inteiro e o céu inteiro.

Messier, o homem da marinha, o astrônomo pensativo da choça de Cluny, dizia: “O vento de toda a parte está em todas as partes”. Ele não acreditava nos ventos presos, mesmo nos mares fechados. Para ele não havia ventos mediterrâneos. Dizia que os conhecia na passagem. Afirmava que em tal dia, a tal hora, o Fohn do lago de Constança, o antigo Favônio de Lucrécio, atravessara no horizonte de Paris; em outro dia era o Bora do Adriático; em outro era o Noto giratório que se pretende estar encerrado nas Cícladas. Especificava os eflúvios. Não pensava que

o vento que gira entre Malta e Túnis e o vento que gira entre a Córsega e as Baleares estivessem na impossibilidade de se libertarem. Não admitia os ventos, como ursos, fechados em jaula. Dizia: “Todas as chuvas vêm do trópico, e todos os raios do pólo”. O vento, com efeito, satura-se de eletricidade na intercessão dos coluros, que marca as extremidades do eixo, e da água no equador; traz-nos da linha o líquido e dos pólos o fluido.

Ubiqüidade é o vento.

Não quer isto dizer que não existam as zonas dos ventos. Nada mais demonstrado que as correntes contínuas, e dia virá em que a navegação aérea, servida pelos navios do ar (air-navires) que chamamos, por mania de grego, aeróscafos, utilizará as linhas principais. A canalização do ar pelo vento é incontestável: há rios de vento, ribeiros de vento, riachos de vento; somente ao invés das ramificações da água, são os riachos que saem dos ribeiros, e os ribeiros que saem dos rios, em vez de serem afluentes: em vez de concentração, dispersão.

Essa disposição é que faz a solidariedade dos ventos e a unidade da atmosfera. Uma molécula deslocada desloca outra molécula. Os ventos agitam todos juntos. A estas profundas causas do amálgama, acrescentai o relevo do globo, rasgando a atmosfera com todas as suas montanhas, fazendo nós e torções nas carreiras do vento e determinando em todos os sentidos as contracorrentes. Irradiação ilimitada.

O fenômeno do vento é a oscilação de dois oceanos um sobre outro; o oceano do ar, sobreposto ao oceano de água, apóia-se nessa fuga e vacila nessa vacilação.

O indivisível não usa compartimentos. Não há tabique entre uma onda e outra. As ilhas da Mancha sentem o empurrão do cabo da Boa Esperança. A navegação universal faz frente a um monstro único. Todo o mar é uma só hidra. As vagas cobrem o mar de uma espécie de escama. Oceano é Ceto.

Nessa unidade abate-se o inumerável.

CAPÍTULO IV

“TURBA, TURMA”

Para a bússola há 32 ventos, isto é, 32 direções; mas essas direções podem subdividir-se indefinidamente. O vento, classificado por direções, é o incalculável; classificado por espécie, é o infinito.

Homero recuaria ante esse recenseamento.

A corrente polar roça na corrente tropical. Eis o frio e o calor combinados, o equilíbrio começa pelo choque, sai a onda dos ventos, inchada, esparsa e toda dilacerada em jorros medonhos. A dispersão dos tufões sacode nos quatro cantos do horizonte o prodigioso esgadelhado do ar.

Aí estão todos os rumos; o vento da Gulf Stream, que despeja tanta névoa na Terra Nova; o vento do Peru, região de céu mudo onde jamais se ouviram trovoadas; o vento da Nova Escócia, onde voa o grande Auk, Alca impennis, de bico riscado; os turbilhões de Ferro dos mares da China; o vento de Moçambique que maltrata os juncos; o vento elétrico do Japão denunciado pelo gongo; o vento da África que habita entre a montanha da Mesa e a montanha do Diabo, e que se desencadeia daí; o vento do equador que passa por cima dos ventos regulares, e traça uma parábola cujo cimo fica a oeste; o vento plutônico que sai das crateras e que é o temível sopro das chamas; o estranho vento próprio do vulcão Awu que faz sempre surgir do norte uma nuvem azeitonada; a monção de Java, contra a qual estão construídas aquelas casamatas chamadas casas do furacão; a brisa ramificada que os ingleses chamam busk, bebida; os grãos arqueados do estreito de Malaca observados por Horsburgh; o possante vento de sudoeste, chamado Pampeiro no Chile, e Rebojo em Buenos Aires, que carrega o condor em pleno mar e o salva da cova onde o esperava, debaixo de uma pele de boi arrancada de fresco, o selvagem deitado de costas e retesando o arco com os pés; o vento químico que, segundo Lemery, faz nas nuvens pedras de trovoadas; o Harmattan dos cafres; o sopra-nevespolar, que se prende aos eternos gelos e os arrasta; o vento do golfo de Bengala, que vai até Nijnii-Novogorod devastar o triângulo das barracas de pau onde se faz a feira da Ásia; o vento das cordilheiras, agitador das grandes vagas e das grandes florestas; o vento dos arquipélagos da Austrália onde os caçadores de mel arrancam as colméias silvestres escondidas nos galhos do eucalipto gigante; o siroco; o mistral; o hurricane; o vento de seca; os ventos de inundação; os diluvianos; os tórridos; os que lançam nas ruas de Gênova a poeira das planícies do Brasil; os que obedecem à rotação diurna; os que a contrariam e fazem dizer a Herrera: “Malo viento torna contra el sol”; os que vão aos pares, para destruir, desfazendo um o que o outro faz; e aqueles ventos antigos que assaltaram Colombo na costa de Veraguas; e os que durante quarenta dias, desde 21 de outubro a 28 de novembro de 1520, puseram em questão Magalhães abordando o Pacífico, e os que desfizeram a Armada, e sopraram sobre Filipe II.

Outros ventos mais, e como achar-lhes o fim? Os ventos carregadores de sapos e gafanhotos que sopram nuvens e bichos por cima do oceano; os que operam o que se chama salto de vento, e que têm por tarefa acabar com os náufragos; os que, com um sopro único, deslocam a carga do navio e o obrigam a continuar viagem todo inclinado; os ventos que constroem os circum-cúmulos; os ventos que constroem os circum-estratos; pesados ventos cegos, túmidos de chuva; os ventos do granizo; os ventos da febre; os ventos cuja aproximação faz ferver os salsos e os solfatários da Calábria; os ventos que fazem brilhar o pêlo das panteras da África andando nos espinheiros do cabo de Ferro; os que vêm sacudindo fora da sua nuvem, como uma língua trigonocéfala, o temível relâmpago de forquilha; os que trazem neves negras. Tal é o exército.

O escolho Douvres, no momento em que Gilliatt construía o quebra-mar, ouvia-lhes o galope longínquo.

Já o dissemos, o Vento compõe-se de todos os ventos. Acercava-se toda aquela horda.

De um lado, essa legião.

Do outro, Gilliatt.

CAPÍTULO V

GILLIATT PODE ESCOLHER

As misteriosas forças escolheram bem o momento.

O acaso, se é que existe, é hábil.

Enquanto a pança esteve guardada na angra do Homem, enquanto a máquina esteve metida no casco da Durande, Gilliatt foi inexpugnável. A pança estava em segurança, a máquina estava abrigada; as Douvres, que sustentavam a máquina, condenavam-na a uma destruição lenta, mas protegiam-na contra uma surpresa. Em todos os casos, ficava a Gilliatt um recurso. A máquina destruída não destruía a Gilliatt. Tinha a pança para salvar-se.

Mas esperar que a pança estivesse fora do ancoradouro, onde era inacessível, deixá-la por entre as Douvres, esperar que ela lá estivesse presa também pelo escolho, consentir que Gilliatt operasse o salvamento e o transporte da máquina, não impedir esse maravilhoso trabalho, consentir nesse triunfo, esse era o laço. Via-se agora, como uma espécie de lineamento sinistro, a sombria astúcia do abismo.

Agora, a máquina, a pança, Gilliatt, estavam todos reunidos na viela dos rochedos. Eram apenas um. A pança esmigalhada no escolho, a máquina metida a pique, Gilliatt, afogado, era negócio de um esforço único num só ponto. Tudo podia ser desfeito de uma vez, ao mesmo tempo, e sem dispersão; tudo podia ser destruído de um lance.

Não há situação mais crítica do que a de Gilliatt.

A esfinge possível, que os sonhadores suspeitam estar no fundo da sombra, parecia propor-lhe este dilema.

Fica ou parte.

Partir era insensato, ficar era medonho.

CAPÍTULO VI

O COMBATE

Gilliatt trepou à grande Douvre.

Daí via todo o mar.

Era surpreendente o oeste. Saía dele uma muralha. Muralha de nuvem, tapando a extensão, subia lentamente do horizonte para o zênite. Essa muralha retilínea, vertical, sem um rombo no alto, sem um rasgão na orla, parecia feita a esquadro, e esticada a corda. Era a nuvem semelhante a granito. O declive dessa nuvem, completamente perpendicular na extremidade sul, dobrava-se um pouco para o norte, como dobra uma folha, e oferecia o vago aspecto de um plano inclinado. Alargava e crescia sem que a cimalha deixasse um instante de ser paralela à linha do horizonte, quase indistinta na obscuridade que se ia fazendo. Essa muralha do ar subia de uma só peça e silenciosamente. Nenhuma ondulação, nenhuma dobra, nenhuma saliência. Era lúgubre aquela imobilidade em movimento. O sol, lívido por trás de uma certa transparência mórbida, alumiava aquele lineamento de apocalipse. A nuvem invadia já quase metade do espaço. Dissera-se o medonho talude do abismo. Era um como que levantar de montanha de sombra entre a terra e o céu.

Era, em pleno dia, a ascensão da noite.

Havia no ar um calor de fogão. Uma lixívia de estufa saía daquele amontoado misterioso. O céu, que de azul tornara-se branco, de branco tornou-se cinzento. Dissera-se uma grande ardósia. Embaixo o mar escuro e de chumbo era outra ardósia enorme. Nem um sopro, nem um rumor. Ao longe o mar deserto. Nenhuma vela. Os pássaros tinham-se escondido. Sentia-se a traição do infinito.

O crescimento de toda aquela sombra amplificava-se insensivelmente.

A montanha movediça de vapores que se dirigia para as Douvres era uma dessas nuvens que se podem chamar nuvens de combate. Nuvens vesgas. Através daqueles amontoados escuros, estranho estrabismo fita o homem.

Temível era a aproximação.

Gilliatt examinou firmemente a nuvem e murmurou entre dentes: “Tenho sede, vais dar-me água”.

Ficou alguns momentos imóvel com os olhos fitos na nuvem. Parecia medir a tempestade.

Tinha o barrete no bolso, tirou-o e pô-lo na cabeça. Tirou do buraco onde por tanto tempo dormira o fato de reserva, e vestiu tudo, grevas e capotão, como um cavalheiro veste a armadura para entrar em combate. Sabem que perdera os sapatos, mas os pés descalços tinham-se endurecido nos rochedos.

Preparado o vestuário de guerra, contemplou ele o quebra-mar, empunhou vivamente a corda de nós, desceu da plataforma das Douvres, tomou pé nas rochas de baixo, e correu ao depósito. Instantes depois trabalhava. A vasta nuvem muda pôde ouvir-lhe os sons do martelo. Que fazia Gilliatt? Com o resto dos pregos, cordas e vigas, construía na abertura de leste uma segunda porta de 10 a 12 pés por trás da primeira.

Profundo era o silêncio. Os talos de erva nas fendas do escolho nem mesmo tremiam.

Subitamente, o sol desapareceu. Gilliatt levantou a cabeça.

A nuvem ascendente acabava de atingir o sol. Foi como que uma extinção da luz substituída por uma reverberação mesclada e pálida.

A muralha de nuvens mudara de aspecto. Já não tinha unidade. Encrespara-se horizontalmente tocando o zênite, pendendo em todo o resto do céu. Tinha agora divisões. A formação da tempestade desenhava-se como uma seção dividida. Distinguiam-se as camadas da chuva e os jazigos do granizo. Não havia relâmpago mas um horrível clarão espesso; porque a idéia do horror pode ligar-se à idéia da luz. Ouvia-se o vago respirar da tempestade. Aquele silêncio palpitava obscuramente. Gilliatt, também silencioso, via agruparem-se por cima dele todos aqueles montões de bruma e compor-se a deformidade das nuvens. No horizonte pesava e estendia-se uma faixa de nevoeiro cor de cinza, e no zênite uma faixa cor de chumbo; lívidos farrapos pendiam das nuvens de cima sobre os nevoeiros de baixo. O fundo, que era a parede de nuvens, estava baço, leitoso, térreo, lívido, indescritível. Uma delgada e alvacenta nuvem transversal, vinda não se sabe donde, cortava obliquamente, de norte a sul, a alta muralha sombria. Uma das extremidades dessa nuvem arrastava no mar. No ponto em que tocava na compressão das nuvens, via-se na obscuridade um abafamento de vapor vermelho. Por baixo da longa nuvem pálida, pequenas nuvens, mui baixas e pretas, voavam em sentido inverso umas das outras, como se não soubessem para onde iriam. A possante nuvem do fundo crescia de todas as partes a um tempo, aumentava o eclipse, e continuava a sua interposição lúgubre. A leste, por trás de Gilliatt, havia apenas um portal de céu claro que ia ser fechado. Sem a menor impressão de vento, passou uma estranha difusão de penugem cinzenta, esparsa em migalhas, como se algum pássaro gigantesco acabasse de ser depenado por trás daquele muro de tênebras. Formou-se um teto de negrume compacto que, no extremo horizonte, tocava no mar e misturava-se na noite. Sentia-se alguma coisa que se avançava. Era vasta e pesada e medonha. A obscuridade tornava-se mais espessa. De súbito, roncou imenso trovão.

Gilliatt sentiu o abalo. Há sonho no trovão. Essa realidade brutal na região visionária tem alguma coisa de terrífico. Acredita-se ouvir a queda de um móvel no aposento dos gigantes.

Nenhum flamejar elétrico acompanhara o som. Foi um trovão negro. Voltou o silêncio. Houve uma espécie de intervalo como quando se toma posição. Depois um após outro, e lentamente, romperam-se informes relâmpagos. Eram todos mudos. Nem um rugido. Cada relâmpago iluminava. A muralha de nuvens era agora um antro. Havia nela abóbadas e arcarias. Viam-se traços. Esboçavam-se monstruosas cabeças; distendiam-se pescoços; entreviam-se e desapareciam elefantes carregados de torres. Uma coluna de bruma, reta, redonda, negra, com uma fumaça branca em cima, simulava o cimo de um vapor colossal, engolido, bufando debaixo da vaga fumegante. Ondulavam toalhas de nuvem. Acreditava-se ver dobras de bandeiras. No centro, debaixo de vermelhas espessuras, mergulhava-se, imóvel, um caroço de nevoeiro denso, inerte, impenetrável às faíscas elétricas, espécie de feto hediondo no ventre da tempestade.

Gilliatt sentiu subitamente que um vento lhe agitou os cabelos. Três ou quatro largas aranhas de chuva despedaçaram-se em roda dele na rocha. Depois houve um segundo trovão. Começou o vento.

A espera da sombra chegara ao cúmulo; o primeiro trovão agitara o mar, o segundo rachou a muralha de nuvens de alto a baixo, abriu-se uma fenda, toda a bátega suspensa jorrou por esse lado, o buraco tornou-se uma boca aberta cheia de chuva, e o vômito da tempestade começou. Tremendo foi o instante.

Aguaceiro, furacão, relâmpagos, raios, vagas até às nuvens, espuma, detonações, torções frenéticas, gritos, roncos, assovios, tudo a um tempo. Desencadear de monstros.

O vento fulminava. A chuva não caía, desabava.

Para um pobre homem, metido, como Gilliatt, com um barco carregado, num intervalo de dois rochedos, em pleno mar, não há crise mais ameaçadora. O perigo da maré de que Gilliatt triunfara nada era ao pé do perigo da tempestade.

Eis a situação: Gilliatt, em volta de quem tudo era precipício, descobriu no último momento, e diante do risco supremo, uma estratégia engenhosa. Fez ponto de apoio no próprio inimigo; associou-se ao escolho; o rochedo Douvres, outrora seu adversário, era agora o seu padrinho naquele imenso duelo. Gilliatt tinha-o debaixo de si. Fez daquele sepulcro uma fortaleza. Assestou-se naquele pardieiro formidável do mar. Estava bloqueado, mas entrincheirado. Estava, por assim dizer, agregado ao escolho, face a face com o furacão. Pôr barricadas ao estreito, essa rua das vagas. Era a única coisa que podia fazer. Parece que o oceano, que é um déspota, pode ser também vencido pelas barricadas. A pança podia ser considerada segura por três lados. Estreitamente apertada, entre as duas fachadas internas do escolho, triplicemente ancorada, estava abrigada ao norte pela pequena Douvre, ao sul pela grande, penedos selvagens, mais afeitos a produzir naufrágios que a impedi-los. A oeste era protegida pelo tapamento de barrotes atados e pregados aos rochedos, tapamento já provado que vencera o rude fluxo do alto-mar, verdadeira porta de cidadela tendo por ombreiras as próprias colunas do escolho, as duas Douvres. Nada havia que recear por esse lado. O perigo estava a leste.

A leste havia apenas o quebra-mar. Um quebra-mar é um aparelho de pulverização. Precisa ao menos duas lumeeiras. Gilliatt teve apenas tempo de fazer uma. Construía a segunda mesmo com a tempestade.

Felizmente o vento chegava de nordeste. O mar tem descaídas. Aquele vento, que era o galerno antigo, tinha pouco efeito nas Douvres. Assaltava o escolho de través, e não impelia a onda nem sobre uma e nem sobre outra das aberturas da garganta, de modo que em vez de entrar em uma rua esbarrava-se numa muralha. A tempestade atacava mal.

Mas os ataques do vento são curvos, e devia esperar-se alguma viravolta súbita. Se essa viravolta se fizesse a leste, antes que a segunda clarabóia do quebra-mar estivesse construída, o perigo seria grande. A invasão da viela de rochedos pela tempestade realizava-se e tudo estava perdido.

Crescia a vertigem da tempestade. A tempestade é golpe sobre golpe. Essa é a sua força, esse é o seu defeito. A força de ser uma raiva dá lugar à inteligência, e

o homem defende-se; mas debaixo de que destruição! Nada mais monstruoso que isso. Nenhuma dilação, nenhuma interrupção, nenhuma trégua, nenhum descanso para tomar alento. Há um não sei quê de covardia nessa prodigalidade do inesgotável.

Toda a imensidade tumultuosa atirava-se sobre o escolho Douvres. Ouviam-se vozes sem número. Quem gritava assim? Estava ali o antigo terror pânico. De quando em quando, parecia que era alguém que falava, como se fizesse um comando. Depois clamores, clarins, estranhas tremuras, e aquele grande e majestoso urro que os marinheiros dizem ser a chamada do oceano.

As espirais indefinidas e fugazes do vento assoviavam torcendo a onda; as vagas, tornadas discos debaixo daqueles torneamentos, eram atiradas contra os parcéis como chapas gigantescas por atletas invisíveis.

A enorme escuma eriçava todas as rochas. Torrentes em cima, saliva embaixo. Depois redobravam os mugidos. Nenhum rumor humano ou bestial poderia dar idéia dos fracassos misturados àquelas deslocações do mar. A nuvem canhoneava, a saraiva metralhava, o marulho escalava. Certos pontos pareciam imóveis, em outros o vento fazia 20 toesas por segundo. O mar ao longe estava todo branco; 10 léguas de água de sabão enchiam o horizonte. Abriam-se portas de fogo. Algumas nuvens pareciam queimadas por outras, e sobre montões de nuvens vermelhas, semelhantes às brasas, assemelhavam-se essas ao fumo.

Configurações flutuantes esbarravam-se e amalgamavam-se, desfazendo-se umas por outras. Escorria uma água incomensurável, ouviam-se fogos de pelotão no firmamento. Havia no meio do teto de sombra uma espécie de vasta alcofa virada, donde caíam em confusão a tromba, a chuva, as nuvens, as cores rubras, os relâmpagos, a noite, a luz, os raios, tão formidáveis são essas inclinações do golfão!

Gilliatt parecia não atender a nada. Tinha a cabeça inclinada no trabalho. A segunda clarabóia começava a levantar-se. A cada trovão respondia ele com uma martelada. Ouvia-se essa cadência naquele caos. Estava com a cabeça descoberta. Uma lufada levou-lhe o chapéu.

Tinha uma sede ardente. Provavelmente estava com febre. Lagoinhas de chuva tinham-se formado à roda dele nas covas dos rochedos. De quando em quando tirava água com a palma da mão e bebia. Depois, sem examinar em que ia a tempestade, continuava a obra.

Tudo podia depender de um instante. Sabia o que o esperava se não terminasse a tempo o quebra-mar. Por que motivo perder um minuto para ver aproximar-se a face da morte?

A desordem em torno dele era como uma caldeira fervendo. Havia fracasso e motim. Às vezes o raio parecia descer uma escada. As percussões elétricas voltavam constantemente aos mesmos pontos do rochedo. Havia pedras de chuva da grossura de uma mão fechada. Gilliatt era obrigado a sacudir as dobras da japona. Até as algibeiras tinham pedras.

O temporal estava já no oeste, e batia o tapamento das duas Douvres; mas Gilliatt tinha confiança nesse tapamento, e com razão. Esse tapamento, feito do grande pedaço da proa da Durande, recebia sem dureza o choque da onda; a elasticidade é uma resistência; os cálculos de Stevenson estabelecem que, contra a vaga, por si própria elástica, uma reunião de paus, com a dimensão desejada, ligada e amarrada de certo modo, faz melhor obstáculo que um break water de madeira. O tapamento das Douvres preenchia essas condições; era, além disso, tão engenhosamente atado que a onda, batendo em cima, fazia como um martelo que mete o prego, apoiava-o ao rochedo e consolidava-o; para demoli-lo, era preciso derrubar as Douvres. A lufada apenas conseguiu atirar à pança, por cima do obstáculo, alguns jorros de espuma. Por esse lado, graças ao tapamento, a tempestade tornava-se cuspo. Gilliatt voltava as costas a esse esforço. Sentia tranqüilamente atrás de si essa raiva inútil.

Os flocos de espuma, saindo de todos os lados, assemelhavam-se a lã. A água, vasta e irritada, afogava os rochedos, trepava por eles, entrava dentro, penetrava na rede de fendas internas, e saía das massas graníticas por fendas estreitas, espécies de bocas inesgotáveis que faziam naquele dilúvio pequenas fontes plácidas. Filetes de água caíam graciosamente daqueles buracos no mar.

A clarabóia de reforço do tapamento de leste estava quase concluída. Mais umas voltas de cordas e correntes e aproximava-se o momento de também lutar esse tapamento.

De súbito, fez-se um grande clarão, a chuva cessou, as nuvens separaram-se, era

o vento que mudava, uma espécie de janela grande crepuscular abriu-se no zênite, e apagaram-se os relâmpagos; pareceu que estava acabado. Era o começo.

O vento mudou de sudoeste para nordeste.

A tempestade ia recomeçar com uma nova matilha de furacões. Vinha do norte, violento assalto. Os marinheiros chamam a isso o vento de esboroar. O vento do sul tem mais água, o vento do norte tem mais raios.

Vindo do nordeste, a agressão ia dirigir-se ao ponto fraco.

Desta vez Gilliatt parou o trabalho e olhou. Colocou-se de pé sobre uma saliência de rochedo inclinado por trás da segunda clarabóia quase terminada. Se a primeira chapa do quebra-mar fosse afundada, desabaria a segunda, ainda não consolidada, e debaixo dessa demolição esmagaria Gilliatt. Gilliatt, no lugar que escolhera, seria achatado antes de ver a pança e a máquina e toda a sua obra abismar-se no golfão. Tal era a eventualidade. Gilliatt aceitou-a, e, terrível, ele a queria.

Nesse naufrágio de todas as suas esperanças, morrer primeiro convinha-lhe a ele; morrer primeiro, porque a máquina fazia-lhe o efeito de uma pessoa. Levantou com a mão esquerda os cabelos colados nos olhos pela chuva, apertou o martelo, inclinou-se para trás ameaçante, e esperou.

Não esperou muito.

Um ribombo deu o sinal, fechou-se a abertura pálida do zênite, precipitou-se uma rajada de chuva, tudo tornou-se escuro, e não houve outro facho mais que o relâmpago. Começava o sombrio ataque.

Possante vagalhão, visível entre os relâmpagos, levantou-se a leste além do rochedo Homem. Parecia um grande rolo de vidro. Era verde e sem escuma nem ondas. Inchava aproximando-se; era um largo cilindro de trevas rolando no oceano. A trovoada roncava surdamente.

Esse vagalhão chegou ao rochedo Homem, partiu-se em dois e continuou. Os dois pedaços juntos tornaram a ligar-se, e fizeram uma grande montanha de água, e, de paralela que estava ao quebra-mar, tornou-se perpendicular. Era uma vaga com a forma de uma viga.

Atirou-se ao quebra-mar aquele aríete. Rugiu o choque. Tudo desapareceu em espuma.

Não se pode imaginar o que são essas avalanchas de neve que o mar ajunta, e debaixo das quais engole rochedos de mais de 100 pés de altura, tais, por exemplo, como o grande Anderlo, em Guernesey, e o Pináculo, em Jersey. Em Santa Maria de Madagáscar, saltam por cima da ponta de Tintingue.

Durante alguns instantes o rolo de mar tapou tudo. Só ficou visível um montão furioso, uma escuma imersa, a alvura de um sudário flutuando no vento do sepulero, uma mistura de ruído e de tempestade debaixo da qual trabalhava o extermínio.

Dissipou-se a escuma. Gilliatt estava de pé.

O tapamento resistira. Nem uma corrente arrebentou, nem um prego saiu. O tapamento mostrou à prova as duas qualidades do quebra-mar; foi flexível como um caniço e sólido como uma parede. O vagalhão dissolveu-se em chuva.

A espuma escorrendo ao longo dos ziguezagues do estreito foi morrer debaixo da pança.

O homem que fizera aquele açaimo ao oceano não repousou.

A tempestade divagou felizmente durante algum tempo. O encarniçamento das vagas voltou-se para as partes muradas do escolho. Foi uma trégua. Gilliatt aproveitou-a para completar a clarabóia de trás.

O dia expirou nesse trabalho. A tormenta continuava as suas violências no flanco do escolho com uma solenidade lúgubre. A urna de água e a urna de fogo que existe nas nuvens esvaziavam-se sem esgotar nunca. As ondulações altas e baixas do vento pareciam movimentos de um dragão.

Quando a noite chegou, já havia noite; não se pôde reparar nela.

Mas não era obscuridade completa. As tempestades iluminadas e cegas pelo relâmpago têm intermitências de visível e invisível. Tudo está claro, depois tudo fica escuro. Assiste-se à saída das visões e à entrada das trevas.

Uma zona de fósforo, cor da aurora boreal, flutuava como um farrapo de flama espectral por trás das espessuras de nuvens. Resultava uma vasta palidez. As chapas de chuva eram luminosas.

E esses clarões ajudavam Gilliatt e o dirigiam. Ele voltou-se para o relâmpago e disse: “Segura-me a vela!”

Com o auxílio dessa claridade pôde ele levantar a clarabóia de trás, ainda mais acima da da frente. O quebra-mar estava quase completo. Quando Gilliatt amarrava ao ponto culminante um cabo de reforço, o vento soprou-lhe na cara em cheio. Isto fez-lhe levantar a cabeça. O vento voltara bruscamente para nordeste. O assalto da abertura de leste recomeçava. Gilliatt olhou para o mar. O quebra-mar ia ser atacado outra vez. Vinha um novo vagalhão.

Esse foi rudemente vibrado; depois veio outro, mais outro, mais outro, cinco ou seis em tumulto, quase juntos; finalmente um último e tremendo.

Este, que era um como que total de forças, tinha a figura de uma coisa viva. Não era difícil imaginar, naquela intumescência e naquela transparência, inauditos aspectos com escamas. Achatou-se e partiu-se no quebra-mar. A sua forma quase animada dilacerou-se num esguicho. Naquele montão de rochedos e tábuas, foi uma espécie de esmagamento de hidra. A onda morrendo devastava. Profundo tremor agitou o escolho. Misturava-se a isso um grunhir de animal. A espuma assemelhava-se à saliva de um leviatã.

A espuma que caía deixava ver uma devastação. O vagalhão fez obra. Dessa vez o quebra-mar sofreu um pouco. Uma longa e pesada viga, arrancada da clarabóia da frente, foi lançada por cima do tapamento de trás, sobre a rocha inclinada, escolhida por Gilliatt para o lugar do combate. Felizmente desta vez não estava ele aí. Ficaria morto.

Houve na queda da viga uma singularidade que, impedindo qualquer movimento da prancha, salvou Gilliatt de qualquer sobressalto perigoso. Foi ainda útil por outro modo, como se vai ver.

Entre a saliência da rocha e o declive interno da garganta, havia um intervalo, um grande hiato semelhante ao encaixe de um machado ou à alvéola de um canto. Uma das extremidades da prancha, atirada ao ar pela vaga, caiu no meio dessa abertura. A abertura alargou-se.

Gilliatt teve uma idéia.

Pesar na outra extremidade.

A prancha, presa por uma ponta na fenda do rochedo que alargara, saía daí como um braço estendido. Essa espécie de braço alargava-se, paralelamente à faixa interna da garganta, e a extremidade livre da prancha afastava-se desse ponto de apoio cerca de 18 ou 20 polegadas. Boa distância para fazer o esforço.

Gilliatt estreitou com os pés, os joelhos e os braços o rochedo e meteu ombros à enorme viga. A viga era comprida, o que aumentava a força do peso. A rocha já estava abalada. Contudo, Gilliatt teve de tentar a coisa quatro vezes. Caía-lhe dos cabelos mais suor do que chuva. O quarto esforço foi frenético. Houve um estalo na rocha, a abertura abriu-se como uma boca e a pesada massa caiu no estreito intervalo com um ruído terrível, réplica aos trovões.

Caiu direita, se esta expressão é possível, isto é, sem quebrar-se.

Imaginai um menir precipitado todo inteiro.

A viga acompanhou o rochedo, e Gilliatt, cedendo ao mesmo tempo, escapou de cair também.

O fundo estava muito atravancado, e tinha pouca água. O monólito, numa agitação de espuma, que foi respingar em Gilliatt, deitou-se entre as duas grandes rochas paralelas da garganta e fez uma parede transversal, espécie de linha de união dos dois rochedos. Tocavam as duas pontas; era um pouco mais longo, e o cume, que era de rocha macia, ficou esmigalhado. Resultou dessa queda uma espécie de beco sem saída que ainda hoje pode ser visto. A água, por detrás dessa barra de pedra, é quase sempre tranqüila.

Era um baluarte aquele ainda mais invencível que a amurada da Durande ajustada entre as duas Douvres.

Esse tapamento interveio a propósito.

Os vagalhões tinham continuado. A vaga teima sempre contra o obstáculo. A primeira clarabóia começava a desarticular-se. Uma malha de quebra-mar desfeita é uma grande avaria. É inevitável o alargamento do buraco, e nenhum meio pode remediar logo. A vaga carregaria o trabalhador.

Uma descarga elétrica, que iluminou o escolho, descobriu a Gilliatt o estrago que se fazia no quebra-mar, as vigas soltas, as cordas e correntes começando a flutuar ao vento, um rasgão no centro do aparelho. A segunda clarabóia estava intata.

O penedo, tão poderosamente lançado por Gilliatt no intervalo das rochas, por trás do quebra-mar, era a mais sólida barreira, mas tinha um defeito: era demasiado baixo. As vagas não podiam rompê-lo, mas podiam galgá-lo.

Era impossível fazê-lo crescer. Só massas da rocha podiam ser utilmente sobrepostas àquele tapamento de pedra; mas como arrancar essas massas, como arrastá-las, como levantá-las, como colocá-las, como fixá-las? Pregam-se tábuas, não se pregam rochedos.

Gilliatt não era Encélado.

A pouca elevação daquele pequeno istmo de granito preocupava Gilliatt.

Breve fez-se sentir o defeito. Os ventos já não deixavam o quebra-mar; já se não encarniçavam, parecia que se aplicavam. Ouvia-se naquela construção abalada uma espécie de escoiceamento regular.

De repente, um pedaço de peça de viga, destacado da deslocação, pulou por cima da segunda clarabóia, voou por cima da rocha transversal, e foi cair na garganta do rochedo, onde a água a levou pelas sinuosidades da viela. É provável que fosse esbarrar na pança. Felizmente, no interior do escolho, a água, fechada por todos os lados, mal se ressentia da agitação exterior. Havia pouco marulho, e o choque não devia ser forte. Gilliatt nem teve tempo de ocupar-se com essa avaria, se avaria houve; todos os perigos se erguiam a um tempo, a tempestade concentrava-se no ponto vulnerável, a iminência estava diante dele.

Profunda foi, por alguns instantes, a escuridão, interrompeu-se o relâmpago, conivência sinistra; a nuvem e a vaga eram a mesma coisa; houve um golpe surdo.

Depois um fracasso.

Gilliatt adiantou a cabeça. A clarabóia que tapava a frente estava deslocada. Viam-se as pontas de vigas saltar na vaga. O mar servia-se do primeiro quebra-mar para atacar o segundo.

Gilliatt sentiu o que sentiria um general vendo voltar a vanguarda.

A segunda tapagem resistiu ao choque. A armadura de trás estava fortemente ligada. Mas a clarabóia despedaçada era pesada, estava à disposição das vagas que a atiravam e tomavam, as ligaduras que lhe restavam impediam-na de partir-se em pedaços e mantinham-lhe todo o volume, e as qualidades que Gilliatt lhe dera como aparelho de defesa faziam agora daquilo uma excelente ferramenta de destruição. De broquel tornara-se maça. Além disso, as fraturas eriçavam-na, saíam-lhe pontas em toda ela, cobriam-na de dentes e esporas. Nenhuma arma contundente mais temível e própria para ser manejada pela tempestade do que aquela.

Era o projétil, e o mar a catapulta.

Sucediam-se os golpes com uma espécie de regularidade trágica. Gilliatt, pensativo por trás daquela porta tapada por ele, ouvia esse bater da morte querendo entrar.

Ele refletiu amargamente que, se não fosse o cano da Durande tão fatalmente retido no casco, estaria àquela hora, e desde manhã, em Guernesey, e no porto, com a pança abrigada e a máquina salva.

Realizou-se o tremendo perigo. Fez-se a efração. Foi como uma agonia de moribundo. Todo o madeiramento do quebra-mar, as duas armaduras confundidas e despedaçadas juntas, foi numa tromba-d'água rolar no tapamento de pedra, como um caos numa montanha, e parou. Foi um travamento informe de paus embrenhados, penetrável às vagas, mas pulverizando-as ainda. Aquele baluarte vencido agonizava heroicamente. O mar quebrou-o, ele quebrava o mar. Derrubado, ainda ficava um pouco eficaz. A rocha que servia de tapagem, obstáculo sem recurso possível, retinha-o pelo pé. A garganta, naquele ponto, era muito estreita; a tempestade vitoriosa tinha empurrado, misturado e empilhado todo o quebra-mar naquele lugar angustioso; a violência da impulsão, misturando a massa, e metendo as fraturas umas nas outras, fez daquela demolição uma coisa sólida. Estava destruído e inabalável. Só algumas peças de pau ficaram destacadas. Dispersou-as a vaga. Uma passou no ar, perto de Gilliatt. Ele sentiu o ar agitado pela tábua na fronte.

Mas algumas vagas, essas grossas vagas que nos temporais voltam sempre, com uma periodicidade imperturbável, saltavam por cima das ruínas do quebra-mar. Caíam na garganta, e, a despeito dos cotovelos que a viela tinha, chegavam a levantar a água. A onda do estreito começava a agitar-se de um modo feio. Acentuava-se o beijo obscuro das vagas nas rochas.

Como impedir agora que essa agitação se propagasse até a pança?

Não precisava muito tempo para que toda a água interior ficasse tempestuosa, e, com algumas ondas, a pança seria estripada, e a máquina iria a pique.

Gilliatt cismava trêmulo.

Mas não se desconcertou. Para aquela alma não havia derrota possível. O furacão engolfava-se agora freneticamente entre as duas muralhas do estreito. De súbito, ressoou e prolongou-se a alguma distância por trás de Gilliatt um estalo

mais assustador que tudo quanto Gilliatt até então ouvira. Era do lado da pança. Passava-se ali alguma coisa funesta. Gilliatt correu. Do lado do leste, onde se achava, não podia ele ver a pança por causa dos

ziguezagues da viela. Na última volta parou e esperou o relâmpago. Rompeu o

relâmpago e mostrou-lhe a situação. À vaga da abertura de leste, correspondeu um tufão na abertura de oeste. Esboçava-se um desastre.

A pança não tinha avaria visível; ancorada como estava, dava pouco flanco, mas o

casco da Durande estava em risco de cair. Aquela ruína, em semelhante tempestade, apresentava uma vítima. Estava toda fora da água, no ar, oferecida ao temporal. O buraco que Gilliatt praticara para extrair a máquina enfraquecera o casco. O barrote da quilha estava cortado. O esqueleto tinha a coluna vertebral despedaçada.

Soprara em cima o furacão. Não precisou mais. A amurada dobrou-se como um livro que se abre. Fez-se o

desmembramento. Foi esse estalo que, no meio da tempestade, chegara aos ouvidos de Gilliatt. O que ele viu ao chegar parecia quase irremediável. A incisão operada por ele tornara-se uma chaga. Dessa abertura fez o vento uma

fratura. O corte transversal separava em duas a Durande. A parte posterior, a que ficava em frente de Gilliatt, vizinha da pança, ficara sólida nos rochedos. A parte anterior, que fazia face a Gilliatt, estava pendurada. Uma fratura é um gonzo. Aquela massa oscilava sobre as suas fendas, e o vento balançava-a, com um tremendo rumor.

Felizmente a pança já não estava embaixo. Mas o balanço abalava a outra metade do casco, ainda presa e imóvel entre as duas Douvres. Do abalo à queda, a distância era pequena. Com a teima do vento,

a parte deslocada podia subitamente arrastar a outra que tocava quase na pança, e tudo, pança e máquina, ficaria engolido. Gilliatt tinha isso diante dos olhos. Era a catástrofe. Como desviá-la? Gilliatt era daqueles que tiram recurso do próprio perigo. Refletiu um momento. Depois, foi ao depósito e tirou o machado. O martelo trabalhara muito; era chegada a vez do machado.

Gilliatt subiu à Durande. Firmou-se na parte do navio, que ainda estava segura, e, inclinado sobre o precipício do intervalo das Douvres, pôs-se a cortar as tábuas quebradas e tudo quanto ainda prendia o pedaço de casco pendente.

Consumar a separação dos dois pedaços do casco, libertar a metade sólida, deitar ao mar aquilo que o vento destruíra, dar o quinhão à tempestade, tal era a operação. Era mais perigosa que difícil. A metade pendente do casco, empuxada pelo vento e pelo peso, aderia apenas por alguns pontos. O conjunto do casco assemelhava-se a um díptico, partido em dois pedaços, e batendo ambos um no outro. Cinco ou seis peças apenas, vergadas e arrebatadas, mas não completamente soltas, ainda sustentavam o casco. As fraturas guinchavam e alargavam-se a cada sopro do vento, e o machado apenas ajudava. Esta circunstância, que tornava fácil o trabalho, tornava-o arriscado também. Tudo podia esboroar ao mesmo tempo debaixo de Gilliatt.

A tempestade atingiu o paroxismo. Até então fora terrível, agora fez-se horrível. A convulsão do mar reproduziu-se no céu. A nuvem até então fora soberana, parecia executar a sua vontade, dava o impulso, derramava às vagas a loucura, conservando sempre uma lucidez sinistra. Embaixo havia demência, em cima cólera. O céu era o sopro, o oceano era apenas a espuma. Daí vem a autoridade do vento. O furacão é gênio. Entretanto, a embriaguez de seu próprio horror tinha-o perturbado. Agora era o turbilhão. Era a cegueira produzindo a noite. Há nos temporais um momento insensato; é para o céu urna espécie de sangue que sobe à cabeça.

O abismo já não sabe o que faz. Fulmina às apalpadelas.

Nada mais horrendo. E a hora hedionda. Chegara ao cúmulo o tremor do escolho. A tempestade tem um plano misterioso; mas nesse instante perde-o. É a má hora da tempestade. Nesse instante, “o vento”, dizia Thoinas Fuller, “é um doido furioso”. E nesse instante que as tempestades fazem essa despesa contínua de eletricidade que Piddington chama a “cascata de relâmpagos”. É nesse instante que aparece nas nuvens mais negras, não se sabe por que e como que para espiar

o terror universal, aquele círculo azul que os velhos marinheiros espanhóis chamavam o olho da tempestade, “el ojo de ia tempestad”. Esse olho lúgubre fitava Gilliatt.

Gilliatt, de seu lado, contemplava a nuvem. Levantou a cabeça. Dava uma machadada e levantava-se altivo. Estava, ou parecia estar demasiado perdido, para que não tivesse orgulho. Desesperava? Não. Ante o supremo acesso de raiva do oceano, Gilliatt era tão prudente quanto audaz. Em cima do casco, só pisava o ponto sólido. Arriscava-se e preservava-se. Também ele chegara ao paroxismo. Decuplicou-se-lhe o vigor. Estava desvairado de intrepidez. Os golpes de machado soavam como desafios. Parecia ter ganho o que tinha perdido a tempestade. Conflito patético. De um lado o inesgotável, do outro o infatigável. Estavam a ver qual dos dois venceria. As nuvens terríveis modelavam na imensidade máscaras de górgonas, produzia-se toda a intimidação possível, a chuva surgia das vagas, a espuma tombava das nuvens, curavam-se os fantasmas dos ventos, faces de meteoro avermelhavam-se e eclipsavam-se, e a obscuridade, após tantos desmaios, era monstruosa; havia um só derramamento, vindo por todos os lados ao mesmo tempo; tudo era ebulição; a sombra em massa transbordava; cúmulos carregados de granizo, esfarelados, cor de cinza, pareciam andar num frenesi giratório, havia no ar um rumor de grãos secos, sacudidos numa peneira, as eletricidades inversas observadas por Volta faziam de nuvem em nuvem os fulminantes disparos, os prolongamentos do raio eram terríficos, os relâmpagos aproximavam-se em torno de Gilliatt. O abismo parecia espantado. Gilliatt andava na Durande fazendo tremer o tombadilho debaixo dos pés, batendo, cortando, rachando, machado em punho, lívido diante dos relâmpagos, esguedelhado, descalço, roto, com a face coberta dos escarros do mar, grande naquela sentina de trovões.

Contra o delírio das forças, só a destreza pode lutar. A destreza era o triunfo de Gilliatt. Ele queria uma queda de todo o destroço deslocado. Por isso enfraqueceu as fraturas sem rompê-las completamente, deixando algumas fibras que sustentavam o resto. Subitamente, parou com o machado no ar, a operação estava acabada. Todo o pedaço destacou-se. Essa metade do casco rolou entre as duas Douvres abaixo de Gilliatt, que ficou em pé noutra metade, inclinado e olhando; mergulhou-se perpendicularmente, arrombou os rochedos e parou na garganta antes de chegar ao fundo. Ficou uma parte fora da água, tanto quanto era suficiente para dominar a onda mais de 12 pés; foi mais uma barricada entre as duas Douvres; bem como a rocha atirada no estreito, deixava apenas filtrar um pouco de espuma nas suas extremidades, e foi essa a quinta barricada improvisada por Gilliatt, contra a tempestade, naquela rua do mar.

O furacão, cego, trabalhava a última.

Foi uma felicidade que o angustiado das paredes internas impedisse de ir ao fundo aquela tapagem. Dava-lhe mais altura; demais a água podia passar por baixo do obstáculo, o que afetava a força das ondas. Aquilo que passa por baixo não salta por cima. É esse em parte o segredo de quebra-mar flutuante.

Doravante, houvesse o que houvesse, já não havia que recear nem quanto à pança, nem quanto à máquina. A água já não podia agitar-se à roda delas. Entre a tapagem das Douvres que as cobria a oeste e o navio, tapamento que as protegia a leste, nenhuma onda, nenhum vento poderia atingi-las.

Gilliatt tirara da catástrofe a salvação. Ajudara-o a tempestade.

Feito isto, apanhou um punhado de água da chuva, bebeu e disse à nuvem: “Cântaro!”

É uma alegria irônica para a inteligência combatente atestar a vasta estupidez das forças furiosas concluindo por prestar serviços, e Gilliatt sentiu essa imemorial necessidade de insultar o inimigo, que remonta aos heróis de Homero.

Gilliatt desceu à pança e aproveitou os relâmpagos para examiná-la. Era tempo que a pobre barquinha fosse socorrida; tinha sido muito sacudida e começava a arquear. Gilliatt, com aquele olhar sumário, não viu nenhuma avaria. Contudo, era certo que ela devia ter recebido violentos choques. Acalmada a água, endireitou o casco; as âncoras portaram-se bem; quanto à máquina, as quatro correntes mantiveram-na admiravelmente.

Quando Gilliatt acabava a revista, uma coisa branca passou por ele e mergulhou na sombra. Era uma gaivota.

Não há melhor aparição nas tempestades. Quando os pássaros chegam, é que a tempestade vai-se embora.

Outro sinal excelente: o trovão redobrava.

As supremas violências da tempestade desorganizavam-na. Todos os marinheiros

o sabem, a última prova é rude mas curta. O excesso do raio anuncia-lhe o fim.

A chuva parou repentinamente. Depois houve apenas um ruído nas nuvens. O temporal cessou como uma prancha que cai no chão. Quebrou-se por assim dizer. Desfez-se a imensa máquina das nuvens. Uma fenda de céu claro disjungiu as trevas. Gilliatt ficou espantado; era dia claro.

A tempestade durara quase vinte horas.

O vento que a trouxera levou-a. Um desabamento de escuridão depressa encheu o horizonte. As brumas rotas e fugitivas amontoaram-se em tumulto, houve de uma ponta à outra da linha do horizonte um movimento de retirada, ouviu-se um longo rumor decrescente, caíram algumas gotas últimas de chuva, e toda aquela sombra cheia de trovões foi-se como uma turba de carros terríveis.

Bruscamente, fez-se azul o céu.

Gilliatt reparou que estava cansado. O sono abate-se sobre a fadiga como uma ave de rapina. Gilliatt deixou-se cair na barca sem escolher lugar e dormiu. Ficou assim algumas horas inerte e estendido, pouco distinto das pranchas e barrotes entre os quais adormecera.

LIVRO QUARTO

O FORRO DO OBSTÁCULO

CAPÍTULO PRIMEIRO

QUEM TEM FOME ACHA MAIS QUEM TENHA

Quando Gilliatt acordou, teve fome.

Acalmava-se o mar. Havia, porém, alguma agitação ao largo, que impedia a partida imediata. Demais, o dia já estava adiantado. Com o carregamento da pança, para chegar a Guernesey antes da meia-noite, era preciso sair de manhã.

Embora a fome urgisse, Gilliatt começou por despir-se, único meio de aquecer-se.

As roupas estavam molhadas da chuva, mas a água da chuva lavara a água do mar, o que fez com que agora pudessem secar as roupas.

Gilliatt apenas ficou com as calças, que arregaçou até os joelhos.

Estendeu, com pesos em cima, nas saliências do rochedo, todo o resto da roupa.

Depois pensou em comer.

Gilliatt recorreu à faca que teve o cuidado de afiar e tê-la em bom estado, e arrancou do granito alguns mariscos. Comeu-os crus. Mas, depois de tantos trabalhos, fraca era a pitança. Já não tinha biscoito. Quanto à água, não lhe faltava. Estava mais que saciado, estava inundado.

Aproveitou a vazante para perlustrar os rochedos à cata de lagostas. Já havia muita rocha descoberta; podia apanhar boa caça.

Somente não refletia ele que já não podia cozer peixe algum. Se tivesse de ir ao depósito, veria tudo derrubado pela chuva. O pau e o carvão estavam encharcados e da provisão de estopa que lhe servia de isca, não tinha um fio que não estivesse molhado. Não havia meio de sacar fogo.

De resto, o fole estava desorganizado; a tempestade saqueou-lhe o laboratório. Com o resto da ferramenta, Gilliatt, a rigor, podia ainda trabalhar de carpinteiro, não de forja. Mas Gilliatt, naquele momento, não pensava na oficina.

Empuxado pelo estômago, sem mais reflexão, entrou a procurar comida. Errava, não na garganta do escolho, mas fora, nas dobras dos cachopos. Foi desse lado que a Durande, dez semanas antes, esbarrara nas pedras.

Para a caça que Gilliatt fazia, o exterior da viela valia mais que o interior. Os caranguejos, nas águas baixas, têm costume de tomar ar. Aquecem-se ao sol. Amam o sol aqueles entes disformes. É uma coisa estranha a saída deles em plena luz. Quase indigna-se a gente com eles. Quando os vemos, com seu aspecto oblíquo, subir pesadamente, um por um, os andares inferiores dos rochedos como degraus de uma escada, acreditamos por força que o oceano também tem os seus piolhos.

Desses piolhos vivia Gilliatt há dois meses.

Contudo nesse dia os caranguejos e as lagostas andavam escondidos. A tempestade empurrara aqueles solitários para os seus esconderijos, e ainda não se animavam a sair. Gilliatt tinha na mão a faca aberta, e arrancava de quando em quando uma concha debaixo do sargaço. Comia andando.

Não devia estar longe do lugar onde se perdera o Sr. Clubin.

Quando Gilliatt já se resignara aos ouriços e castanhas do mar, fez-se um movimento a seus pés. Um grande caranguejo, assustado com a presença dele, tinha pulado na água. O caranguejo não mergulhou tanto que Gilliatt não o visse.

Gilliatt começou a correr atrás do caranguejo no esvazamento da rocha. O caranguejo fugia.

De repente, não viu mais nada.

O caranguejo metera-se por algum buraco debaixo do rochedo.

Gilliatt atracou-se aos relevos da pedra e esticou o pescoço para ver se via alguma coisa.

Havia, com efeito, uma anfratuosidade. O caranguejo devia ter-se refugiado aí.

Era mais que uma fenda, era um pórtico.

O mar entrava por baixo desse pórtico, mas não era profundo. Via-se o fundo coberto de pedrinhas. Essas pedrinhas eram esverdeadas e revestidas de filamentos, o que indicava que nunca estavam a seco. Assemelhavam-se a cabeças de crianças com cabelos verdes.

Gilliatt pôs a faca nos dentes, desceu do alto da rocha e saltou na água. Teve água quase até os ombros. Meteu-se pelo pórtico. Achou-se num corredor gasto, com um esboço de abóbada ogival por cima. As paredes eram polidas e lisas. Já não via o caranguejo. Tomara pé. Caminhava e diminuía-se a luz. Começou a não ver coisa alguma.

Depois de quinze passos, cessou a abóbada. Estava fora do corredor. Havia mais espaço, e por conseqüência mais luz; as pupilas tinham-se-lhe dilatado; via bem. Teve uma surpresa.

Acabava de entrar naquela cava estranha visitada por ele um mês antes. Somente desta vez entrou pelo mar.

Aquela arcaria que ele vira afogada era a mesma por onde agora passou. Em certas marés baixas era praticável.

Os olhos iam-se acostumando ao lugar. Via cada vez melhor. Estava estupefato.

Tornava a achar aquele extraordinário palácio da sombra, aquela abóbada, aqueles pilares, aqueles rubros, aquela vegetação de pedras, e no fundo aquela cripta, quase santuário, e aquela pedra, quase altar.

Não se lhe despertava muito os pormenores, mas tinha no espírito a idéia do todo, e reconheceu.

Via diante dele, em certa altura, na rocha, o buraco por onde penetrou a primeira vez, e que, do ponto onde estava agora, parecia inacessível.

Tornara a ver, perto da arcaria ogival, as grotas baixas e obscuras, espécie de cavas na cava, que já observara de longe. A que ficava mais perto dele estava a seco e era fácil de se lhe chegar.

Mais perto ainda que essa descobriu ele, ao alcance da mão, uma fenda horizontal no granito. Provavelmente estava ali o caranguejo. Meteu a mão o mais que pôde, e procurou às apalpadelas naquele buraco de trevas.

De repente, sentiu que lhe agarravam no braço.

O que ele experimentou, nesse momento, foi o horror indescritível.

Uma coisa que era delgada, áspera, chata, gelada, pegajosa e viva torcia-se na sombra à roda de seu braço nu, e subia-lhe para o peito. Era a pressão de uma correia, e o impulso de uma verruma. Em menos de um segundo, uma espécie de espiral tinha-lhe invadido o punho e o cotovelo e tocava-lhe o ombro. A ponta metia-se-lhe no sovaco.

Gilliatt atirou-se para trás, e mal pôde fazê-lo. Estava como que pregado. Com a mão esquerda que ficava livre pegou na faca que tinha entre os dentes, e com essa mão, que segurava a faca, apoiou-se no rochedo com um esforço desesperado para sacar o braço. Só conseguiu inquietar a ligadura, que se apertou mais. Era flexível como o couro, sólida como o aço, fria como a noite.

Outra correia, estreita e pontuda, saiu do buraco da rocha. Era uma espécie de língua saindo de uma goela. Lambeu medonhamente o corpo nu de Gilliatt, e, de repente, esticando-se, desmedida e fina, aplicou-se-lhe na pele e enrolou-se no corpo. Ao mesmo tempo um sofrimento inaudito, sem comparação neste mundo, levantava os músculos de Gilliatt. Sentia que lhe abriam a pele em muitos pontos, de um modo horrível. Parecia-lhe que inúmeros lábios, pregados à carne, procuravam beber-lhe o sangue.

Terceira correia saiu fora do rochedo, apalpou Gilliatt e chicoteou-lhe os lados como uma corda. Afinal fixou-se como as outras.

A angústia, no paroxismo, é muda. Gilliatt não soltou um grito. Havia bastante luz para que ele pudesse ver as formas repelentes aplicadas ao corpo dele.

Quarta ligadura, esta rápida como uma echa, saltou-lhe em roda do ventre e enrolou-se-lhe.

Era impossível cortar e nem arrancar aquelas correias viscosas que aderiam estreitamente ao corpo de Gilliatt e por muitíssimos pontos. Cada um desses pontos era um foco de terrível e estranha dor. Era o que sentiria quem fosse engolido ao mesmo tempo por uma porção de bocas pequeninas.

Quinta ligadura rompeu do tronco. Sobrepôs-se às outras e foi enroscar-se no diafragma de Gilliatt. A compressão ajuntava-se à ansiedade. Gilliatt mal podia respirar.

Aquelas ligaduras, pontudas na extremidade, iam alargando como lâminas de espada para o punho. Todas cinco pertenciam evidentemente ao mesmo centro. Caminhavam e arrastavam-se para Gilliatt. Ele sentia deslocarem-se essas pressões obscuras que lhe pareciam bocas.

Bruscamente uma larga viscosidade redonda e chata saiu de dentro da rocha. Era

o centro; as cinco ligaduras prendiam-se a ele, como raios a um eixo; distinguia-se do lado oposto daquele disco imundo o começo de outros três tentáculos, presos no fundo do buraco. No meio dessa viscosidade havia dois olhos.

Olhavam eles para Gilliatt.

Gilliatt reconheceu que era uma pieuvre.

CAPÍTULO II

O MONSTRO

Para acreditar na pieuvre é preciso tê-la visto.

Comparadas à pieuvre, as velhas hidras fazem sorrir.

Em certos momentos parece que o elemento fugitivo que flutua em nossos sonhos encontra na realidade ímãs aos quais esses lineamentos se prendem, e dessas obscuras ficções do sonho surgem criaturas. O ignoto dispõe do prodígio e serve-se dele para compor o monstro. Orfeu, Homero e Hesíodo só puderam fazer a quimera; Deus fez a pieuvre.

Quando Deus quer, excede no execrável.

A razão desta vontade é o medo do pensador religioso.

Admitidos todos os ideais, se o terror é um fim, a pieuvre é uma obra-prima.

A baleia é enorme, a pieuvre é pequena; o hipopótamo tem uma couraça, a pieuvre é nua; a jararaca tem um silvo, a pieuvre é muda; o rinoceronte tem um chifre, a pieuvre não tem chifre; o escorpião tem um dardo, a pieuvre não tem dardo; o macaco tem uma cauda, a pieuvre não tem cauda; o tubarão tem barbatanas cortantes, a pieuvre não tem barbatanas; o vespertílio-vampiro tem asas com unhas, a pieuvre não tem asas; o porco-espinho tem espinhos, a pieuvre não tem espinho; o espadarte tem um gládio, a pieuvre não tem gládio; o torpedo tem um raio, a pieuvre não tem raio; o sapo tem um vírus, a pieuvre não tem vírus; a víbora tem veneno, a pieuvre não tem veneno; o leão tem garras, a pieuvre não tem garras; o gipaeto tem um bico, a pieuvre não tem bico; o crocodilo tem uma goela, a pieuvre não tem dentes.

A pieuvre não tem massa muscular, nem grito ameaçador, nem couraça, nem chifre, nem dardo, nem cauda, nem barbatanas, nem asas, nem espinhos, nem espada, nem descarga elétrica, nem vírus, nem veneno, nem garras, nem bico, nem dentes. A pieuvre é, de todos os animais, o mais formidavelmente armado.

O que é a pieuvre? É a ventosa.

Nos escolhos em pleno mar, onde a água mostra e esconde todos os seus esplendores, nas cavas de rochedos não visitadas, nas cavas desconhecidas onde abundam as vegetações, os crustáceos e as conchas, debaixo dos profundos pórticos do oceano, o nadador que se arrisca, arrastado pela beleza do lugar, corre o risco de um encontro. Se tiveres esse encontro, não sejas curioso, foge. Entra-se fascinado, sai-se apavorado.

Eis o que é esse encontro sempre possível nas rochas do mar alto.

Uma forma cinzenta oscila na água, da grossura de 1 braça e de meia vara de comprido; é um trapo; essa forma assemelha-se a um guarda-chuva sem capa; a pouco e pouco o trapo caminha para o homem. De repente abre-se, oito raios saem bruscamente da roda de uma face que tem dois olhos; esses raios vivem; flamejam ondeando; é uma espécie de roda desenrolada, tem 4 ou 5 pés de diâmetro. Desenrolamento medonho. Atira-se ao infeliz.

A hidra arpoa o homem.

Este animal aplica-se à sua presa, cobre-a, envolve-a com os seus longos braços. Por baixo é amarelada, por cima é térrea; nada pode imitar esse inexplicável matiz de poeira; dissera-se um animal feito de cinza, e morando na água. É aracnídeo pela forma, é cameleão pelo colorido. Irritada, torna-se roxa. Coisa horrível, é flácida.

Os seus nós garroteiam; o seu contato paralisa.

Tem um aspecto de escorbuto e de gangrena. É a moléstia feita monstruosidade.

Não se pode arrancá-la; agarra-se estreitamente à sua presa. Como? Pelo vácuo.

As oito antenas, largas na origem, vão estreitando-se e terminam como agulhas; debaixo de cada uma delas alongam-se paralelamente duas filas de pústulas decrescentes, as grossas perto da cabeça, as pequenas na ponta, e cada fila tem

25. Há cinqüenta pústulas em cada antena, e todo o animal tem quatrocentas. Essas pústulas são ventosas.

As ventosas são cartilagens cilíndricas e lívidas. Na grande espécie vão diminuindo de diâmetro — desde uma moeda de 5 francos até a grossura de uma lentilha. Esses pedaços de tubos saem e entram no animal. Podem meter-se no corpo de um homem mais de 1 polegada.

Este aparelho de sucção tem a delicadeza de um teclado. Levanta-se, esconde-se. Obedece à menor intenção do animal. As sensibilidades mais delicadas não igualam à contratibilidade dessas ventosas, sempre proporcionadas aos movimentos internos do bicho e aos incidentes externos. Este dragão é uma sensitiva.

Este monstro é aquele que os marinheiros chamam polvo, que a ciência chama cefalópode e a que a legenda chama kraken. Os marinheiros ingleses chamam-no devil-fish, o peixe-diabo. Chamam-no também blood-sucker, chupador de sangue. Nas ilhas da Mancha chamam-na pieuvre.

É muito rara em Guernesey, muito pequena em Jersey, muito grande e freqüente em Serk.

Uma estampa da edição de Buffon por Sonnini representa um cefalópode estreitando uma fragata. Dionísio Montfort pensa que na verdade o polvo das altas latitudes pode meter um navio a pique. Bory Saint-Vincent nega-o, mas atesta que nas nossas regiões o polvo ataca o homem. Quem for a Serk verá perto de Brecq-Hou o buraco do rochedo onde uma pieuvre há anos agarrou, reteve e afogou um pescador de lagostas. Peron e Lamarck enganam-se quando duvidam que o polvo, não tendo barbatanas, possa nadar. Aquele que escreve estas linhas viu com seus próprios olhos, em Serk, na cova das Lojas, uma pieuvre perseguir, a nado, um homem que tomava banho. Foi morta e medida; tinha 4 pés ingleses de largura e pôde-se contar quatrocentos chupadores. O bicho agonizante atirava-os para longe de si convulsamente.

Segundo Dionísio Montfort, um desses observadores, cuja alta intuição faz descer ou subir até o magismo, o polvo tem quase as paixões do homem; o polvo odeia. E no absoluto ser hediondo é odiar.

O disforme debate-se debaixo de uma necessidade de eliminação que o torna hostil.

A pieuvre nadando conserva-se, por assim dizer, na bainha. Nada com as antenas fechadas. Imaginem uma manga cosida com um punho dentro. Esse punho, que é a cabeça, impele o líquido e avança com um vago movimento ondulatório; os dois olhos, embora grandes, são pouco distintos por serem da cor da água.

A pieuvre, quando espreita a caça, esquiva-se; diminui-se, condensa-se; reduz-se à mais simples expressão. Confunde-se com a penumbra. Parece uma dobra de vaga. Assemelha-se a tudo, exceto a coisa viva.

A pieuvre é o hipócrita. Não se repara nela; repentinamente, abre-se.

Que há aí de mais medonho que isso: uma viscosidade com uma vontade! O viscoso amassado de ódio.

É no mais belo azul da água límpida que surge essa hedionda estrela voraz do mar. O que é terrível é que não se sente de longe. Quando a gente a vê, já está agarrada.

Contudo, à noite, e particularmente na estação do desejo, a pieuvre é fosfórica; aquele pavor tem os seus amores. Aguarda o himeneu. Faz-se bela, ilumina-se, e, do alto de algum rochedo, pode-se vê-la nas profundas trevas aberta numa irradiação, sol espectro.

A pieuvre anda; também nada. É um tanto peixe e um tanto réptil. Arrasta-se no fundo do mar. Utiliza as suas oito pernas. Roja-se como a lagarta.

Não tem osso, nem sangue e nem carne. É flácida. Não tem nada dentro. É uma pele. Pode-se virar-lhe os tentáculos de dentro para fora, como dedos de uma luva.

Tem um só orifício no centro dos oito raios. É fria toda ela.

Repelente bicho, é um do mediterrâneo. É um contato hediondo, essa gelatina animada que envolve o nadador, onde as mãos mergulham, onde as unhas trabalham, bicho que se rasga sem matar, e que se puxa sem tirar, espécie de criatura resvaladiça e tenaz, que escorrega entre os dedos; mas nada iguala a súbita aparição da pieuvre, Medusa servida por oito serpentes.

Não há aperto igual ao do cefalópode.

É uma máquina pneumática que ataca. Luta-se com o nada ornado de patas. Nem unhas nem dentes; uma escarificação indizível. Uma mordedura é temível; é menos ainda que urna sucção. A garra não iguala a ventosa. A garra é o animal que entra na carne; a ventosa é o homem que entra no bicho. Incham-se os músculos, torcem-se as fibras, rebenta a pele, debaixo de um peso imundo, jorra

o sangue, e mistura-se horrivelmente à linfa do molusco. O bicho sobrepõe-se ao homem por mil bocas infames; a hidra incorpora-se ao homem; o homem amalgama-se à hidra. Ficam sendo um só. Pesa aquele sonho. O tigre pode antes apenas devorar; o polvo (horror!) aspira. Puxa o homem a si e em si, e, atado, enviscado, impotente, o homem sente-se lentamente esvaziado naquele terrível saco, que é um monstro.

Além do terrível, que é ser comido vivo, há o inexprimível, que é ser bebido vivo.

Essas estranhas animações são ao princípio rejeitadas pela ciência, segundo o hábito de sua excessiva prudência; depois estuda-as, descreve-as, classifica-as, inscreve-as, põe-lhes rótulos, procura exemplares; expõe-nas em museus; elas entram na nomenclatura; ela os qualifica moluscos, invertebrados, raiados; verifica-lhes as fronteiras; um pouco além os calamares, um pouco aquém os depiários; para estas hidras da água salgada acham um análago na água doce, o argironete; divide-as em grande, média e pequena espécie; admite mais facilmente a pequena espécie que a grande, o que é, em todas as regiões, a tendência da ciência, a qual é mais microscópica que telescópica; olha a sua construção e chama-os cefalópodes; conta as suas antenas e chama-os octópodes. Feito isto, deixa-os assim. Onde a ciência os larga, a filosofia os retoma.

A filosofia estuda por sua vez esses entes. Ela vai menos longe e mais longe que a ciência. Não os disseca, medita-os. Onde o escalpelo trabalhou, imerge a hipótese. Procura a causa final. Profundo tormento de pensador. Essas criaturas o inquietam quase sobre o criador. São as surpresas hediondas. São os perturbadores do contemplativo. Ele as verifica desvairado. São as formas intencionais do mal. Que fazer diante dessas blasfêmias da criação contra si própria? A quem deve ele queixar-se?

O possível é uma matriz formidável. O mistério concentra-se em monstros. Lanhos de sombra saem deste penedo — a iminência —, rasgam-se, destacam-se, rolam, flutuam, condensam-se, enchem-se do negrume ambiente, recebem as polarizações desconhecidas, tomam vida, compõem uma forma com obscuridade e uma alma com o miasma, e vão-se, larvas através da vitalidade. É alguma coisa semelhante às trevas feitas animais. Por quê? Para quê? Volta a questão eterna.

Esses animais são fantasmas e monstros, a um tempo. São provados e improváveis. Ser é o fato, não ser é o direito. São os anfíbios da morte. A sua inverossimilhança complica a sua existência. Tocam a fronteira humana e povoam

o limite quimérico. Negais o vampiro, aparece a pieuvre. E uma certeza que desconcerta a nossa segurança. O otimismo, que é a verdade, perde-se quase diante deles. São a extremidade visível dos círculos negros. Marcam a transição da nossa realidade a outra. Parecem pertencer a esse começo de entes terríveis que o sonhador entrevê confusamente na noite.

Esses prolongamentos de monstros, no invisível ao princípio, no possível depois, foram suspeitados, vistos talvez, pelo êxtase severo, e pelo olhar fixo dos magos e dos filósofos. Daí a conjetura de um inferno. O demônio é o tigre do invisível. A besta feroz das almas foi denunciada ao gênero humano por dois visionários, um que se chama João, outro que se chama Dante.

Se, com efeito, os círculos da sombra continuam indefinidamente, se, depois de um anel há outro, se isto vai em progressão ilimitada, se existe a cadeia, de que estamos resolvidos a duvidar, é certo que a pieuvre numa extremidade prova Satanás na outra.

É certo que o mau num limite prova a maldade no outro.

Todo animal feroz, como toda inteligência perversa, é esfinge. Esfinge terrível, propondo o enigma terrível. O enigma do mal.

Essa perfeição do mal é que faz inclinar às vezes os grandes espíritos para a crença do Deus duplo, para o tremendo bifronte dos maniqueus.

Uma rede chinesa, roubada na última guerra, no palácio do império da China, representa o tubarão comendo o crocodilo, o qual come a serpente, a qual come a águia, a qual come a andorinha, a qual come a lagarta.

Toda a natureza devora ou é devorada. As presas mastigam-se umas às outras.

Entretanto os sábios que também são filósofos, e por conseqüência benévolos para a criação, acham ou acreditam achar a explicação disto. O fim destas coisas aparece, entre outros, a Bonnet de Genebra, aquele misterioso espírito exato, que foi oposto a Buffon, como mais tarde Geoffroy Saint-Hilaire o foi a Cuvier. A explicação dizem ser esta: a morte exige a inumação. Esses vorazes são coveiros.

Todas as criaturas entram umas nas outras. Podridão é alimentação. Assustadora limpeza do globo. O homem, carnívoro, também é coveiro. A nossa vida é feita de morte. Tal é a lei terrífica. Somos sepulcros.

No nosso mundo crepuscular, esta fatalidade da ordem produz monstros. Perguntais: por quê? É por isto.

Será isto a explicação? Será esta a resposta? Mas então por que não será outra a ordem? Reaparece a questão.

Vivamos, seja.

Mas façamos com que a morte nos seja progresso. Aspiremos aos mundos menos tenebrosos.

Sigamos a consciência que nos leva para lá.

Porquanto, não o esqueçamos nunca, o preferível só é achado pelo melhor.

CAPÍTULO III

OUTRA FORMA DE COMBATE NO ABISMO

Tal era o animal a quem, desde alguns instantes, Gilliatt pertencia.

Aquele monstro era o habitante daquela grota. Era o medonho gênio do lugar. Espécie de sombrio demônio da água.

Todas essas magnificências tinham por centro o horror.

Um mês antes, no dia que pela primeira vez Gilliatt penetrou na caverna, a forma escura, entrevista por este nas dobras da água secreta, era aquela pieuvre.

Estava ela em sua casa.

Quando Gilliatt, entrando pela segunda vez na caverna, em busca do caranguejo, viu o buraco onde pensou que o caranguejo se tivesse refugiado, a pieuvre estava no seu buraco à espreita.

Pode-se imaginar esta espera?

Nenhum pássaro ousaria chocar, nenhum ovo ousaria abrir, nenhuma flor ousaria desabrochar, nenhum seio ousaria aleitar, nenhum coração ousaria amar, nenhum espírito ousaria voar, se se pensasse nas sinistras emboscadas do abismo.

Gilliatt metera o braço no buraco; a pieuvre agarrou-o.

Gilliatt estava preso.

Era a mosca daquela aranha.

Gilliatt tinha água até a cintura, os pés agarrados nos seixos arredondados e resvaladiços, com o braço direito atado pelas correias da pieuvre, e o tronco do corpo desaparecendo quase debaixo das dobras e cruzamentos daquela atadura horrível.

Dos oitos braços da pieuvre, três aderiam à rocha, cinco aderiam a Gilliatt. Deste modo agarrados ao granito por um lado e ao homem pelo outro, encadeavam Gilliatt ao rochedo. Gilliatt tinha em si 250 chupadores. Complicação de angústia e de enjôo. Estava apertado dentro de uma grande mão, cujos dedos elásticos e do comprimento de 1 metro são inteiramente cheios de pústulas vivas que lhe fuçavam na carne.

Já o dissemos, não se pode arrancar a pieuvre. Quem o tenta, fica mais fortemente amarrado. Ela aperta-se mais. O seu esforço cresce na razão do esforço do homem. Quanto maior é a sacudidela, maior é a constrição.

Gilliatt só tinha um recurso, a faca.

Tinha a mão esquerda livre; é sabido que ele usava dela poderosamente. Podia dizer-se que tinha duas mãos direitas.

Nessa mão tinha ele a faca aberta.

Não se cortam as antenas da pieuvre; é um couro impossível de cortar, resvala debaixo da lâmina; demais, a superposição é tal que um corte nessas correias iria até à carne.

O polvo é formidável, há, contudo, uma maneira de vencê-lo. Os pescadores de Serk o sabem; quem os viu executar no mar certos movimentos bruscos, também

o sabe. Os ouriços-do-mar também conhecem esse modo; têm uma maneira de morder a siba que lhe corta a cabeça. Daí vem que se encontram muitas sibas e pieuvres sem cabeça no mar alto.

O polvo, na verdade, só é vulnerável na cabeça.

Gilliatt não o ignorava.

Nunca tinha visto uma pieuvre daquele tamanho. Logo da primeira vez, achava-se agarrado pela grande espécie. Qualquer outro ter-se-ia perturbado.

Há um momento para vencer a pieuvre, como o touro; é o instante em que o touro curva o pescoço, é o instante em que a pieuvre estica a cabeça; instante rápido. Quem o deixa escapar está perdido.

Tudo o que acabamos de dizer passou-se em alguns minutos. Gilliatt sentia crescer a sucção das 250 ventosas.

A pieuvre é traidora. Procura apavorar a presa. Agarra e espera o mais que pode.

Gilliatt tinha a faca na mão. As sucções aumentavam.

Ele olhava para a pieuvre, a pieuvre olhava para ele.

De repente, o bicho desprendeu do rochedo a sexta antena e, atirando-a sobre Gilliatt, procurou agarrar-lhe o braço esquerdo.

Ao mesmo tempo esticou vivamente a cabeça. Mais um segundo e a sua boca aplicar-se-ia sobre o peito de Gilliatt. Gilliatt, sangrado no corpo e preso pelos braços, estaria morto.

Mas Gilliatt vigiava. Espreitado, espreitava.

Evitou a antena, e, no momento em que o bicho ia agarrar-lhe o peito, a sua mão armada abateu-se sobre o bicho.

Houve duas convulsões em sentido inverso: a da pieuvre e a de Gilliatt. Foi luta de dois relâmpagos.

Gilliatt mergulhou a ponta da faca na viscosidade chata e, com um movimento giratório semelhante à torção de uma chicotada, fazendo um círculo à roda dos dois olhos, arrancou a cabeça como quem arranca um dente.

Estava acabado.

O bicho caiu.

Parecia uma roupa que se desprende. Destruída a bomba aspirante, desfez-se o vácuo. As quatrocentas ventosas largaram ao mesmo tempo o rochedo e o homem. Aquele andrajo foi ao fundo da água.

Gilliatt, ofegante da luta, pôde ver a seus pés, em cima das pedras do fundo, dois montes gelatinosos e informes, a cabeça de um lado, o resto de outro. Dizemos resto, porque não se poderia dizer corpo.

Gilliatt, contudo, receando algum ataque convulsivo da agonia, colocou-se fora de alcance dos tentáculos.

Mas o animal estava bem morto. Gilliatt fechou a faca.

CAPÍTULO IV

NADA SE ESCONDE, NADA SE PERDE

Era tempo de matar a pieuvre. Gilliatt estava quase sem fôlego; tinha o braço direito e o corpo roxos; esboçavam-se neles mais de duzentos tumores; alguns vertiam sangue. O remédio para essas lesões é a água salgada; Gilliatt mergulhou na água. Ao mesmo tempo esfregava-se com a palma da mão e os tumores desapareciam.

Recuando e mergulhando na água, achou-se ele próximo da espécie de cava que ficava ao pé do buraco onde a pieuvre o agarrou.

A cava prolongava-se obliquamente, e a seco, debaixo das grandes paredes da caverna. Os seixos que ali se tinham ajuntado levantavam o fundo acima das marés ordinárias. Essa anfratuosidade era um largo címbrio abatido, um homem podia entrar curvando-se. A claridade verde da caverna penetrava ali e iluminava-a fracamente.

Aconteceu que, esfregando a pele intumescida, Gilliatt levantou maquinalmente os olhos. Olhou para dentro da cava. Estremeceu.

Pareceu-lhe ver no fundo desse buraco, na sombra, uma espécie de cara rindo.

Gilliatt ignorava a palavra alucinação, mas conhecia a coisa. Os misteriosos encontros com o inverossímil que chamamos alucinações existem na natureza. Ilusões ou realidades, as visões aparecem. Quem está presente vê-as passar. Gilliatt, como dissemos, era um pensativo. Tinha a grandeza de ser às vezes alucinado como um profeta. Não se é impunemente sonhador dos lugares solitários.

Acreditou em uma dessas miragens das quais, homem noturno como era, mais de uma vez teve medo.

A anfratuosidade figurava exatamente um forno de cal. Era um nicho baixo, em forma de asa de cesto, cujas curvaturas abruptas iam estreitando-se até a extremidade da cripta onde os seixos e a abóbada se juntavam e fechavam.

Gilliatt entrou e, inclinando a cabeça, dirigiu-se para o que estava no fundo.

Era, com efeito, alguma coisa que ria. Era uma caveira.

Não havia só a caveira, havia também o esqueleto. Um esqueleto humano estava deitado na cava.

O olhar de um homem audaz, em tais ocasiões, quer saber das coisas a fundo.

Gilliatt olhou em roda de si.

Estava cercado de uma porção de caranguejos.

Não se mexiam eles. Era o aspecto de um formigueiro morto. Todos os caranguejos estavam mortos. Estavam vazios.

Os grupos, semeados, faziam no chão de seixos que enchiam a cava constelações disformes.

Gilliatt, com o olhar fito em outra parte, caminhara por cima sem reparar.

Na extremidade da cripta onde chegara Gilliatt, havia maior espessura. Era um montão imóvel de antenas, de patas e de mandíbulas. Pinças abertas conservavam-se direitas, e já se não fechavam. As caixas de ossos não se mexiam debaixo de sua crosta de espinhos; algumas viradas mostravam o interior lívido. Este amontoado parecia uma multidão de sitiantes e tinha o entravamento de um espinheiro.

Debaixo desse montão estava o esqueleto.

Via-se, debaixo dessa porção de tentáculos e escamas, o crânio com as estrias, as vértebras, os fêmures, as tíbias, os longos dedos nodosos, com unhas. As costelas estavam cheias de caranguejos. Tinha palpitado ali algum coração. Os buracos dos olhos estavam atopetados de bolor marinho. Algumas conchas tinham deixado a sua baba nas fossas nasais. Não havia nesse recanto da caverna nem sargaços, nem ervas, nem sopro de ar. Nenhum movimento. Os dentes riam.

O lado assustador do riso é a imitação que faz dele uma caveira.

Aquele maravilhoso palácio do abismo bordado e incrustado de todas as pedrarias do mar revelava por fim o seu segredo. Era um covil, a pieuvre morava aí; e era uma tumba, aí jazia um homem.

A imobilidade espectral do esqueleto e dos moluscos oscilava vagamente, por causa da reverberção das águas subterrâneas que tremia naquela petrificação. Os caranguejos, mistura medonha, pareciam ter acabado a sua refeição. Aquelas cascas pareciam comer aquele esqueleto. Nada mais estranho do que aquela bicharia morta, sobre aquele homem finado. Sombrias continuações da morte.

Gilliatt tinha, diante de si, o armário da pieuvre.

Visão lúgubre, donde surgia o horror profundo das coisas. Os caranguejos tinham comido o homem, a pieuvre tinha comido os caranguejos.

Não havia nenhum resto de roupa ao pé do cadáver. O homem devia ter sido agarrado nu.

Gilliatt, atento e examinando, começou a tirar os caranguejos de cima do homem. Quem era esse homem? O cadáver estava admiravelmente dissecado. Dissera-se uma preparação de anatomia; toda a carne estava eliminada; já não restava nenhum músculo. Se Gilliatt fosse do ofício, reconheceria isso. Os periósteos estavam brancos, polidos e como que lustrados. Sem alguns filamentos verdes que apareciam aqui e ali, seria marfim puro. As divisões cartilaginosas estavam delicadamente afiladas. A tumba faz essas joalherias sinistras.

O cadáver estava como que enterrado debaixo dos caranguejos mortos. Gilliatt desenterrava-o.

De repente, inclinou-se vivamente.

Acabava de ver, à roda da coluna vertebral, uma espécie de atilho. Era um cinto de couro, que evidentemente fora atado ao ventre do homem antes de morrer.

O couro estava cheio de mofo. A fivela estava enferrujada.

Gilliatt puxou o cinto; as vértebras resistiram, e Gilliatt teve de quebrá-las, para tirar o cinto. O cinto estava intato. Começava a formar-se nele uma crosta de conchas.

Gilliatt apalpou o cinto, e sentiu um objeto duro de forma quadrada no interior. Não era possível abrir a fivela, Gilliatt cortou o couro com a faca.

O cinto continha uma caixinha de ferro e algumas moedas de ouro. Gilliatt contou 20 guinéus.

A caixinha era uma velha boceta de marinheiro, abrindo-se por mola. Estava muito enferrujada. A mola, completamente oxidada, já não funcionava.

A faca veio em auxílio de Gilliatt. Com a ponta da lâmina, fez ele pular a tampa da boceta.

A boceta abriu-se.

Só havia papel dentro dela.

Um macinho de folhas finas, dobradas em quatro, estava no fundo da boceta. Estavam úmidas, mas não alteradas. A boceta, hermeticamente fechada, preservou-as. Gilliatt abriu-as.

Eram três notas do banco de 1.000 libras esterlinas cada uma, formando uma soma de 75.000 francos.

Gilliatt dobrou-as, pô-las na caixinha, aproveitou o pouco lugar que restava para deitar dentro os 20 guinéus, e fechou a caixinha o melhor que pôde.

Depois examinou o cinto.

O couro, outrora envernizado pela parte de fora, não o era no interior. Aí estavam traçadas algumas letras com tinta gordurosa. Gilliatt decifrou as letras e leu: “Sr. Clubin”.

CAPÍTULO V

HÁ LUGAR PARA ALOJAR-SE A MORTE NO INTERVALO QUE SEPARA 6 POLEGADAS DE 2 PÉS

Gilliatt meteu outra vez a caixinha no cinto, e pôs o cinto na algibeira da calça.

Deixou o esqueleto aos caranguejos com a pieuvre morta ao pé.

Enquanto Gilliatt esteve com a pieuvre e o esqueleto, a maré enchente tinha tapado o bocal da entrada. Gilliatt só pôde sair mergulhando por baixo do arco. Foi-lhe fácil; conhecia a saída, e era mestre nessas ginásticas do mar.

Adivinhava-se o drama que se passara ali dez semanas antes. Um monstro agarrara o outro. A pieuvre agarrara Clubin.

Foi isso, na sombra inexorável, o que se poderia chamar o encontro das hipocrisias. Houve, no fundo do abismo, um embate dessas duas existências feitas de emboscada e de trevas, e uma, que era a besta, executou a outra, que era a alma. Sinistras justiças.

O caranguejo alimenta-se da carne morta, a pieuvre alimenta-se de caranguejos. A pieuvre apanha um animal que nada, uma lontra, um cão, um homem se pode, bebe-lhe o sangue, e deixa no fundo da água o corpo morto. Os caranguejos são escaravelhos necróforos do mar. Atrai-os a carne pútrida; eles aproximam-se, comem o cadáver; a pieuvre os come depois. As coisas mortas desaparecem no caranguejo, o caranguejo desaparece na pieuvre. Já indicamos esta lei.

Clubin foi o engodo da pieuvre.

A pieuvre reteve-o e afogou-o; os caranguejos o devoraram. Alguma vaga o levou para aquela cava, no fundo da anfratuosidade onde Gilliatt o achou.

Gilliatt voltou, procurando nos rochedos outra coisa que não fosse caranguejos. Parecer-lhe-ia comer carne humana.

Demais, ele tratava de cear o melhor possível antes de partir. Já nada o retinha no rochedo. As grandes tempestades são sempre seguidas de uma calma que dura muitos dias às vezes. Nenhum perigo havia ainda quanto ao mar. Gilliatt estava resolvido a partir no dia seguinte de manhã. Era conveniente conservar durante a noite, por causa da maré, o tapamento ajustado entre as Douvres; mas Gilliatt contava desfazer de madrugada essa tapagem, empurrar a pança para fora, e abrir vela para Saint-Sampson. A brisa de calma que soprava, e que era sudoeste, era exatamente o vento que lhe era preciso.

Entrava o primeiro quarto de lua de maio; os dias eram longos.

Quando Gilliatt, terminada a pesquisa dos rochedos e mais ou menos satisfeito do estômago, voltou para a garganta das Douvres, onde estava a pança, já o sol caíra no poente, e o crespúsculo redobrava com aquele meio luar que se pode chamar o luar do crescente; a maré, que tinha enchido completamente, começava a vazar. O cano da máquina, de pé acima da pança, estava coberto pela espuma da tempestade de uma camada de sal que a lua embranquecia.

Isto lembrou a Gilliatt que a tempestade deitara, dentro da pança, muita água de chuva e do mar, e que, se quisesse partir no dia seguinte, era preciso esvaziar a barca.

Tinha verificado, ao deixar a pança para ir procurar caranguejos, que havia cerca de 6 polegadas de água no porão. A pá de esgoto bastaria para deitar essa água fora.

Chegando à pança, Gilliatt teve um movimento de terror. Havia na pança perto de 2 pés de água.

Incidente terrível, a pança fazia água.

Enchera-se pouco a pouco durante a ausência de Gilliatt. Carregada como estava, 20 polegadas de água eram sobreposse. Mais um pouco e a pança iria a pique. Se Gilliatt chegasse uma hora mais tarde, só acharia fora da água o casco e o mastro.

Não podia perder um minuto em deliberação.

Era preciso procurar o buraco, tapá-lo, depois esvaziar a barca, ou ao menos aliviá-la. As bombas da Durande tinham-se perdido no naufrágio; Gilliatt estava reduzido à pá de esgoto.

Procurar o buraco, antes de tudo. Era o mais urgente.

Gilliatt pôs mãos à obra, sem mesmo dar-se tempo de vestir, e todo trêmulo. Já não sentia fome, nem frio.

A pança continuava a encher. Felizmente não havia vento. O menor abalo da onda meteria a pança a pique.

A lua desaparecera.

Gilliatt, às apalpadelas, curvado, mergulhado mais de metade na água, levou muito tempo na pesquisa. Afinal encontrou a avaria.

Durante a tempestade, no momento crítico em que a pança se arqueava, a robusta barca tinha batido violentamente contra o rochedo. Um dos relevos da pequena Douvre fizera-lhe uma fratura no casco, a estibordo.

Este buraco estava infelizmente, podia-se quase dizer perfidamente, situado perto do ponto do encontro das duas porcas, o que, junto ao aturdimento da tempestade, impedia Gilliatt, na revista obscura e rápida que fizera, com o temporal, de descobrir o estrago.

A fratura assustava porque era larga, e tranqüilizava porque, embora imersa neste momento pela enchente interna da água, ficava acima do lume da água.

No momento em que rompeu o buraco, a vaga era loucamente sacudida no estreito, e já não havia nível de flutuação, a onda penetrara pela efração na pança; a pança, com mais essa carga, mergulhou algumas polegadas, e, mesmo depois do apaziguamento das vagas, o peso do líquido filtrado, fazendo levantar a linha de flutuação, manteve o buraco debaixo da água. Daí vinha a iminência do perigo. A cheia aumentara de 6 polegadas a 20. Mas, conseguindo tapar o buraco, podia-se esvaziar a pança; esvaziada a pança, voltaria à flutuação normal, a fratura sairia da água, e a seco, a reparação seria fácil, ou ao menos possível. Gilliatt, como dissemos, tinha ainda a ferramenta de carpintaria em bom estado.

Mas quantas incertezas antes de chegar a isso! Quantos perigos! Quantas más probabilidades! Gilliatt ouviu a água correr inexoravelmente. Um empuxão e tudo iria a pique. Que desgraça! Talvez já não fosse tempo.

Gilliatt acusou-se amargamente. Deveria ter visto a avaria. As 6 polegadas de água no porão deviam tê-lo advertido. Foi estupidez atribuir as 6 polegadas de água à chuva e à espuma. Exprobrou-se o ter dormido e o ter comido; exprobrou-se a fadiga, e quase também a tempestade e a noite. Tudo era culpa dele.

Essas coisas duras, que ele dizia a si próprio, iam de envolta com o vaivém do trabalho e não o impediam de observar.

Achar o buraco era o primeiro passo; tapá-lo era o segundo. Não se podia mais agora. Não se faz carpintaria debaixo da água.

Havia uma circunstância favorável, era que o buraco do casco foi aberto no espaço compreendido entre as duas correntes que prendiam a estibordo o cano da máquina. A estopa podia prender-se a essas correntes.

Entretanto, a água subia. Já passava de 2 pés.

Gilliatt tinha água acima dos joelhos.

CAPÍTULO VI

“DE PROFUNDIS AD ALTUM”

Gilliatt tinha à sua disposição, na reserva do aparelho da pança, um grande pano alcatroado com as competentes cordas longas nas quatro pontas.

Pegou nesse pano, amarrou dois cantos pelos cabos às duas argolas das correntes do cano do lado do buraco, e atirou o pano por cima da borda. O pano caiu como uma toalha entre a pequena Douvre e a barca, e mergulhou. A água, querendo entrar na pança, aplicou o pano ao casco sobre o buraco. Quanto mais a água batia, mais aderia o pano. Foi colocado pela vaga sobre a fratura. A chaga da barca estava pensada.

A lona alcatroada interpunha-se entre o interior do porão e as vagas de fora. Já não entrava nem gota de água sequer.

O buraco estava tapado, mas não estopado.

Era uma espera.

Gilliatt começou a esvaziar a pança. Era tempo de aliviá-la. O trabalho aqueceu-o um pouco, mas extrema era a fadiga. Gilliat confessava que não iria ao fim e não chegaria a estancar o porão. Gilliatt comera muito pouco, e tinha a humilhação de sentir-se extenuado.

Media o progresso dos trabalhos pela baixa do nível da água nos seus joelhos. A descida era lenta.

Além disso, a entrada da água estava apenas interrompida. O mal estava paliado, mas não reparado. O pano, empurrado na fratura pela vaga, começava a fazer um tumor pelo lado de dentro. Parecia que havia uma mão fechada debaixo do pano, procurando romper o buraco. A lona, sólida e alcatroada, resistia; mas o inchamento e a tensão iam aumentando; não era certo que o pano não cedesse, e, de um momento para outro, o tumor poderia romper. Recomeçaria então a irrupção da água.

Em tal caso, as equipagens em perigo o sabem, não há outro recurso mais que um batoque. Apanham-se trapos de toda a espécie, o que se acha à mão, tudo quanto a língua especial chama forro e mete-se o mais que se pode na fenda do tumor da lona.

Desse forro Gilliatt não tinha nenhum. Todos os panos e estopas armazenados foram empregados no trabalho ou dispersos pelo vento.

Podia achar alguns restos no rochedo, quando muito. A pança já estava bastante aliviada, e ele podia ausentar-se um quarto de hora; mas como procurar sem luz? Completa era a escuridão. Já não havia lua; apenas o sombrio céu estrelado. Gilliatt não tinha fios secos para fazer uma mecha, nem sebo para fazer uma vela, nem fogo para acendê-la, nem lanterna para abrigá-la. Tudo estava confuso e indistinto na barca e no escolho. Ouvia a água rumorejar à roda do casco ferido, nem sequer podia ver o buraco; foi com as mãos que Gilliatt pôde averiguar a tensão crescente do pano. Era impossível fazer naquela obscuridade uma pesquisa útil de pedaços de lona e massame esparsos nos cachopos. Como colher esses andrajos sem luz? Gilliatt contemplava tristemente a noite. Todas as estrelas e nem uma vela.

A massa líquida diminuíra na barca, a pressão externa aumentara. Crescia o inchamento do pano. Intumescia-se cada vez mais. Era um abscesso prestes a abrir. A situação, um momento melhorada, tornava-se ameaçadora.

Era imperiosamente necessário um batoque.

Gilliatt apenas tinha as suas roupas.

Tinha-as posto a secar nas saliências do rochedo da pequena Douvre. Foi buscá-las, e depositou-as na borda da pança.

Pegou no capote alcatroado e, ajoelhando-se na água, meteu-o no buraco, empurrando o tumor do pano para fora, e portanto esvaziando-o. Depois meteu a pele de carneiro, depois a camisa de lã, depois a japona. Tudo.

Tinha apenas uma roupa, tirou-a, e com a calça engrossou e apertou o batoque. Estava pronto e não parecia insuficiente.

O batoque saía pelo buraco, tendo o pano por invólucro.

A água querendo entrar, apertava o obstáculo, alargava-o utilmente na fratura, e consolidava-o. Era uma espécie de compressa exterior.

No interior, tendo sido empurrado apenas o centro da lona, ficava à roda do buraco e do batoque em rolete circular do pano tanto mais aderente quanto que as desigualdades da fratura o retinham. A via da água estava tapada.

Mas nada mais precário do que aquilo. Os relevos agudos da fratura que fixavam o pano podiam furá-lo e, por esses buracos, entraria a água. Gilliatt, na obscuridade, não descobria isso. Era pouco provável que o batoque durasse até de manhã. A ansiedade de Gilliatt mudou de forma, mas ele sentia-a crescer ao mesmo tempo que sentia quebrarem-se-lhe as forças.

Continuou a esvaziar o porão, mas os seus braços, no extremo esforço, apenas podiam levantar a pá da água. Estava nu e tremia.

Gilliatt sentia a aproximação sinistra da extremidade. Talvez houvesse uma vela ao largo, um pescador que por acaso passasse nas águas de Douvres podia ajudá-lo. Era chegado o momento em que se tornava necessário um colaborador. Um homem e uma lanterna, e tudo estaria salvo. Sendo dois, esvaziava-se facilmente a barca; uma vez estancada, sem aquela sobrecarga líquida, voltaria ao nível de flutuação, o buraco sairia da água, o reparo seria exeqüível, podia-se imediatamente substituir o batoque por uma peça de madeira, e o aparelho provisório por um conserto definitivo. Senão, era preciso esperar até de manhã, esperar a noite toda! Funesta demora que podia ser a perdição. Gilliatt tinha a febre da urgência. Se por acaso algum farol de navio estava à vista, Gilliatt poderia fazer sinais do alto da grande Douvre. O tempo estava calmo, não havia vento, não havia mar, um homem agitando-se no fundo estrelado do céu tinha a possibilidade de ser visto. Um capitão de navio, e mesmo um patrão de lancha, não anda de noite nas águas das Douvres sem pôr o óculo no escolho; é a precaução.

Gilliatt esperava que o vissem.

Escalou o casco da Durande, empunhou a corda e subiu à grande Douvre.

Nenhuma vela no horizonte. Nenhum farol.

A água estava deserta a perder de vista.

Nenhuma assistência possível e nenhuma resistência possível. Gilliatt, coisa que até então não sentira, sentiu-se desarmado.

A fatalidade obscura assenhoreara-se dele. Ele, com a barca, com a máquina da Durande, com o trabalho, com o bom êxito, com a coragem, tudo isso pertencia ao golfão. Já não tinha recurso de luta; tornava-se passivo. Como impedir a maré e a noite? O batoque era o único ponto de apoio. Gilliatt exaurira-se em compô-lo e completá-lo; fortificá-lo é que já não podia; o batoque devia ficar assim e fatalmente tinha acabado todo o esforço. O mar tinha à sua discrição aquele aparelho prematuro aplicado ao buraco. Como resistiria aquele obstáculo inerte? Chegara-lhe a vez de combater, depois de Gilliatt. Entrava o trapo, retirava-se o espírito. O intumescimento de uma onda bastava para abrir a fratura. Maior ou menor pressão, a questão era essa.

O desfecho ia nascer por uma luta maquinal entre duas quantidades mecânicas. Gilliatt não podia agora, nem ajudar o auxiliar, nem impedir o inimigo. Era apenas

o espectador da sua vida ou da sua morte. Aquele Gilliatt que tinha sido uma providência foi substituído no supremo instante por uma resistência inconsciente.

Nenhuma das provas e dos pavores que Gilliatt atravessara era igual a esta.

Chegando ao escolho Douvres, viu-se cercado, como que agarrado pela solidão. A solidão fazia mais que cercá-lo, envolvia-o. A um tempo mais de mil ameaças o desafiavam. O vento estava ali, prestes a soprar; ali estava o mar, prestes a rugir. Era impossível amordaçar a goela ao vento, era impossível desarmar a boca do mar. E contudo tinha ele combatido; homem, lutara corpo a corpo com o oceano, engalfinhara-se com a tempestade.

Tinha afrontado outras ansiedades e necessidades. Pelejou contra outros perigos. Foi-lhe preciso trabalhar sem ferramenta, carregar fardos sem auxílio, resolver problemas sem ciência, comer e beber sem provisões, dormir sem leito e sem teto.

Naquele rochedo, ecúleo trágico, puseram-lhe a questão as diversas fatalidades iníquas da natureza, mãe quando quer, algoz quando lhe apraz.

Venceu o isolamento, venceu a fome, venceu a sede, venceu o frio, venceu a febre, venceu o trabalho, venceu o sono. Encontrou no caminho os obstáculos coalizados. Depois da nudez, o elemento; depois da maré, a tempestade; depois da tempestade, a pieuvre; depois do monstro, o espectro.

Lúgubre ironia final. Naquele escolho donde Gilliatt contava sair triunfante, Clubin morto olhara rindo para ele.

Tinha razão o riso do espectro. Gilliatt via-se perdido. Via-se tão morto como Clubin.

O inverno, a fome, a fadiga, o desaparelhar do casco, o transporte da máquina, o equinócio, o vento, o trovão, a pieuvre, tudo isso nada era ao pé do arrombamento da pança. Podia-se ter, e Gilliatt os teve, contra o frio, o fogo; contra a fome, as conchas; contra a sede, a chuva; contra as dificuldades, a indústria e a energia; contra a maré e a tempestade, o quebra-mar; contra a pieuvre, a faca. Contra o arrombamento, nada.

O furacão deixava-lhe aquele adeus sinistro. Última repetição, pérfida estocada, ataque sorrateiro do vencido ao vencedor. A tempestade fugitiva lançava-lhe aquela flecha. A derrota olhava para trás e feria. Era o coup de Jarnac do abismo.

Combate-se a tempestade; mas como combater um esgoto?

Se o batoque cedesse, nada podia impedir que a pança fosse a pique. Era a ligadura da artéria que se rompe. E apenas fosse ao fundo da água, com a máquina dentro, não havia meio de arrancá-la.

O magnânimo esforço de dois meses titânicos acabava por um aniquilamento. Recomeçar era impossível. Gilliatt já não tinha nem forja, nem materiais. Talvez tivesse ele de ver, ao romper do dia, mergulhar-se lentamente e irremediavelmente toda a sua obra no golfão.

Coisa assustadora é sentir debaixo de si a força sombria.

O golfão atraía-o.

Engolida a barca, restava-lhe morrer de fome e de frio como o náufrago do rochedo Homem.

Durante dois longos meses, as consciências e as providências que existem no invisível tinham assistido a isto: de um lado a extensão, as vagas, os ventos, os relâmpagos, os meteoros, do outro lado um homem; de um lado o mar, do outro uma alma; de um lado o infinito, do outro um átomo. E houve batalha.

E abortava talvez aquele prodígio.

Assim chegou à impotência o inaudito heroísmo, acabava-se pelo desespero aquele formidável combate, aquela luta de Nada contra Tudo, aquela Ilíada de um.

Gilliatt, desvairado, contemplava o espaço.

Nem mesmo tinha roupa, estava nu diante da imensidade.

Então, no acabrunhamento de toda aquela enormidade desconhecida, não sabendo já o que queriam dele, confrontando-se com a sombra, em presença daquela obscuridade irredutível, no rumor das águas, das ondas, dos marulhos, das espumas, das lufadas, debaixo das nuvens, debaixo dos ventos, debaixo da vasta força esparsa, debaixo daquele misterioso firmamento das asas, dos astros e das tumbas, debaixo da intenção possível das coisas desmesuradas, tendo à roda de si e em baixo de si o oceano, e acima as constelações, debaixo do insondável, Gilliatt abateu-se, desistiu, deitou-se ao comprido sobre a rocha, voltado para as estrelas, vencido, e pondo as mãos diante da profundeza terrível, bradou ao infinito: “Piedade!”

Abatido pela imensidade, Gilliatt implorou.

Estava só naquela noite, em cima daquele rochedo, no meio daquele mar, caído de cansaço, semelhante a um fulminado, nu como o gladiador no circo, tendo em vez do circo o abismo, em vez das feras as trevas, em vez dos olhos do povo o olhar do ignoto, em vez das vestais as estrelas, em vez de César, Deus.

Pareceu-lhe que se dissolvia no frio, no cansaço, na impotência, na oração, na sombra e fecharam-se-lhe os olhos.

CAPÍTULO VII

HÁ UM OUVIDO NO IGNOTO

Correram algumas horas.

O sol levantava-se deslumbrante.

O seu primeiro raio iluminou na plataforma da grande Douvre uma forma imóvel. Era Gilliatt.

Continuava estendido em cima do rochedo.

Já não estremecia aquela nudez gelada e endurecida. Estavam lívidas as pálpebras fechadas. Era difícil dizer que não era um cadáver.

O sol parecia contemplá-lo.

Se aquele homem nu não estava morto, devia estar tão perto disso que bastaria o menor vento frio para acabá-lo.

Começou a soprar o vento, tépido e vivificante; era o hálito vernal de maio.

Entretanto, o sol subia no profundo céu azul; o seu raio menos horizontal ia-se purpureando. A luz fez-se calor. Cingiu Gilliatt.

Gilliatt não se mexia. Se respirava, era uma respiração quase extinta que mal poderia embaciar um espelho.

O sol continuava a sua ascensão cada vez menos oblíqua sobre Gilliatt. O vento, que era tépido ao princípio, tornou-se cálido.

Aquele corpo rígido e nu continuava sem movimento; entretanto a pele parecia menos lívida.

O sol, acercando-se do zênite, caía a prumo sobre a plataforma da Douvre. Vertia do alto do céu uma prodigalidade de luz; juntava-se a ela a vasta reverberação do

mar tranqüilo, o rochedo começava a ficar tépido e aquecia o homem. O peito de Gilliatt levantou-se com um suspiro. Vivia. O sol continuava as suas carícias, quase ardentes. O vento, que já era o vento do

meio-dia, e o vento de verão, aproximava-se de Gilliatt como uma boca, soprando molemente.

Gilliatt fez um movimento. Era inexprimível a tranqüilidade do mar, tinha um murmúrio de ama ao pé do filho. As vagas pareciam embalar o escolho.

As aves marinhas que conheciam Gilliatt voavam inquietas por sobre ele. Já não era o medo selvagem do princípio. Era um quê de terno e fraternal. Soltavam pequenos guinchos. Pareciam chamá-lo; uma gaivota que o amava, sem dúvida, teve a familiaridade de descer para junto dele. Começou a falar-lhe. Ele não parecia ouvi-la.

Ela saltou-lhe sobre o ombro e começou a brincar docemente com o bico nos seus lábios. Gilliatt abriu os olhos.

Os pássaros, alegres e ariscos, voaram. Gilliatt levantou-se e espreguiçou-se como o leão acordando, correu a bordo da plataforma e olhou para o intervalo das Douvres.

A pança estava intata. O batoque resistira: provavelmente o mar maltratara-o pouco. Tudo estava salvo.

Gilliatt já não estava cansado. Refizeram-se-lhe as forças. O desmaio foi um sono. Esvaziou a pança, pôs a avaria fora da flutuação, vestiu-se, bebeu, comeu, tornou-se alegre.

O buraco, examinado de dia, demandava mais trabalho do que Gilliatt pensou. Era

uma grande avaria. Gilliatt gastou o dia inteiro em repará-lo. No dia seguinte, de madrugada, depois de desfazer a tapagem e abrir a saída do estreito, vestido com os andrajos que tinham vencido a avaria, tendo consigo o cinto de Clubin e os 75.000 francos, em pé na pança consertada, ao lado da máquina salva, com um vento de feição e mar admirável, Gilliatt saiu do escolho Douvres.

Aproou sobre Guernesey. No momento em que se afastava do escolho, alguém que lá estivesse tê-lo-ia ouvido entoar a meia-voz a canção Bonny Dundee.

TERCEIRA PARTE

DÉRUCHETTE

LIVRO PRIMEIRO

NOITE E LUA

CAPÍTULO PRIMEIRO

O SINO DO PORTO

O Saint-Sampson de hoje é quase uma cidade; o Saint-Sampson de há quarenta anos era quase uma aldeia.

Chegando a primavera, e acabadas as vigílias de inverno, deitavam-se todos cedo. Saint-Sampson era uma antiga paróquia de tocar a recolher, tendo conservado o hábito de apagar cedo as luzes. Os habitantes deitavam-se e levantavam-se com o dia. As velhas aldeias normandas são voluntariamente galinheiros.

Digamos além disso que Saint-Sarpson, à exceção de algumas ricas famílias, é uma população de pedreiros e carpinteiros. O porto é um lugar de consertar navios. Durante o dia extraem-se pedras ou trabalham-se pranchas: aqui apicareta, além o martelo. Perpétuo meneio de pau e granito. À tarde tudo cai de cansaço e dorme como chumbo. Os rudes trabalhos fazem os duros sonos.

Uma noite dos princípios de maio, depois de ter por alguns instantes contemplado

o crescente da lua nas árvores e ouvido o passo de Déruchette passeando sozinha, ao fresco da noite, no jardim de Bravées, Mess Lethierry entrou para seu quarto situado sobre o porto e deitou-se. Doce e Graça estavam na cama. Exceto Déruchette, tudo dormia na casa. Portas e postigos estavam fechados. Ninguém andava nas ruas. Raras luzes, semelhantes ao piscar de olhos, que vão fechar-se, brilhavam aqui e ali nas janelas dos sótãos, anúncio do deitar dos criados. Já 9 horas tinham batido na velha torre romana, coberta de hera, que partilha com a Igreja de Saint-Brelade de Jersey a singularidade de ter por data quatro uns: 1111, o que significa mil cento e onze.

A popularidade de Mess Lethierry em Saint-Sampson vinha do bom êxito da Durande. Acabado este, fez-se o vácuo. Parece que o enguiço pega, e que as pessoas infelizes têm a peste consigo, tão rápida é a quarentena em que as metem. Os lindos filhos-famílias evitavam Déruchette. O isolamento em roda da casa de Lethierry era tal que nem mesmo se soube aí o pequeno grande acontecimento local que nesse dia agitou Saint-Sampson. O cura da paróquia, o Reverendo Joe Ebenezer Caudray, estava rico. O tio dele, o magnífico decano de Saint-Asaph, morrera em Londres. A notícia foi trazida pelo sloop de posta Cashmere, chegado da Inglaterra nessa manhã, e cujo mastro via-se no porto de Saint-Sampson. O Cashmere devia voltar para Southampton no dia seguinte ao meio-dia, e dizia-se que devia levar o reverendo cura, chamado à Inglaterra sem demora para a abertura oficial do testamento, sem contar as outras urgências de uma grande herança para recolher. Durante o dia Saint-Sampson dialogou confusamente. O Cashmere, o Reverendo Ebenezer, o tio morto, a riqueza, a partida, as promoções possíveis no futuro foram o fundo do burburinho. Só uma casa, que nada sabia, ficara silenciosa, a de Lethierry.

Mess Lethierry atirou-se à maca vestido.

Depois da catástrofe da Durande, atirar-se à maca era o recurso dele. Deitar-se no grabato é o recurso do prisioneiro, e Mess Lethierry era prisioneiro da tristeza. Deitava-se; era uma trégua, um descanso, uma suspensão de idéias. Dormia? Não. Velava? Não. Propriamente falando, havia dois meses e meio — já dois meses e meio —, Mess Lethierry estava em sonambulismo. Não era ainda senhor de si. Andava nesse estado misto e difuso que costumam ter os que sofreram grandes abatimentos. As suas reflexões não eram pensamentos, o seu sono não era repouso. De dia não era um homem acordado, de noite não era um homem adormecido. Estava em pé, estava deitado, eis tudo. Quando estava na maca, esquecia-se um pouco; a isso chamava ele dormir; as quimeras flutuavam nele e por sobre ele a nuvem noturna, cheia de faces confusas, atravessava-lhe o cérebro; o Imperador Napoleão ditava-lhe as suas memórias, havia muitas Déruchettes, estranhos pássaros pousavam nas árvores, as ruas de Lons-le-Saulnier tornavam-se serpentes. O pesadelo era o descanso do desespero. Passava as noites a sonhar e os dias a cismar.

As vezes ficava uma tarde inteira, imóvel à janela do quarto que dava para o porto, com a cabeça baixa, os cotovelos sobre o peitoril de pedra, as orelhas nas mãos, as costas voltadas para o mundo inteiro, o olhar fito na velha argola de ferro pregada no muro da casa a alguns pés da janela, onde outrora amarrava a Durande. Contemplava a ferrugem que invadia a argola.

Mess Lethierry estava reduzido à função maquinal de viver.

Os homens mais valentes, privados da sua idéia realizável, atingem a isto. É esse

o efeito das existências esvaziadas. A vida é a viagem, a idéia é o itinerário. Sem itinerário, pára-se. Perdido o alvo, morre a força. A sorte é um obscuro poder discricionário. Pode bater com as suas vergastas o nosso ser moral. O desespero é quase a destituição da alma. Só os grandes espíritos resistem. E ainda assim...

Mess Lethierry meditava continuamente, se a absorção pode chamar-se meditação, no fundo de uma espécie de precipício turvo. Escapavam-lhe palavras desoladoras como estas: “Só me resta pedir ao céu o meu bilhete de saída”.

Notemos uma contradição nesta natureza, complexa como o mar, de que Mess Lethierry era, por assim dizer, o produto; Mess Lethierry não rezava.

Ser impotente é uma força. Diante das nossas duas grandes cegueiras, o destino e a natureza, é na sua impotência que o homem acha o ponto de apoio, a oração.

O homem socorre-se do próprio medo; pede auxílio ao pavor; a ansiedade aconselha o ajoelhar.

A oração, enorme força própria da alma, é da mesma espécie que o mistério. A oração dirige-se à magnanimidade das trevas; a oração contempla o mistério com os olhos da sombra, e, diante da fixidez poderosa desse olhar súplice, sente-se um desarmamento possível no ignoto.

Essa possibilidade entrevista é já uma consolação.

Mas Lethierry não orava.

No tempo em que era feliz, Deus existia para ele, pode dizer-se em carne e osso; Lethierry falava-lhe, dava-lhe a sua palavra, dava-lhe quase, de quando em quando, um aperto de mão. Mas no infortúnio de Lethierry, fenômeno aliás freqüente, Deus eclipsava-se. Isto acontece a quem imagina um Deus bonachão.

Não havia para Lethierry, no estado a que chegara, mais que uma visão pura, o sorriso de Déruchette. Fora desse sorriso, tudo era negro.

Desde algum tempo, sem dúvida por causa da perda da Durande, cujo choque ela sentia, tornou-se raro o delicioso riso de Déruchette. Parecia preocupada. Extinguia-se-lhe a gentileza de pássaro e de criança. Já ninguém a via, ao tiro de peça da manhã, fazer uma cortesia e dizer ao sol: “Bom...jour!... queira entrar”. Tinha às vezes um ar sério, coisa triste naquela doce criatura. Entretanto fazia esforço para rir a Mess Lethierry, e para distraí-lo, mas a sua alegria apagava-se dia a dia, e cobria-se de poeira, como a asa de uma borboleta que um alfinete atravessou. Acrescentemos que, seja porque a tristeza do tio a fizesse triste, e há dores de reflexo, seja por outras razões, ela parecia agora inclinar-se muito para a religião. No tempo do antigo cura, Jaquemin Herodes, ela ia apenas quatro vezes à igreja. Agora era muito assídua. Não faltava a ofício algum, nem aos domingos, nem às quintas-feiras. As almas piedosas da paróquia viam com satisfação esta emenda. Porquanto é uma grande ventura para uma moça, que corre tantos perigos entre os homens, voltar-se para Deus.

Ao menos isso faz com que os pais fiquem tranqüilos a respeito de namoricos.

De noite, sempre que o tempo permitia, passeava no jardim, uma ou duas horas. Andava quase tão pensativa como Mess Lethierry, e sempre só. Déruchette deitava-se por último. Mas isto não impedia que Graça e Doce não a perdessem de vista, por este instinto de espionar que anda ligado à domesticidade; espionar desenfada de servir.

Quanto a Mess Lethierry, no estado obscurecido em que se achava o seu espírito, não percebia essas pequenas alterações nos hábitos de Déruchette. Demais, ele não nascera aio. Nem mesmo notava a pontualidade de Déruchette aos ofícios da paróquia. Tenaz no seu preconceito contra as coisas e os homens do clero, teria visto sem prazer essas freqüências à igreja.

Não é que a sua situação moral não estivesse em caminho de modificar-se. O pesar é nuvem e muda de forma.

As almas robustas, como dissemos, são às vezes, em certas desgraças, destituídas quase, mas não de todo. Os caracteres viris, tais como Lethierry, reagem num tempo dado. O desespero tem graus ascendentes. Do acabrunhamento sobe-se ao abatimento, do abatimento à aflição, da aflição à melancolia. A melancolia é um crepúsculo. Aí o sofrimento funde-se em sombria alegria.

A melancolia é a ventura de ser triste.

Essas atenuações elegíacas não eram feitas para Lethierry; nem a natureza do seu temperamento, nem o gênero da sua desgraça, comportavam essas variações. Somente, no momento em que o encontramos, a cisma do seu primeiro desespero tendia a dissipar-se; sem estar menos triste, Lethierry estava menos inerte; continuava a estar sombrio, mas já não estava amortecido; voltava-lhe uma certa percepção dos fatos e dos acontecimentos; e começava a sentir alguma coisa desse fenômeno que se poderia chamar a entrada na realidade.

Assim que, de dia, na sala baixa, não escutava as palavras, mas ouvia-as. Graça veio uma manhã, triunfante, dizer a Déruchette que Mess Lethierry rasgara o invólucro do seu jornal.

Esta meia aceitação da realidade é em si um bom sintoma. É a convalescença. As grandes desgraças aturdem. Sai-se do aturdimento por aquele modo. Mas essa melhora parece ao princípio um agravo. O estado do sonho anterior embotava a dor; antes via-se turvo, sentia-se pouco; agora a vista é clara, não se escapa a coisa alguma, sangra-se por tudo. Aviva-se a chaga. A dor acentua-se com todos os pormenores que se vêem. Revê-se tudo na memória. Achar tudo, é lamentartudo. Há nesta volta à realidade todas as provas amargas. Fica-se melhor e pior. É

o que Lethierry sentia. Sofria mais distintamente.

O que trouxera Mess Lethierry ao sentimento da realidade foi um abalo. Digamos qual foi ele.

Uma tarde, a 15 ou 20 de abril, ouviu-se na porta da sala baixa as duas pancadas que anunciavam o correio. Doce abriu a porta. Era uma carta.

Vinha do mar a carta. Era dirigida a Mess Lethierry. Trazia o selo de Lisboa.

Doce levou a carta a Mess Lethierry que estava fechado no quarto. Ele pegou na carta, pô-la maquinalmente na mesa, e nem olhou. A carta ficou ali uma boa semana sem ser aberta.

Aconteceu, porém, que uma manhã Doce disse a Mess Lethierry:

— Devo tirar a poeira de que está cheia a carta? Lethierry pareceu acordar.

— Sim — disse ele.

E abriu a carta. Leu isto: “No mar, 10 de março. “Mess Lethierry, de Saint-Sampson. “Receberá o senhor com prazer notícias minhas. “Estou no Tamaulipas, em viagem para não voltar. Há na

equipagem um marujo Ahier-Tostevin, de Guernesey, que há de voltar aí, e que lhe há de contar alguma coisa. Aproveito o encontro do navio Hernán Cortés, com destino a Lisboa, para mandar-lhe esta carta.

“Espante-se. Sou um homem honesto. “Tão honesto como o Sr. Clubin. “Devo crer que já sabe o que aconteceu; contudo, não será

mal que lhe lembre o caso. “Ei-lo: “Restituí-lhe os seus capitais. “Tomei-lhes emprestados, um pouco incorretamente, 50.000

francos. Antes de deixar Saint-Malo, entreguei, para o senhor, ao seu homem de confiança, o Sr. Clubin, três notas do banco de 1.000 libras cada uma, o que faz 75.000 francos. Creio que há de achar esse reembolso suficiente.

“O Sr. Clubin tratou dos seus interesses, e recebeu o seu dinheiro com energia. Parece-me um homem zeloso; é por isso que o advirto.

“O seu homem de confiança, “RANTAINE.”

“Post scriptum. — O Sr. Clubin tinha um revólver, e foi por isso que não tive recibo.” Tocai um torpedo, tocai uma garrafa de Leyde carregada, e sentireis o mesmo que

sentiu Mess Lethierry lendo esta carta.

Debaixo daquela sobrecarta, naquela folha de papel dobrada em quatro, a que, no primeiro momento, dera pouca atenção, havia uma comoção.

Lethierry reconheceu a letra, reconheceu a assinatura. Quanto ao fato, nada compreendeu ao princípio.

A comoção foi tal que lhe pôs, por assim dizer, o espírito em pé.

O fenômeno dos 75.000 francos que Rantaine confiara a Clubin era um enigma, e era por isso o lado útil do abalo, visto que obrigava Lethierry a refletir. Fazer uma conjetura é, para o pensamento, uma ocupação sã. Acorda o raciocínio, convoca-se a lógica.

Desde algum tempo, a opinião pública de Guernesey ocupava-se em julgar Clubin,

o honrado homem que por tantos anos foi unanimemente admitido na circulação da estima. Interrogavam-se uns aos outros, duvidava-se, apostava-se pró e contra. Apareceram singulares esclarecimentos. Clubin começava a aparecer em toda a luz, isto é, tornava-se negro.

Houve em Saint-Maio uma devassa judiciária para saber onde parava o guarda-costa 619. A perspicácia legal enganara-se, o que lhe acontece muitas vezes. Partia da suposição de que o guarda-costa fora atraído por Zuela e embarcado no Tamaulipas para o Chile. Esta hipótese engenhosa trouxe consigo muitas aberrações. A miopia da justiça não chegou a ver Rantaine. Mas no decurso da pesquisa os magistrados descobriram outros rastos; complicara-se o negócio que já era obscuro. Clubin entrava no enigma. Havia uma coincidência, alguma relação talvez, entre a partida do Tamaulipas e a perda da Durande. Na taverna da porta Dinan, onde Clubin acreditava não ser conhecido, foi conhecido; o taverneiro falou; Clubin tinha comprado uma garrafa de aguardente. Para quem? O armeiro da Rua de São Vicente também falou; Clubin comprara um revólver. Contra quem? O dono da hospedaria João também falou: Clubin costumava ter ausências inexplicáveis. O Capitão Gertrais-Gaboureau também falou; Clubin quis partir, apesar de avisado e sabendo que devia haver nevoeiro. A tripulação da Durande também falou. O carregamento era falho e mal arranjado, negligência fácil de compreender, se o capitão quer perder o navio. Também falou o passageiro guernesiano; Clubin cuidou ter naufragado nos Hanois. Também falou a gente de Torteval; Clubin foi ali alguns dias antes do naufrágio e dirigiu-se para Plainmont, vizinho dos Hanois. Levava uma mala, e não voltou com ela. Igualmente falaram os furta-ninhos; a história deles parecia prender-se ao desaparecimento de Clubin, contanto que, em vez de almas do outro mundo, fossem contrabandistas. Finalmente a própria casa mal-assombrada de Plainmont falou; algumas pessoas, resolvidas a se esclarecerem, tinham-na escalado, e o que acharam dentro? Exatamente a mala de Clubin.

Os magistrados de Torteval apreenderam a mala e abriram-na. Continha provisões de boca, um óculo, um cronômetro, roupas de homem e roupa branca marcada com as iniciais de Clubin. Tudo isso, nas conversas de Saint-Maio e Guernesey, ia-se acumulando, e já roçava pela fraude. Comparavam-se sintomas confusos; averiguavam-se o desdém singular pelos conselhos, a afronta do nevoeiro, a negligência na arrumação das cargas, a garrafa de aguardente, o timoneiro ébrio, a substituição do capitão ao timoneiro, o movimento do leme, ao menos desastrado. O heroísmo em ficar no navio tornava-se velhacaria. Demais, Clubin enganou-se no escolho. Admitida a intenção de fraude, compreendeu-se a escolha dos Hanois, a facilidade de nadar para a costa, e a residência na casa mal-assombrada até chegar a ocasião de fugir. A mala acabava a demonstração. Qual

o elo que prendia esta aventura à do guarda-costa, ainda não se tinha descoberto. Adivinhava-se uma correlação; nada mais. Entrevia-se, quanto a esse homem, o guarda-costa 619, um drama trágico. Clubin talvez não representasse nele, mas descobriam-no nos bastidores.

Nem tudo se explicava pela fraude. Havia um revólver sem emprego. O revólver entrou talvez no caso do guarda.

O faro do povo é fino e acertado. O instinto público é hábil nestas restaurações da verdade feitas de pedaços soltos. Somente, nesses fatos, de que resultava uma fraude verossímil, havia sérias incertezas.

Tudo concordava; mas não havia base.

Não se perde um navio pelo gosto de perdê-lo. Não se correm os riscos do nevoeiro, do escolho, do nadar, do refúgio e da fuga, sem um interesse. Qual seria

o interesse de Clubin?

Via-se o ato, não se via o motivo.

Daí vinha a dúvida a muitos espíritos. Onde não há motivo, parece que não há ato.

A lacuna era grave.

Ora, a carta de Rantaine vinha preencher a lacuna.

A carta dava o motivo de Clubin. Queria roubar 75.000 francos.

Rantaine era o Deus ex machina. Descia das nuvens com uma vela na mão.

A carta era o esclarecimento final.

Explicava tudo essa carta e, de mais a mais, anunciava uma testemunha: Ahier-Tostevin.

Coisa decisiva, sabia-se agora o emprego do revólver. Rantaine estava incontestavelmente informado de tudo. A sua carta fazia tocar tudo com o dedo.

Nenhuma atenuante possível na malvadeza de Clubin. Premeditara o naufrágio, e a prova era a mala levada para a casa Plainmont. E supondo-o inocente, admitindo

o naufrágio fortuito, não devia ele, no último momento, decidido ao sacrifício, entregar os 75.000 francos aos homens que se salvaram na chalupa? Era evidente. Mas que era feito de Clubin? Foi provavelmente vítima do seu erro. Pereceu sem dúvida no escolho Douvres.

O andaime de conjeturas, todas conformes, na realidade, ocupou durante muitos dias o espírito de Mess Lethierry. A carta de Rantaine teve a utilidade de obrigá-lo a pensar. Teve um primeiro abalo de surpresa, depois fez esforço de refletir. Fez outro esforço mais difícil ainda para informar-se. Aceitou e procurou mesmo as conversas. No fim de oito dias tornou-se prático até certo ponto; o espírito fortaleceu-se e quase ficou curado. Saiu do estado turvo.

A carta de Rantaine, admitindo que Mess Lethierry tivesse algum dia a esperança do reembolso, fez desaparecer a última probabilidade.

À catástrofe da Durande ajuntava-se o naufrágio dos 75.000 francos. A carta empossava-o do dinheiro tanto quanto lhe bastava para sentir a perda. Mostrava-lhe o fundo da ruína.

Daí veio um sofrimento novo e agudíssimo, que já indicamos. Começou, coisa que há dois meses não fazia, a preocupar-se com a casa, do que havia, e que reformas devia fazer. Tédio eriçado de mil pontas, quase pior que o desespero. Odiosa coisa é suportar a desgraça por miúdo, disputar passo a passo ao fato realizado o terreno que ele vem tomar. Aceita-se a massa do infortúnio, a poeira não. O conjunto acabrunha, o pormenor tortura. Há pouco a catástrofe fulminava, agora mortifica.

Essa é a humilhação agravante do infortúnio. É uma segunda anulação que vem ajuntar-se à primeira, e feia. Desce-se um degrau do nada. Depois do sudário, o andrajo.

Nada mais triste do que pensar em decair.

Parece simples estar arruinado. Golpe violento; brutalidade da sorte; é a catástrofe uma vez por todas. Seja. Aceita-se. Tudo está acabado. Fica-se arruinado. Está dito, morreu. Qual! Vive-se. É o que no dia seguinte começa-se a sentir. Por quê? Por alfinetadas. Passa um homem sem tirar o chapéu, chovem as contas das lojas, ri-se um inimigo. Ri-se talvez do último trocadilho de Arnal, mas é o mesmo, o trocadilho pareceu-lhe mais engraçado, exatamente porque estás pobre. Lês a tua decadência até nos olhares indiferentes; as pessoas que jantavam em tua casa acham demasiado os três pratos da tua mesa; os teus defeitos saltam aos olhos de todos; as ingratidões, não tendo que esperar mais nada, tiram a máscara; todos os imbecis predisseram o que te acontece; os maus dilaceram-te, os piores lamentam-te. E mais cem pormenores mesquinhos. A náusea sucede às lágrimas. Bebias vinho, beberás sidra. Duas criadas! Uma seria demais. Devia-se despedir esta, sobrecarregar aquela. Há flores demais no jardim; planta antes batatas. Davas flores aos amigos, vende-as agora no mercado. Quanto aos pobres, já não deves pensar neles; também não és pobre? As toaletes, questão pungente. Diminuir uma fita a uma mulher, que suplício! Recusar o enfeite, a quem te dá a beleza! Ter ares de avarento! Talvez que ela te diga: “Pois que! Tiraste as flores do meu jardim, e agora as tiras do meu chapéu!”

Ai triste! Condená-la aos vestidos velhos! A mesa de família é silenciosa. Parece-te que te querem mal. Os rostos amados parecem preocupados. Eis o que é a decadência. Cumpre-te morrer todos os dias. Cair não é nada, é a fornalha. Decair é o fogo lento.

A queda é Waterloo; a decadência é Santa Helena. A sorte, encarnada em Wellington, tem ainda alguma dignidade; mas, quando se faz Hudson Lowe, que vilania! O destino torna-se um bigorrilhas. Vê-se o homem de Campoformio querelando por um par de meias de seda. Agorentou-se a Inglaterra, agorentando Napoleão.

Essas duas fases, Waterloo e Santa Helena, reduzidas às proporções burguesas, todos as atravessam.

Na noite de que falamos e que era uma das primeiras noites de maio, Lethierry, deixando Déruchette passear ao luar, no jardim, deitou-se mais triste que nunca.

Rolavam-lhe no espírito todas essas minúcias mesquinhas e desagradáveis, complicações de fortunas perdidas, todas essas preocupações de terceira ordem, que começam por ser insípidas e acabam lúgubres. Triste acumulação de misérias. Mess Lethierry sentia a sua queda irremediável. Que devia fazer agora? Que seria dele? Que sacrifícios devia impor a Déruchette? Quem devia despedir, Doce ou Graça? Venderia a casa? Seria obrigado a abandonar a ilha? Não ser coisa alguma onde se foi tudo é uma decadência insuportável.

E pensar que estava acabado! Recordar as viagens da França ao arquipélago, a partida às terças-feiras, a chegada às sextas, a chusma no cais, aqueles grandes carregamentos, aquela indústria, aquela prosperidade, aquela navegação direta e altiva, aquela máquina sujeita à vontade do homem, aquela caldeira onipotente, aquele fumo, aquela realidade! O vapor é a bússola completa; a bússola indica o caminho, o vapor segue por ele. Uma propõe, a outra executa. Onde estava agora a sua Durande, aquela magnífica e soberana Durande, aquela senhora do mar, aquela rainha que o fazia rei? Ter sido o homem idéia, o homem triunfo, o homem revolução! E renunciar! Abdicar! Não existir! Fazer rir aos outros! Ser um saco onde já houve alguma coisa! Ser o passado quem foi o futuro! Merecer a compaixão altiva dos idiotas! Ver triunfar a rotina, a obstinação, o ramerrão, o egoísmo, a ignorância! Ver começar outra vez as viagens dos cúteres góticos sacudidos pela vaga! Ver a antiqualha rejuvenescer! Perder a vida! Perder a luz e sofrer o eclipse! Ah! Como era belo ver sobre as vagas aquele cano orgulhoso, aquele prodigioso cilindro, aquele pilar de um capitel de fumo, aquela coluna maior que a de Vendôme, porque havendo nesta apenas um homem, ostentava-se naquela o progresso! O oceano está por baixo; era a certeza em pleno mar. Viu-se aquilo, naquela pequena ilha, naquele pequeno porto, naquele pequeno Saint-Sanlpson? Sim, viu-se! Pois quê! Viu-se e não se verá mais!

Toda esta obsessão da saudade mortificava Lethierry. Há soluços no pensamento. Talvez nunca sentisse mais amargamente a sua perda. Depois de tais excessos agudos costuma vir um entorpecimento. Debaixo desse peso de tristeza Lethierry adormeceu.

Ficou cerca de duas horas com as pálpebras fechadas, dormindo pouco, sonhando muito, febril. Esses torpores cobrem um obscuro e fatigante trabalho do cérebro. Pela meia-noite, um pouco antes, ou um pouco depois, Lethierry sacudiu o adormecimento. Acordou, abriu os olhos, a janela estava em frente à maca, viu uma coisa extraordinária.

Havia uma forma diante da janela. Forma inaudita. O cano de um vapor.

Mess Lethierry levantou-se de um salto. A maca oscilou, como se fosse abalada pela tempestade. Lethierry olhou. Havia na janela uma visão. O porto, iluminado pela lua, refletia-se nos vidros, e, no meio do luar e próxima à casa, surgia uma soberba forma reta, redonda e negra.

Era um tubo de máquina.

Lethierry precipitou-se para fora da maca, correu à janela, levantou a vidraça, inclinou-se e reconheceu.

O cano da Durande estava diante dele.

Estava no lugar do costume.

As quatro correntes prendiam o cano à borda de um barco dentro do qual distinguia-se uma massa de forma complicada.

Lethierry recuou, voltou as costas à janela e caiu assentado na maca. Voltou-se outra vez e viu a mesma visão.

Um momento depois, apenas o espaço de um relâmpago, estava ele no cais com uma lanterna na mão.

À velha argola onde se prendia a Durande estava amarrada uma barca trazendo um pouco à ré um vulto maciço donde saía o cano que ficava em frente à janela. A proa da barca prolongava-se além do canto da parede da casa e encostada ao cais.

Não havia ninguém na barca.

A barca tinha uma forma especial, conhecida por todos em Guernesey; era a pança.

Lethierry pulou dentro. Correu à massa que ficava além do mastro. Era a máquina.

Era ela, inteira, completa, intata, sentada sobre o fundo de metal; a caldeira estava com todas as peças; a árvore das rodas estava arranjada e amarrada perto da caldeira; a bomba estava no seu lugar; nada faltava.

Lethierry examinou a máquina.

A lanterna e a lua ajudaram-lhe o exame.

Passou em revista todo o mecanismo.

Viu as duas caixas que estavam ao pé. Olhou para a árvore das rodas.

Foi ao camarote; estava vazio.

Voltou à máquina e apalpou-a. Meteu a cabeça na caldeira. Ajoelhou-se para ver dentro.

Colocou na caldeira a lanterna que iluminava todo o mecanismo e produzia o efeito de uma máquina acesa.

Depois deu uma gargalhada, e, levantando-se, com o olhar fixo na máquina e os braços estendidos para o cano, gritou: “Socorro!”

O sino do porto ficava perto. Lethierry correu a ele, segurou a corda, e começou a sacudir o sino impetuosamente.

CAPÍTULO II

AINDA O SINO DO PORTO

Gilliatt, com efeito, depois de uma travessia sem incidente, mas um pouco demorada por causa do peso do carregamento, chegou a SaintSampson de noite, mais perto das 10 horas que das 9.

Gilliatt calculara a hora. A maré começava a encher. Havia luz e água; podia-se entrar no porto.

O porto estava adormecido. Havia alguns navios ancorados, cascos sem vergas, cestos de gávea recolhidos e sem faróis. Descobria-se no fundo alguns navios em conserto postos no estaleiro. Grandes cascos desmastreados, levantando acima das amuradas furadas as pontas curvas de seus membros desnudos, semelhantes a escaravelhos mortos deitados de costas e com as pernas para o ar.

Gilliatt, apenas entrou no porto, examinou o cais. Não havia luz em parte alguma, nem na casa de Lethierry nem nas outras. Não havia ninguém na rua, exceto talvez um homem que acabava de entrar ou sair do presbitério. E ainda assim poderia ser que não fosse uma pessoa, porque a noite esfuma tudo quanto desenha e o luar faz tudo indeciso. A distância ajudava a obscuridade. O presbitério de então era situado do outro lado do porto, no lugar onde outrora havia uma estiva coberta.

Gilliatt encostou-se silenciosamente ao muro e amarrou a pança na argola da Durande, debaixo da janela de Mess Lethierry.

Depois saltou para terra.

Gilliatt, deixando atrás de si a pança, rodeou a casa, atravessou uma viela, depois outra, nem mesmo olhou para o entroncamento do caminho que ia ter à casa dele, e no fim de alguns minutos parou no recanto da parede onde havia um pé de malva silvestre com flores cor-de-rosa em junho, azevinho, hera e urtigas. Era daí que, escondido no espinheiro, assentado na pedra, tantas vezes, nos dias de verão e durante longas horas e meses inteiros, tinha ele contemplado, por cima do muro, tão baixinho que tentava um pulo, o jardim de Bravées e, através das árvores, duas janelas de um quarto da casa. Achou a pedra, o espinheiro, o muro baixo, o ângulo obscuro, e, como um animal que volta ao buraco, antes escorregando que andando, Gilliatt agachou-se. Depois de assentado não fez movimento algum. Olhou. Tornou a ver o jardim, as alamedas, as grutas, os canteiros, a casa, as duas janelas do quarto. A lua mostrava-lhe aquele sonho. Era-lhe horrível ter de respirar. Gilliatt forcejava por conter a respiração.

Parecia-lhe ver um paraíso fantasma. Tinha medo que lhe voasse tudo aquilo. Era quase impossível que aquelas coisas estivessem diante dele; e se estavam, eram sem dúvida prestes a esvair-se como acontece com as coisas divinas. Bastava um sopro para desaparecer tudo. Gilliatt tremia por isso.

Perto dele, e em frente, no jardim, à beira de uma alameda, havia um banco de pau pintado de verde. Os leitores lembram-se desse banco.

Gilliatt contemplava as duas janelas. Pensava em alguém que estivesse dormindo naquele quarto. Quisera não estar onde estava. Preferia morrer a retirar-se. Pensava numa respiração levantando um seio. Ela, aquela miragem, aquela alvura dentro de uma nuvem, aquela obsessão de seu espírito, estava ali! Gilliatt pensava no inacessível que dormia, e tão perto, e ao alcance do seu êxtase; pensava na mulher impossível adormecida e visitada também pelas quimeras; na criatura desejada, remota, esvaecente, fechando os olhos com a fronte na mão; no mistério do sono da criatura ideal; nos sonhos que pode ter um sonho. Não ousava pensar além e pensava; arriscava-se nas faltas de respeito do devaneio; perturbava-o a quantidade de forma feminina que pode haver no anjo. A hora noturna faz com que os olhos tímidos lancem furtivos olhares; censurava-se por ir tão longe, receava profanar com a reflexão; a seu pesar, constrangido, trêmulo, Gilliatt olhava para o invisível. Sentia a comoção e quase o sofrimento de imaginar uma saia numa cadeira, um manto atirado ao tapete, um cinto desenlaçado, um lenço de pescoço. Imaginava um colete, um atacador arrastando no chão, meias, ligas. Tinha a alma nas estrelas.

As estrelas são feitas tanto para o coração humano de um pobre, como para o coração de um milionário. Em certo grau de paixão todos os homens são sujeitos às fascinações profundas. Se a natureza é áspera e primitiva, razão de mais. A condição selvagem aumenta o sonho.

A fascinação é uma plenitude que transborda como todas. Ver as janelas era quase demais para Gilliatt.

De repente, viu ele a própria moça.

Dentre os ramos de uma moita, já espessa pela primavera, saiu com inefável lentidão, fantástica e celeste, uma figura, um vestido, um rosto divino, quase um clarão no meio do luar.

Gilliatt sentiu-se desfalecer. Era Déruchette.

Déruchette aproximou-se. Parou. Deu alguns passos para afastar-se, parou ainda, depois voltou e assentou-se no banco de pau. A lua batia nas árvores, algumas nuvens erravam por entre as estrelas pálidas, o mar falava às coisas da sombra, a meia-voz, a cidade dormia, do horizonte subia uma neblina, a melancolia era profunda.

Déruchette inclinava a fronte com aquele olhar pensativo que contempla atentamente o vácuo; estava sentada de perfil, com a cabeça quase descoberta, tendo um barretinho desatado que lhe deixava ver na nuca delicada a origem dos cabelos, enrolava maquinalmente nos dedos uma fita do barrete, a penumbra modulava as suas mãos de estátua, o vestido era de uma dessas cores que de noite se fazem brancas, as árvores moviam-se como se fossem suscetíveis ao encanto que ressumbrava dela, via-se a pontinha de um de seus pés, havia nos seus cílios fechados aquela vaga contração que anuncia uma lágrima represa ou um pensamento repelido, os seus braços tinham a indecisão fascinante de não achar onde encostar-se, misturava-se-lhe à postura alguma coisa flutuante, era antes um clarão que uma luz, antes uma graça que uma deusa, as dobras da barra da saia eram delicadas, o seu admirável rosto meditava virginalmente. Estava tão perto, que era terrível. Gilliatt ouvia-a respirar.

Havia ao longe um rouxinol que cantava. A passagem do vento nos ramos punha em movimento o inefável silêncio noturno. Déruchette, gentil e sagrada, aparecia naquele crepúsculo como o resultado daqueles raios e daqueles perfumes; o encanto imenso e esparso ia ter misteriosamente a ela, nela condensava-se, era a sua irradiação. Parecia a alma flor de toda aquela sombra.

Toda aquela sombra, flutuante em Déruchette, pesava sobre Gilliatt. Estava desvairado. O que ele sentia não cabe dizê-lo em palavras; a comoção é sempre nova e as palavras já serviram muito; daí vem a impossibilidade de exprimir a comoção. Existe o abatimento do encanto. Ver Déruchette, vê-la ela própria, ver-lhe o vestido, ver-lhe o barrete, ver-lhe a fita que ela enrolava nos dedos, pode-se acaso imaginar semelhante coisa?

Estar perto dela, era acaso possível? Ouvi-la respirar; respirava pois! Então os astros respiram. Gilliatt estremecia. Era o mais miserável e o mais inebriado dos homens. Não sabia que fazer. O delírio de vê-la esmagava-o. Pois quê! Era ela quem ali estava, era ele quem estava ali! As suas idéias, deslumbradas e fixas, paravam naquela criatura como se fora um rubi. Contemplava aquela nuca e aqueles cabelos. Gilliatt nem mesmo pensava que tudo aquilo lhe pertencia, que em pouco tempo, talvez amanhã, ele teria o direito de tirar-lhe aquela coifa e deslaçar aquela fita.

Sonhar até esse ponto era um excesso de audácia que ele não poderia conceber um momento. Tocar com o pensamento e quase tocar com a mão. O amor era para Gilliatt como mel para urso, o sonho exímio e delicado. Pensava confusamente. Não sabia o que tinha. O rouxinol cantava. Ele sentia-se expirar.

Levantar-se, galgar o muro, aproximar-se, dizer “sou eu”, falar a Déruchette, foi idéia que não teve. Se a tivesse, fugiria. Se alguma coisa semelhante a um pensamento chegou a despontar no seu espírito, era que Déruchette estava ali, que ele não tinha necessidade de mais coisa alguma, e que a eternidade começava.

Um rumor arrancou a ambos, ela do devaneio, ele do êxtase.

Andava alguém no jardim. Não se via por causa das árvores. Era um passo de homem.

Déruchette levantou os olhos.

Os passos aproximaram-se e cessaram. Quem quer que era, parou. Devia estar perto. O caminho onde estava o banco perdia-se entre duas moitas. Era aí que estava essa pessoa, nesse intervalo, a poucos passos do banco.

O acaso tinha disposto a espessura dos ramos de tal modo, que Déruchette via a pessoa, sem que Gilliatt a visse.

O luar projetava no chão, fora das moitas, e até ao banco, uma sombra. Gilliatt viu essa sombra.

Olhou para Déruchette.

Ela estava pálida. A boca, entreaberta, esboçava um grito de surpresa. Levantou-se um pouco do banco, tornou a sentar-se; havia na sua atitude uma mistura de fuga e de fascinação. O seu pasmo era um encanto cheio de receio. Tinha nos lábios quase a irradiação do sorriso, e um reflexo de lágrimas nos olhos. Estava como que transfigurada por aquela presença. Não parecia que a criatura ali chegada fosse da terra. Havia no olhar de Déruchette a reverberação de um anjo.

A pessoa, que era apenas uma sombra para Gilliatt, falou enfim. Saiu das moitas uma voz, mais doce que uma voz de mulher, e voz de homem, contudo. Gilliatt ouviu estas palavras:

— Vejo-a todos os domingos e quintas-feiras; disseram-me que outrora a senhora não ia lá tantas vezes. Fizeram este reparo, peço-lhe perdão. Nunca lhe falei, era

o meu dever; falo-lhe hoje, é meu dever. Antes de tudo devo dirigir-me à senhora. O Cashmere parte amanhã; foi por isso que eu vim. A senhora passeia todas as noites neste jardim. Eu fazia mal em conhecer tantos os seus hábitos se não tivesse o pensamento que tenho. A senhora é pobre. Eu sou rico desde esta manhã. Quer-me por seu marido?

Déruchette ajuntou as duas mãos como uma suplicante, e olhou para aquele que falava, muda, olhar fixo, trêmula da cabeça aos pés.

A voz continuou:

— Amo-a, Deus não fez o coração do homem para que se cale. Se ele promete a eternidade, é porque quer o consórcio. Há para mim na terra uma mulher, é a senhora. Penso na senhora como numa oração. A minha fé está em Deus, na senhora a minha esperança. As asas que tenho é a senhora quem as traz. A senhora é a minha vida, e já o meu céu.

— Senhor — disse Déruchette —, não há na casa ninguém para responder-lhe.

A voz soou de novo:

— Tive este lindo sonho. Deus não proíbe os sonhos. A senhora faz-me o efeito de uma glória. Amo-a apaixonadamente. A santa inocência é a senhora. Sei que esta é a hora em que todos estão dormindo, mas eu não tinha outra ocasião à minha escolha. Lembra-se daquele passo da Bíblia que nos leram? Gênesis, capítulo 25. Muitas vezes pensei nele. Reli-o muitas vezes. O Reverendo Herodes dizia-me: “Élhe preciso uma mulher rica”. Eu respondi: “Não, preciso de uma mulher pobre”. Falo-lhe de longe, e recuarei mesmo se a senhora não quiser que a minha sombra toque em seus pés. É a senhora a soberana; virá a mim se quiser. Assim o espero. A senhora é a forma viva da bênção.

— Senhor — balbuciou Déruchette —, eu não sabia que reparavam em mim aos domingos e quintas-feiras.

A voz continuou:

— Nada se pode contra as coisas angélicas. Toda a lei é amor. O casamento é Canaã. A senhora é a beleza prometida. Ave, cheia de graça!

Déruchette respondeu:

— Eu pensava que não fazia mal indo como as outras pessoas à igreja.

A voz continuou:

— Deus pôs as suas intenções nas flores, na aurora, na primavera, e Ele quer que se ame. A senhora é bela nesta sacra obscuridade da noite. Este jardim foi cultivado pela senhora, e no perfume há alguma coisa de seu hálito. Os encontros das almas não dependem delas. Não é culpa nossa. A senhora ia à igreja, nada de mais; eu estava lá, nada de mais. Nada fiz senão sentir que a amava. Algumas vezes os meus olhos levantaram-se para a senhora. Fiz mal, mas como não? Foi contemplando-a que eu fiquei assim. Não podia impedi-lo. Há vontades misteriosas acima de nós. O primeiro templo é o coração. Ter a sua alma em minha casa, tal é o paraíso terrestre a que eu aspiro. Aceita? Enquanto fui pobre nada disse. Eu sei a sua idade. Tem vinte anos, eu tenho 26. Parto amanhã, se me recusa não voltarei. Quer ser minha noiva? Os meus olhos já lhe fizeram esta pergunta mais de uma vez e a meu pesar. Amo-a, responda-me. Falarei a seu tio quando ele puder receber-me, mas em primeiro lugar à senhora. É a Rebeca que se pede Rebeca. Só se me não ama.

Déruchette inclinou a fronte e murmurou:

— Oh! Eu o adoro!

Isto foi dito em voz tão baixa que só Gilliatt ouviu. Ela abaixou a fronte, como se o rosto na sombra pusesse na sombra o pensamento.

Houve uma pausa. As folhas das árvores não se mexiam. Era esse momento severo e aprazível em que o sono das coisas ajunta-se ao sono das criaturas e em que a noite parece escutar as palpitações da natureza. Neste recolhimento elevava-se, como uma harmonia que completa um silêncio, o ruído imenso do mar.

A voz continuou:

— Senhora.

Déruchette estremeceu.

A voz continuou:

— Estou esperando.

— O que espera?

— A sua resposta.

Deus a ouviu — disse Déruchette.

Então a voz tornou-se quase sonora e ao mesmo tempo mais doce que nunca. Estas palavras saíram da moita como de uma sarça ardente.

— Tu és minha noiva. Levanta-te e vem. Que o teto azul, onde estão os astros, assista a esta aceitação da minha alma pela tua alma, e que o nosso primeiro beijo se misture ao firmamento!

Déruchette levantou-se e ficou um instante imóvel e com o olhar fixo diante de si, fitando, sem dúvida, outro olhar. Depois, a passos lentos, com a cabeça erguida, os braços pendentes e os dedos das mãos abertos, como quando se caminha para um amparo desconhecido, ela dirigiu-se para a moita e desapareceu.

Um instante depois, em vez de uma sombra na areia, havia duas, confundiam-se ambas, e Gilliatt via a seus pés o abraço daquelas duas sombras.

O tempo corre de nós como de uma ampulheta, e nós não temos o sentimento dessa fuga, sobretudo em certos instantes supremos. De um lado aquele par, que ignorava a testemunha e não a via, do outro aquela testemunha que não via os dois, mas que sabia que eles ali estavam, quantos minutos ficaram assim nessa misteriosa suspensão? Seria impossível dizêlo. De súbito ecoou um ruído longínquo e uma voz gritou: “Socorro!” E o sino do porto começou a soar. É provável que a felicidade ébria e celeste não ouvisse o tumulto.

O sino continuou a soar. Quem procurasse Gilliatt no ângulo do muro já o não encontraria.

LIVRO SEGUNDO

RECONHECIMENTO EM PLENO DESPOTISMO

CAPÍTULO PRIMEIRO ALEGRIA CERCADA DE ANGÚSTIA

Mess Lethierry agitava o sino com sofreguidão. De súbito parou. Viu um homem voltar a esquina do cais. Era Gilliatt.

Mess Lethierry correu a ele, ou, para melhor dizer, atirou-se a ele, tomou-lhe a mão entre as suas, e olhou-o fitamente em silêncio; um desses silêncios de explosão, não sabendo por onde irromper.

Depois, com violência, sacudindo, e puxando, e apertando-o nos braços, fez entrar Gilliatt na sala baixa de Bravées, empurrou a porta com o tacão, que ficou entreaberta, assentou-se ou caiu, em uma cadeira ao lado de uma grande mesa iluminada pela lua, cujo reflexo embranquecia vagamente o rosto de Gilliatt, e, com uma voz onde havia gargalhadas e soluços misturados, gritou:

— Ah! Meu Filho! Homem do bagpipe! Gilliatt! Eu bem sabia que eras tu! A pança! Que diabo! Conta-me isso! Pois foste! Há cem anos queimavam-te. É feitiçaria. Não falta nada. Já examinei, reconheci, apalpei. Adivinho que as rodas estão nas duas caixas. Então chegaste. Fui procurar-te na pança. Toquei o sino. Procurava-te. Eu dizia comigo: onde está ele? Quero devorá-lo. É preciso convir que se passam coisas extraordinárias. Aquele animal volta do escolho Douvres. Traz-me a vida. Com os diabos! Tu és um anjo. Sim, sim, sim, é a minha máquina. Ninguém acredita. Hão de vê-la e dizer: não falta nem uma serpentina. O tubo de água não se deslocou. É incrível que não houvesse avaria. Falta só pôr um pouco de azeite. Mas como foi? E a Durande vai agora navegar! A árvore das rodas está desmontada como se fosse feita por um ourives. Dá-me a tua palavra de honra que eu não estou doido.

Levantou-se, respirou e prosseguiu:

— Jura-me. Que revolução! Dou beliscões em mim mesmo, vejo que não sonho. Tu és meu filho, és meu rapaz, és: Deus. Ah! Meu filho. Ir buscar a minha pobre máquina! No mar alto! Naquela emboscada do escolho! Tenho visto muita coisa espantosa em minha vida. Nunca vi coisa assim. Vi os parisienses que são uns satanases. Boas! Não faziam isto. É pior que a Bastilha. Vi os gaúchos lavrarem

nos pampas, tendo por charrua um galho de árvore, do comprimento de 1 côvado e por grade um feixe de espinhos puxado por corda de couro; colhem, com isto, grãos de trigo do tamanho de avelãs. Não valem dois caracóis ao pé de ti. Fizeste um milagre, um verdadeiro milagre. Ah! Tratante! Salta-me ao pescoço. Como vai rosnar a gente de Saint-Sarpson! Vou tratar já e já de fazer o navio. É admirável não ter quebrado a vara da redouça. Meus senhores, ele foi às Douvres. Às Douvres! Um penedo que não tem rival. Já sabes, está provado que a coisa foi feita de propósito. Clubin perdeu a Durande para furtar-me o dinheiro que devia trazer-me. Embriagou Tangrouille. É longo, depois te contarei a pirataria dele. Eu era um bruto, tinha confiança em Clubin. Mas o malvado não pôde naturalmente sair de lá. Há um Deus, canalha! Olha, Gilliatt, quanto antes, ferro na forja, vamos reconstruir a Durande. Dar-lhe-emos 20 pés mais. Agora fazem-se os navios mais compridos. Hei de comprar madeira em Dantzig e Bremen. Agora que tenho a máquina hão de emprestar-me dinheiro. A confiança voltará.

Mess Lethierry deteve-se, levantou os olhos com aquele olhar que vê o céu através do teto, disse entre dentes: “Há um meio”.

Depois pôs o dedo médio da mão direita entre as sobrancelhas, com a unha apoiada no alto do nariz, o que indica passagem de um projeto no cérebro, e continuou:

— É o mesmo, para começar em grande escala, algum dinheiro basta. Ah! Se eu tivesse as minhas três notas de banco que o tratante de Rantaine me restituiu e que o tratante de Clubin me roubou!

Gilliatt, em silêncio, procurou na algibeira alguma coisa, que colocou diante de si. Era o cinto de Clubin. Abriu e pôs na mesa o cinto, no interior do qual a lua deixava ler a palavra: Clubin; tirou da abertura uma caixinha, e da caixinha três pedaços de papel que desenrolou e estendeu a Mess Lethierry.

Mess Lethierry examinou os três pedaços de papel. Havia bastante claridade para que o número 1.000 e a palavra thousand fossem perfeitamente visíveis. Mess Lethierry pegou nos três bilhetes, pô-los na mesa um ao lado do outro, olhou para eles, olhou para Gilliatt e ficou um momento calado, depois foi como que uma erupção depois de uma explosão.

— Também isto! Tu és prodigioso. As minhas notas do banco! Todas três! Mil cada uma! Os meus 75.000 francos! Então foste ao inferno? É o cinto de Clubin. Por Deus: leio-lhe o nojento nome. Gilliatt traz a máquina e mais o dinheiro! Isto deve ser contado nos diários públicos. Vou comprar madeira de primeira qualidade. Adivinho, achaste o esqueleto. Clubin apodreceu lá em algum canto. Compraremos pinho em Dantzig e carvalho em Bremen, faremos um bom casco, carvalho por dentro, pinho por fora. Em outro tempo fabricavam-se navios menos perfeitos e eles duravam mais; é que a madeira era mais seca porque não se construía tanto. Faremos talvez a quilha de olmo. O olmo é bom para estar sempre na água: andando ora molhado, ora seco, apodrece: o olmo alimenta-se de água. Que bela Durande vamos fazer! Não me hão de impor. Já não preciso crédito. Tenho dinheiro. Já se viu coisa assim como Gilliatt? Eu estava prostrado, abatido, morto. Chega ele e põe-me de pé. E eu que não pensava nele! Já nem me lembrava. Agora lembra-me tudo. Pobre rapaz! Ah! Bem, sabes, tu casas com Déruchette.

— Não.

— Como, não?

Gilliatt respondeu:

— Não a amo.

Gilliatt encostou-se à parede como se vacilasse e baixinho, mas distintamente, disse:

Mess Lethierry teve um sobressalto.

Mess Lethierry foi à janela, abriu-a e fechou-a, pegou nas três notas do banco, dobrou-as, pôs a caixa em cima, coçou a cabeça, pegou no cinto de Clubin, atirou-

o violentamente contra a parede e disse:

— Há alguma coisa!

Meteu as mãos nos bolsos, e continuou:

— Não amas Déruchette! Era então por minha causa que tocavas bagpipe?

Gilliatt, sempre encostado à parede, empalidecia como um homem que está prestes a não respirar. À proporção que se tornava pálido, Lethierry tornava-se vermelho.

— Vejam este parvo! Não ama Déruchette! Pois trata de amá-la, porque ela não há de casar senão contigo. Que histórias são essas? Cuidas que te acredito? Estás doente? Pois bem, manda chamar um médico, mas não digas extravagâncias, é impossível que tivesses tempo de brigar com ela e ficares arrufado. É verdade que os namorados são uns tolos! Vamos, tens alguma razão? Se tens, fala; ninguém é tolo sem ter razão. Demais, eu tenho algodão nos ouvidos, talvez ouvisse mal, repete o que disseste.

Gilliatt replicou:

— Disse que não.

— Disseste que não. E teima o bruto! Tens alguma coisa, é claro. Disseste que não! É uma estupidez que passa os limites do mundo conhecido. Por muito menos dão-se banhos medicinais a uma criatura. Ah! Tu não amas Déruchette! Então foi por amor do velhote que fizeste tudo isto! Foi pelos bonitos olhos do papá que foste às Douvres, que tiveste frio, que tiveste calor, que tiveste fome e sede, que comeste bichos do rochedo, que tiveste por quarto de dormir o nevoeiro, a chuva e o vento, e que me trouxeste a máquina como se traz a uma mulher bonita o canário que fugiu? E a tempestade de há três dias! Se tu imaginas que eu não faço idéia do que passaste! Estiveste em boas! Foi então com o pensamento em mim que cortaste, rachaste, viraste, arrastaste, limaste, serraste, inventaste, e fizeste tantos milagres, tu só, mais que todos os santos do paraíso? Ah! Idiota! Pois olha que me aborreceste com a tua sanfona! Na Bretanha chama-se biniou. Sempre a mesma toada, animal! Ah! Tu não amas Déruchette! Não sei o que tens. Lembra-me agora, eu estava neste canto. Déruchette disse: “Casava-me”. E há de casar contigo. Ah! Não a amas! Feitas as reflexões, eu não compreendo nada. Ou tu estás doido ou eu! E não diz palavra! Não é lícito fazer o que fizeste e dizer no fim: “Não amo Déruchette”. Não se faz um obséquio à gente para obrigá-la a ficar com raiva. Pois bem, se não te casas com ela, Déruchette não se casa com pessoa alguma, fica para tia. Em primeiro lugar, preciso de ti. Serás piloto da Durande. Se cuidas que vou deixar-te ir assim! Ta, ta, ta, nada, meu amigo, já te não largo. És meu. Nem te quero ouvir. Onde há um marinheiro como tu? És o meu homem. Mas fala, com os diabos!

O sino tinha acordado a gente da casa e da vizinhança. Doce e Graça tinham-se levantado e acabavam de entrar na sala baixa, espantadas, sem dizer palavra. Graça trazia uma vela. Um grupo de vizinhos, burgueses, marinheiros e aldeões, saídos à pressa, estava fora no cais, contemplando com pasmo e susto o cano da Durande na pança.

Alguns, ouvindo a voz de Lethierry na sala baixa, começavam a entrar silenciosamente pela porta entreaberta. Entre duas caras de comadres, passava a cabeça do Sr. Landoys, que por acaso costumava sempre estar presente nos lugares onde sentiria se não estivesse.

As grandes alegrias querem sempre um público. Agrada-lhes o ponto de apoio um pouco esparso que oferece uma multidão; partem daí. Mess Lethierry descobriu repentinamente que tinha gente à roda de si. Aceitou logo o auditório.

— Ah! Vocês estão aí? Que felicidade. Já sabem a notícia. Este homem lá foi e de lá trouxe aquilo. Bom dia, Sr. Landoys. Ainda há pouco quando acordei vi o cano. Estava debaixo da minha janela. Não falta nem um prego. Fizeram-se gravuras de Napoleão; eu prefiro isto à batalha de Austerlitz. Sabem vocês da coisa. A Durande chegou enquanto dormiam. Enquanto se metiam nos lençóis e apagavam as velas, há pessoas que são heróis. Uns são covardes, vadios, aquecem os seus reumatismos; felizmente isso não impede que haja espíritos fogosos. Esses vão aonde é preciso ir, fazem o que é preciso fazer. O homem da casa mal-assombrada chegou do rochedo Douvres. Pescou a Durande do fundo do mar, pescou o dinheiro da algibeira de Clubin, abismo mais profundo que o outro. Mas como fizeste isso? Tinhas todos os diabos contra ti, o vento e a maré, a maré e o vento. É verdade que tu és feiticeiro. Os que dizem isto já não são tão pascácios. Voltou a Durande! Em vão se enfurecem as tempestades, este estrangula-as. Meus amigos, anuncio-lhes que já não há naufrágios. Já examinei a máquina. Está como nova, está completa! Movem-se os cilindros tão facilmente como dantes. Parecia novinha em folha. Sabem que a água que sai é levada para fora do navio por um tubo colocado em outro tubo por onde passa a água que entra para utilizar

o calor; pois bem, os dois tubos estão salvos. A máquina toda! As rodas também! Ah! Hás de casar com ela!

— Com quem? Com a máquina? — perguntou o Sr. Landoys.

— Não, a pequena. Sim, a máquina. Ambas. Há de ser duas vezes meu genro. Goodbye, Capitão Gilliatt. Vamos ter Durande! Vamos fazer negócio, vai haver circulação e comércio, e transporte de bois e carneiros! Não troco Saint-Sampson por Londres. E aqui está o autor. Digo-lhes que é uma aventura. Há de ler-se isto sábado na gazeta de Mauger. O engenhoso Gilliatt é um finório. Que dinheiro é este em ouro?

Mess Lethierry acabava de ver, pela fresta da tampa, que havia ouro na caixinha posta sobre as notas de banco. Pegou nela, abriu-a, esvaziou-a na palma da mão, pôs o punhado de guinéus sobre a mesa.

— Para os pobres. Sr. Landoys, dê estes pounds da minha parte ao condestável de Saint-Sampson. Sabe da carta de Rantaine? Mostrei-lha outro dia; pois bem; aqui estão as notas do banco. Com isto posso comprar carvalho e pinho, e fazer a carpintaria. Veja. Lembra-se do tempo que houve há três dias? Que ataque de vento e de chuva! O céu disparava tiros de canhão. Gilliatt recebeu tudo isso nas Douvres, sem que lhe obstasse o desaferrar o navio como eu tiro o meu relógio da parede. Graças a Gilliatt, já sou alguém. A galeota do pai Lethierry vai continuar o serviço, senhores e senhoras. Uma casca de noz com duas rodas, e um tubo de cachimbo, foi sempre a minha mania. Disse sempre comigo: “Hei de fazer uma máquina destas!” Data de longe; foi uma idéia que tive em Paris, no café que faz a esquina da Rua Cristina e da Rua Delfina, lendo um jornal que falava do invento. Sabem que Gilliatt era capaz de meter a máquina de Marly na algibeira e passear com ela? Este homem é de ferro batido, é aço de têmpera, é diamante, um marujo de polpa, um ferreiro, um rapazola extraordinário, mais espantoso que o Príncipe Hohenlohe. A isto chamo eu um homem de engenho. Nós não valemos nada. Os lobos-do-mar somos nós; o leão-do-mar é ele. Hurrah, Gilliatt! Não sei o que ele fez, mas certamente fez o diabo, e como é que não lhe hei de dar Déruchette!

Desde alguns instantes Déruchette entrara na sala. Não dissera palavra, não fizera rumor. Entrou como uma sombra. Assentara-se, quase despercebida, em uma cadeira por trás de Mess Lethierry de pé, loquaz, tempestuoso, alegre, abundante de gestos, e falando em voz alta. Um pouco atrás dela veio outra aparição muda. Um homem vestido de preto, de gravata branca, com o chapéu na mão, parara na abertura da porta. Havia agora muitas velas no grupo lentamente engrossado. As luzes batiam de lado no homem vestido de preto; o seu perfil, de alvura jovem e deliciosa, desenhava-se no fundo obscuro com uma pureza de medalha; apoiava o cotovelo numa almofada da porta, e tinha a fronte na mão esquerda, atitude que lhe era graciosa, sem ser meditada, e que fazia valer a grandeza da fronte na pequenez da mão. Havia uma ruga de angústia no canto de seus lábios contraídos. Examinava e ouvia com atenção profunda. Os assistentes, tendo reconhecido o Reverendo Ebenezer Caudray, cura da paróquia, tinham-se afastado para deixá-lo passar, mas ele ficou na soleira. Havia hesitação na sua postura e decisão no seu olhar. O olhar de quando em quando encontrava o de Déruchette. Quanto a Gilliatt, ou por acaso ou de propósito, estava na sombra, e mal se podia vê-lo.

Mess Lethierry não viu ao princípio o Sr. Ebenezer, mas viu Déruchette. Foi a ela e beijou-a com toda a sofreguidão que pode ter um beijo na fronte. Ao mesmo tempo estendia o braço para o canto escuro onde estava Gilliatt.

— Déruchette — disse ele —, estás outra vez rica e o teu marido é aquele.

Déruchette levantou a cabeça desvairada e olhou para a sombra.

Mess Lethierry continuou:

— Há de se fazer o casamento quanto antes, amanhã, se for possível, há de haver dispensas, mas as formalidades são simples, o decano faz o que quer, casa-se a gente antes de gritar: guarda de baixo! Não é como na França, onde se precisam banhos, publicações, dilações, um chuveiro de formalidades e tu serás mulher de um homem valente e não há de que dizer, é um marinheiro, sempre o pensei desde o dia em que o vi voltar de Herm com a peça de artilharia. Agora volta das Douvres com a tua fortuna, e a minha, e a fortuna da terra; é um homem que há de dar o que falar; tu disseste: “Caso-me com ele”; pois hás de casar; e hão de ter filhos, e eu serei avô, e terás fortuna de ser a lady de um rapagão sério, que trabalha, que é útil, que é surpreendente, que vale por cem, que salva as invenções dos outros, que é uma providência, e ao menos não casarás, como todas as raparigas ricas deste lugar, com um soldado ou um padre, isto é, o homem que mata e o homem que mente. Mas que fazes aí metido no canto, Gilliatt? Ninguém te vê. Doce! Graça! Todos! Luzes! Iluminem o meu genro a giorno. Caso-os, meus filhos, e eis teu marido, e eis o meu genro, o Gilliatt da casa mal-assombrada, o grande marinheiro, e eu não terei outro genro, e não terás outro marido, torno a dar a minha palavra de honra a Deus. Ah! Ah! E Vossa Reverendíssima, senhor cura, há de casar-me estes pequenos.:

O olhar de Mess Lethierry acabava de cair no Reverendo Ebenezer.

Doce e Graça tinham obedecido. Duas velas postas na mesa iluminavam Gilliatt da cabeça aos pés.

— Como está bonito! — gritou Lethierry.

Gilliatt estava hediondo.

Estava tal qual saíra, naquela manhã, do escolho Douvres, em frangalhos, os cotovelos rotos, a barba longa, os cabelos eriçados, os olhos queimados e vermelhos, a face esfolada, as mãos sangrentas; tinha os pés descalços. Algumas das pústulas da pieuvre estavam visíveis nos braços cabeludos.

Lethierry contemplava-o.

É o meu verdadeiro genro. Como se bateu com o mar! Está em frangalhos! Que ombros! Que pés! Como és belo!

Graça correu a Déruchette, amparou-lhe a cabeça. Déruchette tinha desmaiado.

CAPÍTULO II

A MALA DE COURO

Desde madrugada Saint-Sampson estava de pé e Saint-Pierre-Port começava a chegar. A ressurreição de Durande fazia na ilha um rumor comparável ao que fez no meio-dia da França a Salette. Havia multidão no cais para contemplar o cano que saía da pança. Tinham vontade de ver e tocar na máquina, mas Lethierry, depois de repetir, e à luz do dia, a inspeção triunfante da mecânica, tinha posto na pança dois marinheiros encarregados de impedir que ninguém se aproximasse. O cano, porém, bastava à contemplação. A multidão pasmava. Só se falava de Gilliatt. Comentava-se e aceitava-se a alcunha de engenhoso, a admiração acabava sempre por esta frase: “Nem sempre é agradável ter na ilha gente capaz de fazer coisas destas”.

De fora via-se Mess Lethierry assentado à mesa diante da janela e escrevendo, com um olho no papel, e outro na máquina. Estava de tal modo absorto que apenas uma vez interrompeu-se para gritar: “Doce!” e para pedir notícias de Déruchette. Doce respondeu: “A menina levantou-se e saiu”. Mess Lethierry disse: “Faz bem tomar ar. Esteve incomodada de noite por causa do calor. Havia muita gente na sala. E depois a surpresa, a alegria e as janelas fechadas. Vai ter um marido soberbo!” E tornou a escrever. Já tinha escrito e fechado duas cartas dirigidas aos mais notáveis construtores de Bremen. Acabava de fechar a terceira.

O rumor de uma roda no cais fez-lhe levantar a cabeça. Inclinou-se à janela e viu desembocar do atalho que ia ter à casa de Gilliatt um rapaz empurrando um carrinho de mão. O rapaz dirigia-se para o lado de Saint-Pierre-Port. Havia no carrinho uma mala de couro amarela com pregos de cobre e estanho.

Mess Lethierry falou ao rapaz:

— Aonde vais?

O rapaz parou, e respondeu:

— Ao Cashmere.

— Para quê?

— Levar esta mala.

— Pois bem, levarás também estas três cartas.

Mess Lethierry abriu a gaveta da mesa, e pegou num pedaço de barbante, enlaçou as três cartas que acabava de escrever, e atirou o embrulho ao rapaz que o recebeu no ar entre as duas mãos.

— Dirás ao capitão do Cashmere que sou eu quem escrevo, e que ele tenha cuidado com elas. É para a Alemanha. Bremen via Londres.

— Não falarei ao capitão, Mess Lethierry.

— Por quê?

— O Cashmere não está no cais.

— Ah!

— Está na barra.

— É justo, por causa do mar.

— Só posso falar ao patrão do escaler.

— Recomenda-lhe as minhas cartas.

— Sim, Mess Lethierry.

— A que horas parte o Cashmere?

— Ao meio-dia.

— Ao meio-dia hoje, é a enchente da maré. Tem contra si a maré.

— Mas tem vento de feição.

— Rapaz — disse Mess Lethierry pondo o dedo índex no cano da máquina — vês isto? Isto zomba do vento e da maré.

O rapaz pôs as cartas na algibeira, pegou outra vez no carrinho, e continuou a viagem para a cidade.

Mess Lethierry chamou:

— Doce! Graça! Graça entreabriu a porta.

— Que há, Mess?

— Entra e espera.

Mess Lethierry pegou numa folha de papel e começou a escrever; se Graça, de pé atrás dele, fosse curiosa e esticasse o pescoço, poderia ler, por cima do ombro, isto:

“Escrevo a Bremen para ver madeira. Tenho de falar durante o dia aos carpinteiros para a avaliação. Vai ter à casa do decano para arranjar as dispensas. Desejo que

o casamento se faça o mais cedo possível, e já, será melhor. Estou tratando de Durande, trata tu de Déruchette.”

Datou e assinou “Lethierry”.

Não se deu ao trabalho de fechar a carta, dobrou-a simplesmente em quatro e deu-a a Graça.

— Leva isto a Gilliatt.

LIVRO TERCEIRO

A PARTIDA DO “CASHMERE”

CAPÍTULO PRIMEIRO

A ANGRAZINHA PRÓXIMA DA IGREJA

Saint-Sampson não pode estar apinhado de gente sem que Saint-Pierre-Port fique deserto. Uma coisa curiosa num ponto dado é uma bomba aspirante. As notícias correm depressa nas terras pequenas; ir ver o cano da Durande debaixo da janela de Mess Lethierry foi desde o romper do dia a grande ocupação de Guernesey. Qualquer outro acontecimento desaparecia diante desse. Eclipse da morte do decano de Saint-Asaph; já ninguém curava do Reverendo Ebenezer Caudray, nem da sua repentina riqueza, nem da sua partida no Cashmere. A máquina da Durande, trazida das Douvres, estava na ordem do dia. Ninguém acreditava. O naufrágio parecera extraordinário, mas o salvamento parecia impossível. Todos queriam ver com os seus próprios olhos. Todas as ocupações ficaram suspensas. Longas fileiras de burgueses em família, desde o vesin até o mess, homens, mulheres, gentlemen, mães com filhos e filhos com bonecas, dirigiam-se por todas as estradas para ver a coisa, em Bravées, e davam-se as costas a Saint-Pierre-Port. Muitas lojas de Saint-Pierre-Port estavam fechadas; no Commercial Arcade, estagnação absoluta de venda e de negócio; toda a atenção estava voltada para a Durande, nenhum mercador estreou, exceto um ourives que se maravilhava de ter vendido um anel de ouro para casamento — “a uma espécie de homem que parecia muito apressado e que lhe perguntou onde morava o sr. decano”. As lojas que ficaram abertas eram os lugares de conversa onde se comentava ruidosamente o milagroso salvamento da máquina. Ninguém passeava na Hyvreuse, que se chama hoje, não se sabe por quê, Cambridge-Park; ninguém em HighStreet, que se chamava então a Rua Grande, nem em Smith Street, que se chamava a Rua das Forjas; ninguém em Hauteville; a própria Esplanada estava deserta. Dissera-se um domingo. Uma alteza real, que ali fosse de visita, e passasse em revista a milícia de Ancresse, não despovoaria melhor a cidade. Todo aquele abalo a propósito de uma coisa à toa, como Gilliatt, fazia erguer os ombros aos homens graves e às pessoas corretas.

A Igreja de Saint-Pierre-Port, tríplice carreta sobreposta com transepto e flecha, fica situada à beira da praia no fundo do porto quase sobre o desembarque. Dá a saudação aos que chegam e o adeus aos que saem. Aquela igreja é a maiúscula de uma longa linha que faz a fachada da cidade sobre o oceano.

É ao mesmo tempo a paróquia de Saint-Pierre-Port e chefe de toda a ilha. Tem por pároco o sub-rogado do bispo, clergyman com plenos poderes.

O ancoradouro de Saint-Pierre-Port, hoje largo e magnífico porto, era naquela época, e ainda há dez anos, menos considerável que o ancoradouro de Saint-Sampson. Eram duas grossas paredes ciclópicas, curvas, partindo da praia a estibordo e bombordo e ligando-se quase na extremidade, onde havia um farolzinho branco. Debaixo daquele farol uma garganta, que ainda tinha as duas argolas da corrente que a fechava na Idade Média, dava passagem aos navios. Imaginem uma unha de lagosta aberta, era o ancoradouro de Saint-Pierre-Port. Aquela tenaz tomava ao mar um pouco de água que obrigava a ficar tranqüila. Mas, com vento de leste, havia marulho na entrada, o porto ficava agitado, e era acertado não penetrar lá. Foi o que fez nesse dia o Cashmere, que ficou fora.

Os navios, quando soprava o leste, faziam isso que, no fim das contas, economizava as despesas do porto. Nesses casos, os bateleiros da cidade, tribo valente de marinheiros que o novo porto destituíra, iam tomar em seus barcos os viajantes, ou no cais, ou nas estações da praia, e os transportavam, a eles e às bagagens, muitas vezes com marés agitadas e sempre sem acidentes, aos navios que deviam sair. O vento de leste é um vento de flanco muito bom para ir à Inglaterra; o mar é agitado sem que o navio estremeça.

Quando o navio ficava no porto, todos embarcavam no porto; quando estava fora, podia-se escolher uma das costas vizinhas do ancoradouro do navio. Achavam-se em todas as angras bateleiros à vontade.

A Angrazinha era dessas. Aquele cais ficava próximo à cidade, mas tão solitário, que parecia longe. Devia a solidão às duas grandes penedias do forte de São Jorge que dominavam aquele sítio discreto. Chegava-se à Angrazinha por caminhos diversos. O mais direto ia pela praia; tinha a vantagem de ir dar à cidade e à igreja em cinco minutos, e o inconveniente de ser coberto pela maré duas vezes por dia.

Outros caminhos, mais ou menos abruptos, mergulhavam nas anfratuosidades dos rochedos. A Angrazinha, mesmo em pleno dia, ficava numa penumbra. Grandes pedras amontoadas pendiam de todos os lados. Havia espessuras de espinhos, fazendo uma espécie de noite suave naquela desordem de rochas e vagas; nada mais aprazível do que aquela angra em tempo calmo, nada mais tumultuoso nas grossas águas. Havia pontas de galhos perpetuamente molhados pela escuma. Na primavera ficava cheia de flores, ninhos, perfumes, aves, borboletas e abelhas. Graças aos trabalhos recentes, essa selvajaria já não existe; foi substituída por belas linhas retas; há obras de pedreiro, cais, jardins; tudo foi derrubado; o gosto destruiu as extravagâncias da montanha e a incorreção dos rochedos.

CAPÍTULO II

O DESESPERO DIANTE DO DESESPERO

Era pouco menos de 10 horas da manhã: “o quarto de hora antes”, como se diz em Guernesey.

O povo, segundo todas as aparências, ia engrossando em Saint-Sampson. A população, febricitante de curiosidade, ia toda para o norte da ilha, de maneira que a Angrazinha, que fica ao sul, estava mais deserta que nunca.

Contudo, viam-se aí um bote e um remador. No bote havia um saco de viagem. O bateleiro parecia esperar.

Via-se ao largo o Cashmere ancorado, que, devendo partir lá para o meio-dia, não fazia nenhum movimento de aparelho.

O viandante que, de qualquer dos caminhos-escadas tivesse prestado o ouvido, ouviria um murmúrio de palavras na Angrazinha, e inclinando-se por cima, veria a alguma distância do bote, num recanto de pedras e galhos onde não podia penetrar o olhar do bateleiro, duas pessoas; um homem e uma mulher, Ebenezer e Déruchette.

Esses asilos obscuros das praias, que tentam as banhistas, não são tão solitários como se pensa. Às vezes espreita-se e ouve-se de fora. Os que se refugiam podem ser facilmente acompanhados através das espessuras das vegetações, e graças à multiplicidade e entravamento dos atalhos. Os granitos e árvores que escondem o refugiado podem esconder também uma testemunha.

E unindo-se a ele, cruzou-lhe os dez dedos por trás do pescoço, como para fazer com os seus braços enlaçados em Ebenezer e com as suas mãos juntas uma oração a Deus.

Ele deslaçou aquela cadeia delicada, que resistiu enquanto pôde.

Déruchette caiu assentada numa ponta de rocha coberta de hera, levantando com um gesto maquinal a manga do vestido até o cotovelo, mostrando o seu delicioso braço nu, com uma luz afogada e pálida nos olhos fixos. O bote aproximava-se.

Ebenezer segurou-lhe a cabeça nas mãos; aquela virgem tinha o ar de uma viúva e aquele mancebo tinha o ar de um avô. Tocou-lhe os cabelos com uma espécie de precaução religiosa; fitou os olhos nela durante alguns instantes, depositou-lhe na fronte um desses beijos debaixo dos quais parece que deveria abrir uma estrela e, com uma voz que tremia na suprema angústia e onde se sentia a dilaceração da alma, disse-lhe esta palavra, a palavra das profundezas: “Adeus!”

Déruchette rompeu em soluços.

Neste momento ouviram uma voz lenta e grave que dizia:

— Por que motivo não se casam? Ebenezer voltou a cabeça. Déruchette levantou os olhos. Gilliatt estava diante deles. Acabava de entrar por um atalho lateral. Gilliatt já não era o mesmo homem da véspera. Tinha penteado os cabelos, fez a

barba, calçou os sapatos, vestiu camisa branca de marinheiro com grandes colarinhos caídos, vestiu a roupa de marinheiro mais nova. Via-se um anel de ouro no dedo mínimo. Parecia profundamente calmo. Estava lívido.

Bronze que sofre, tal era aquele rosto. Os dois olharam para ele estupefatos. Embora não se pudesse reconhecê-lo, Déruchette reconheceu-o. Quanto às palavras que ele acabava de pronunciar,

estavam tão longe do que eles pensavam nesse momento, que resvalaram-lhe no espírito. Gilliatt continuou:

— Que necessidade é essa de se dizerem adeus? Casem-se. Embarquem depois. Déruchette estremeceu da cabeça aos pés. Gilliatt continuou:

— Miss Déruchette tem 21 anos. É senhora de sua vontade. Seu tio é apenas seu tio. Amam-se...

Déruchette interrompeu docemente:

— Como é que o senhor está aqui?

— Casem-se — continuou Gilliatt. Déruchette começava a perceber o que lhe dizia aquele homem. Murmurou:

— O meu pobre tio...

— Recusaria se o casamento estivesse por fazer — disse Gilliatt —, e consentirá quando o casamento estiver concluído. Demais, vão embarcar ambos. Quando voltarem, ele os perdoará.

Gilliatt acrescentou com um tom amargo:

— E depois, ele já não pensa senão em construir o vapor. Isso o distrairá durante a sua ausência. Tem Durande para consolá-lo.

— Eu não quisera — balbuciou Déruchette num espanto misturado de alegria —, não quisera deixar pesares indo-me embora...

— Não durarão muito tempo os pesares — disse Gilliatt.

Ebenezer e Déruchette tiveram uma espécie de deslumbramento. Tranqüilizaramse. Na sua decrescente perturbação, iam entendendo as palavras de Gilliatt. Ainda havia alguma nuvem, mas a obrigação deles dois não era resistir ao conselho. Quem salva domina sempre. Fracas são as objeções quando se trata de voltar ao Eden. Havia na atitude de Déruchette, imperceptivelmente apoiada em Ebenezer, alguma coisa que fazia causa comum com o que dizia Gilliatt. Quanto ao enigma da presença daquele homem e das suas palavras que, no espírito de Déruchette em particular, produziam muitas espécies de assombro, eram questões à parte. Aquele homem dizia-lhes: “Casem-se”. Era claro. Se houvesse uma responsabilidade, era ele quem a tomava sobre si. Déruchette sentia confusamente que, por diversas razões, ele tinha o direito de fazê-lo. O que ele dizia de Mess Lethierry era verdade. Ebenezer, pensativo, murmurou:

— Um tio não é um pai.

Ebenezer sentia a corrupção de uma peripécia súbita e feliz. Os escrúpulos prováveis do padre fundiam-se e dissolviam-se naquele pobre coração apaixonado.

A voz de Gilliatt tornou-se breve e dura; sentia-se nela umas pulsações de febre:

— Imediatamente. O Cashmere parte daqui a duas horas. Têm tempo, mas não de sobra; venham ambos.

Ebenezer examinava-o atentamente. De súbito exclamou:

— Conheço-o. Foi o senhor quem me salvou a vida. Gilliatt respondeu:

— Não creio.

— Lá adiante, na ponta dos Bancos.

— Não conheço esse lugar.

— No mesmo dia em que cheguei.

— Não percamos tempo — disse Gilliatt.

— E não me engano, o senhor é o homem de ontem à noite.

— Talvez.

— Como se chama?

Gilliatt alçou a voz:

— Ó do bote, espere-nos. Já voltamos. Miss, a senhora perguntou-me por que motivo estava eu aqui, é simples, eu acompanhei-os. A senhora tem 21 anos. Nesta terra quem chega à maioridade e depende de si casa-se em um quarto de hora. Tomemos o caminho da praia. Está praticável, a maré há de encher lá para o meio-dia. Mas vamos já. Venham comigo.

Déruchette e Ebenezer pareciam consultar-se com o olhar. Estavam de pé, juntinhos, sem mexer-se; pareciam ébrios. Há dessas tentações estranhas à beira desse abismo que se chama felicidade. Compreendiam sem compreender.

— Ele se chama Gilliatt — disse Déruchette baixinho a Ebenezer.

Gilliatt continuou com uma espécie de autoridade:

— Que esperam? Já lhes disse que me acompanhassem.

— Aonde? — perguntou Ebenezer.

— Ali.

E Gilliatt mostrou com o dedo a torre da igreja. Os dois acompanharam-no.

Gilliatt ia adiante. O seu passo era firme. Os dois vacilavam.

À proporção que se aproximavam da torre, via-se despontar naqueles puros e belos rostos de Ebenezer e Déruchette alguma coisa que seria dentro de pouco tempo o sorriso. A proximidade da igreja iluminava-os. Nos olhos fundos de Gilliatt havia trevas.

Dissera-se um espectro levando duas almas ao paraíso.

Ebenezer e Deruchette não compreendiam muito o que se estava passando. A intervenção daquele homem era o ramo a que se agarra o afogado. Eles acompanhavam Gilliatt com a docilidade que o desespero tem para com a primeira pessoa que lhe aparece. Quem se sente morrer não é difícil em aceitar os incidentes. Déruchette, mais ignorante, era mais confiante. Ebenezer pensava. Déruchette era maior. As formalidades do casamento inglês são simplíssimas, sobretudo nos países autóctones onde os párocos têm quase um poder discricionário; mas o decano celebraria o casamento sem saber se o tio consentia? Havia uma questão nisto. Contudo, podia-se tentar. Em todo o caso era uma delonga.

Mas quem era aquele homem? E se era ele quem, na véspera, foi declarado genro de Mess Lethierry, como explicar o que estava fazendo? Ele, que era o obstáculo, tornava-se a providência. Ebenezer prestava-se a tudo, mas dava ao que se estava passando o consentimento tácito e rápido do homem que se sente salvo.

O caminho era desigual, às vezes molhado e difícil. Ebenezer, absorto, não prestava atenção aos charcos de água e às pedras. De quando em quando, Gilliatt voltava-se e dizia a Ebenezer: “Cuidado com essas pedras, dê-lhe a mão”.

CAPÍTULO III

A PREVIDÊNCIA DA ABNEGAÇÃO

Soavam 10 horas e meia quando eles entravam na igreja. Por causa da hora, e também por causa da solidão da cidade naquele dia, a igreja estava vazia.

No fundo, porém, perto da mesa que, nas igrejas reformadas, substitui o altar, havia três pessoas: eram o decano, o seu evangelista, e mais o lançador dos registros. O decano, que era o Reverendo Jaquemin Herodes, estava assentado; o evangelista e o lançador estavam de pé.

O Livro, aberto, estava sobre a mesa.

Ao lado havia outro livro, era o registro da paróquia, igualmente aberto, e no qual um olhar atento poderia notar uma página escrita de fresco. Uma pena e um tinteiro ficavam ao lado do registro.

Vendo entrar o Reverendo Ebenezer Caudray, o Reverendo Jaquemin Herodes levantou-se.

— Esperava-o — disse ele. — Tudo está pronto.

O decano, com efeito, estava com o hábito de oficiante.

Ebenezer olhou para Gilliatt.

O Reverendo Herodes continuou:

— Estou às suas ordens, meu colega.

E fez-lhe uma cortesia.

A cortesia não foi nem para a esquerda nem para a direita. Era evidente, pela direção do raio visual do decano, que, para ele, só Ebenezer existia. Ebenezer era clergyrman e gentleman. O decano não compreendia no seu cumprimento nem Déruchette, que estava ao seu lado, nem Gilliatt, que estava atrás. Havia no seu olhar um parêntese em que só Ebenezer era admitido. A manutenção destas distinções faz parte da boa ordem e consolida as sociedades.

O decano continuou com uma amenidade graciosamente altiva:

— Meu colega, faço-lhe o meu duplo cumprimento. Morreu-lhe o tio, e o senhor casa-se; fica rico por um lado e feliz por outro. Demais, agora, graças a este vapor que vai ser restabelecido, Miss Lethierry também é rica, o que eu aprovo. Miss Lethierry nasceu nesta paróquia, verifiquei a data do nascimento no livro dos assentos. Miss Lethierry é maior e dispõe de si. Depois, seu tio, que é toda a sua família, consente. Querem casar-se já por causa da viagem, compreendo, mas sendo este casamento o do cura da paróquia, eu quisera mais alguma solenidade. Abrevio para fazer-lhes o gosto. O essencial pode fazer-se no sumário. O ato já está escrito no livro do registro que está aqui, e falta só pôr os nomes. Nos termos da lei e do costume, o casamento pode ser celebrado logo depois da inscrição. A declaração necessária para a licença já foi feita. Tomo a responsabilidade de uma pequena irregularidade, porque o pedido de licença devia ser previamente registrado sete dias antes; mas eu reconheço a necessidade e a urgência da partida. Seja. Vou casá-los. O meu evangelista será a testemunha do esposo; quanto à esposa...

O decano voltou-se para Gilliatt.

Gilliatt fez um sinal de cabeça.

— Basta — disse o decano. Ebenezer ficara imóvel. Déruchette era o êxtase petrificado. O decano continuou:

— Há, porém, um obstáculo. Déruchette fez um movimento. O decano continuou:

— O enviado de Mess Lethierry, que aqui está presente, e pediu a licença e assinou a declaração no registro — e com o polegar da mão esquerda o decano indicou Gilliatt, o que o isentava de articular nenhum nome — o enviado de Mess Lethierry disse-me esta manhã que Mess Lethierry, por muito ocupado, não podia vir, e desejava que o casamento se fizesse incontinente. Esse desejo, verbalmente expresso, não é suficiente. Não posso, por causa das dispensas e da irregularidade que tomo sobre mim, ir além disto sem informar-me de Mess Lethierry, a menos que me mostrem a assinatura dele. Qualquer que seja a minha boa vontade, não posso contentar-me com uma palavra que me repetem. Preciso de um escrito.

— Não sirva isto de empecilho — disse Gilliatt. E apresentou ao decano um papel. O decano pegou no papel, percorreu com um olhar, pareceu passar algumas

linhas, sem dúvida, inúteis, e leu alto:

“— Vai ter à casa do decano para arranjar as dispensas. Desejo que o casamento se faça o mais cedo possível, e já, será melhor”. Pôs o papel em cima da mesa e continuou:

— Assinado: “Lethierry”. A coisa seria mais respeitosa se fosse dirigida a mim. Mas, como se trata de um colega, não exijo mais.

Ebenezer olhou de novo para Gilliatt. Há almas que se entendem. Ebenezer sentia naquilo uma fraude; e não teve força, não teve mesmo idéia de denunciá-lo. Ou fosse obediência a um heroísmo latente que ele antevia, ou fosse que se lhe aturdisse a consciência pela ventura súbita, Ebenezer não teve palavras.

O decano tomou a pena e encheu, com o auxílio do lançador dos assentos, os claros da página escrita no livro, depois levantou-se, e com o gesto convidou Ebenezer e Déruchette a aproximar-se da mesa.

Começou a cerimônia.

Ebenezer e Déruchette estavam ao pé um do outro diante do ministro. Quem tiver sonhado que se está casando saberá o que eles sentiam.

Gilliatt estava a alguma distância na obscuridade dos pilares.

Déruchette, ao levantar-se da cama, desesperada, pensando no túmulo e no sudário, vestira-se de branco. Esta idéia de morte veio a propósito para as núpcias. O vestido branco fez dela uma noiva. Também os túmulos são esponsais.

Déruchette irradiava. Nunca foi o que era naquele instante. Déruchette tinha o defeito de ser demasiado linda e não bastante formosa. A sua beleza pecava, se é pecar, por excesso de graça. Déruchette em repouso, isto é, fora da paixão e da dor, já o dissemos, era sobretudo gentil. A transfiguração da moça encantadora é a virgem ideal. Déruchette, engrandecida pelo amor e pelo sofrimento, tinha tido esse progresso, deixem passar a palavra. Tinha a mesma candura, com mais dignidade, a mesma frescura, com mais perfume. Era uma espécie de bonina que se torna lírio.

Tinha no rosto sinais de lágrimas estanques. Havia ainda talvez uma lágrima no canto do sorriso. As lágrimas estanques, vagamente visíveis, são um sombrio e doce ornato da felicidade.

O decano, de pé perto da mesa, pôs um dedo na Bíblia aberta e perguntou em voz alta:

— Há oposição? Ninguém respondeu.

— Amém — disse o decano. Ebenezer e Déruchette deram um passo para o Reverendo Jaquemin Herodes. O decano disse:

— Joe Ebenezer Caudray, queres esta mulher por tua esposa? Ebenezer respondeu:

— Quero. O decano continuou:

— Durande Déruchette Lethierry, queres este homem por teu marido?

Déruchette, na agonia da alma demasiado feliz, como a da lâmpada demasiado cheia de óleo, murmurou em vez de pronunciar:

— Quero.

Então, segundo o belo rito do casamento anglicano, o decano olhou em roda de si, e fez na sombra da igreja esta solene pergunta:

— Quem dá esta mulher a este homem?

— Eu — disse Gilliatt.

Houve um momento de silêncio. Ebenezer e Déruchette sentiram uma vaga opressão através da sua felicidade.

O decano pôs a mão direita de Déruchette na mão direita de Ebenezer, e Ebenezer disse a Déruchette:

— Déruchette, tomo-te por minha mulher, quer sejas melhor ou pior, mais rica ou mais pobre, doente ou com saúde, para amar-te até à morte, e dou-te a minha fé.

O decano pôs a mão direita de Ebenezer na mão direita de Déruchette, e Déruchette disse a Ebenezer:

— Ebenezer, tomo-te por meu marido, quer sejas melhor ou pior, mais rico ou mais pobre, doente ou com saúde, para amar-te e obedecer-te até à morte, e dou-te a minha fé.

O decano continuou:

— Onde está o anel?

Isto era o imprevisto. Ebenezer não tinha anel.

Gilliatt tirou o anel de ouro que tinha no dedo mínimo e apresentou ao decano. Era provavelmente o anel de casamento comprado de manhã ao ourives de Commercial Arcade.

O decano pôs o anel no livro, depois entregou-o a Ebenezer. Ebenezer pegou na mãozinha esquerda, trêmula, de Déruchette, meteu o anel no quarto dedo e disse:

— Desposo-te com este anel.

— Em nome do Padre, do Filho e do Espírito Santo — disse o decano.

— Assim seja — disse o evangelista. O decano alçou a voz:

— Estais casados.

— Assim seja — disse o evangelista. O decano continuou:

— Oremos. Ebenezer e Déruchette voltaram-se para a mesa e ajoelharam-se. Gilliatt, que estava de pé, inclinou a cabeça. Eles ajoelhavam-se diante de Deus, Gilliatt curvava-se ao destino.

CAPÍTULO IV

“PARA TUA MULHER QUANDO TE CASARES”

Saindo da igreja viram o Cashmere que começava a aparelhar.

— Chegam a tempo — disse Gilliatt. Seguiram pelo caminho da Angrazinha. Os dois iam adiante, Gilliatt agora caminhava atrás. Eram dois sonâmbulos. Mudara apenas o atordoamento. Não sabiam nem onde

estavam nem o que faziam; apressavam-se maquinalmente, não se lembravam da existência de coisa alguma, sentiam-se um outro, não podiam ligar duas idéias.

Não pode pensar quem está em êxtase como não pode nadar quem está numa torrente. Pareciam ir penetrando num paraíso. Não se falavam, conversavam com a alma. Déruchette apertava contra si o braço de Ebenezer.

O passo de Gilliatt atrás deles fazia-lhes ver que ele estava presente. Iam profundamente comovidos mas sem dizer palavra; o excesso da comoção transforma-se em estupefação. A deles era deliciosa, mas acabrunhava. Estavam casados. Adiavam o resto, esperavam voltar, o que Gilliatt fez era bem-feito, eis tudo. O fundo desses dois corações agradecia-lhe ardente e vagamente. Déruchette dizia consigo que havia alguma coisa para deslindar, mais tarde. Entretanto, aceitavam o fato. Sentiam-se à discrição daquele homem decisivo e súbito, que, por autoridade, fazia a felicidade deles dois. Fazer-lhe perguntas, conversar com ele, era impossível. Eram de sobejo as impressões que se lhes precipitavam em cima ao mesmo tempo. Estavam engolfados; era perdoável.

Os fatos são às vezes uma saraiva. Crivam a criatura. Ensurdecem. A precipitação dos incidentes, caindo em existências habitualmente calmas, torna logo ininteligíveis os acontecimentos aos que os sofrem ou deles se aproveitam. Não se pode conhecer a sua própria ventura. Fica-se esmagado sem adivinhar, venturoso sem compreender. Déruchette, em particular, desde algumas horas recebera todas as comoções; primeiramente a fascinação, Ebenezer no jardim; depois o pesadelo, aquele monstro declarado seu marido; depois a desolação, o anjo abrindo as asas e prestes a partir; agora era a alegria, uma alegria inaudita, com um fundo indecifrável; o monstro dava-lhe o anjo; o casamento saía da agonia; o Gilliatt, catástrofe de ontem, salvação de hoje. Déruchette não compreendia nada. Era evidente que, desde manhã, Gilliatt não teve outra ocupação senão a de casá-los; fez tudo; respondeu por Mess Lethierry, falou ao decano, pediu licença, assinou a declaração necessária; eis aí como se realizou o casamento. Mas Déruchette não compreendia nada; demais, mesmo quando ela compreendesse o como, não compreenderia o porquê.

Fechar os olhos, agradecer, mentalmente, esquecer a terra, e a vida, deixar-se levar para o céu por aquele bom demônio, eis o que lhe cumpria fazer. Esclarecer seria longo, agradecer não seria bastante. Déruchette calava-se naquele doce embrutecimento da ventura.

Restava-lhe ainda algum pensamento, suficiente para guiá-la. Debaixo da água há pedaços de esponja que ficam brancos. Eles tinham a soma de lucidez necessária para distinguir o mar da terra e o Cashmere de qualquer outro navio.

Dentro de poucos minutos estavam eles na Angrazinha.

Ebenezer foi o primeiro a entrar no bote. No momento em que Déruchette ia acompanhá-lo, sentiu a sua manga docemente puxada. Era Gilliatt que tinha posto um dedo numa dobra do vestido.

— Senhora — disse ele —, não esperava partir. Eu cuido que naturalmente há de precisar de vestidos e roupa. Achará a bordo do Cashmere um caixotinho com objetos de mulher. Foi minha mãe quem mo deu. Era destinado à mulher com quem eu casasse. Consinta que lho ofereça.

Déruchette acordou a meio do sonho em que estava. Voltou-se para Gilliatt, em voz baixa e que mal se ouvia, continuou:

— Agora, não é para demorá-la, mas, olhe, eu creio que devo explicar-lhe uma coisa. No dia em que houve aquela desgraça, a senhora estava assentada na sala baixa, e disse umas palavras. Não se lembra disso, é natural. Ninguém é obrigado a lembrar-se das palavras que diz. Mess Lethierry sofria muito. A verdade é que era um belo navio e prestimoso. O desastre aconteceu; a terra estava alvoroçada e compungida, são coisas que naturalmente se esquecem. Só havia aquele navio

perdido na costa. Não se pode pensar sempre em um acidente. Somente o que eu queria dizer é que, como se dizia que ninguém era capaz de lá ir, eu fui. Diziam eles que era impossível; não era impossível aquilo. Agradeço-lhe o prestar-me atenção por alguns instantes. Compreende a senhora que se eu lá fui ao escolho, não foi para ofendê-la. Demais, a coisa data de longe. Eu sei que está com pressa. Se houvesse tempo, falaríamos, recordaríamos, mas isso de nada serve. A coisa data de um dia em que caiu neve. E depois eu passei uma vez, e cuido tê-la visto sorrir. É assim que tudo se explica. Quanto ao que se passou ontem, eu não tive tempo de ir a casa, acabava do trabalho, estava todo rasgado, meti-lhe medo, a senhora desmaiou, fiz mal, não se entra assim na casa dos outros, peço-lhe que me perdoe. É isto mais ou menos o que eu queria dizer-lhe. Vai partir. Tem um belo tempo. Acha justo que eu lhe fale, não? É o último minuto.

— Penso na caixinha — respondeu Déruchette — Por que não há de guardá-la para a sua mulher, quando se casar?

— Senhora — disse Gilliatt —, provavelmente eu não me casarei nunca.

— Pois é pena, porque é uma boa alma. Obrigada.

E Déruchette sorriu. Gilliatt retribuiu-lhe com outro sorriso. Depois ajudou Déruchette a entrar no escaler.

Menos de um quarto de hora depois, o escaler aonde iam Ebenezer e Déruchette atracava ao Cashmere.

CAPÍTULO V

A GRANDE TUMBA

Gilliatt seguiu pela praia, parou rapidamente em Saint-Pierre-Port, depois caminhou para Saint-Sampson ao longo do mar, fugindo aos encontros, evitando as estradas cheias de caminhantes, por culpa dele.

Desde muito tempo, como se sabe, Gilliatt tinha um modo de atravessar a terra em todos os sentidos sem ser visto por ninguém. Conhecia os atalhos, fez para si itinerários isolados e em ziguezagues: tinha o hábito feroz do ente que não se julga estimado; andava de longe. Ainda criança, vendo pouco agasalho no rosto dos homens, tomou o costume, que depois tornou-se-lhe instinto, de andar sempre afastado.

Passou a Esplanada, depois a Salerie. De tempos a tempos, voltava-se e olhava para o Cashmere na barra, que lhe ficava por trás; e o Cashmere abria as velas. Havia pouco vento, Gilliatt ia mais depressa que o Cashmere.

Gilliatt caminhava nas rochas extremas da praia, com a cabeça baixa. A maré começava a subir.

Em certo momento parou e, voltando as costas para o mar, contemplou durante alguns minutos, além dos rochedos que escondiam a estrada do Vale, uma moita de carvalhos. Eram os carvalhos do lugar chamado Basses Maisons. Foi ali, debaixo daquelas árvores, que outrora o dedo de Déruchette escreveu o nome Gilliatt na neve. Havia muito tempo que essa neve estava desfeita.

Prosseguiu o caminho.

O dia estava mais belo que nenhum outro naquele ano. A manhã tinha um quê de nupcial. Era um desses dias vernais em que maio ostenta-se todo inteiro; a criação parecia não ter outro fim que dar uma festa e fazer a própria felicidade. Sob todos aqueles rumores, da floresta como da aldeia, da vaga como da atmosfera, sentiam-se uns sons de arrulho. As primeiras borboletas pousavam nas primeiras rosas. Tudo era novo na natureza, as ervas, os musgos, as folhas, os perfumes, os raios. Parecia que o sol nunca tinha servido. Os seixos estavam lavados de fresco. A profunda canção das árvores era cantada por aves nascidas na véspera. Era provável que a casquinha do ovo quebrada pelo biquinho dessas aves ainda estivesse no ninho. Ensaios de asas rumorejavam nas folhas trêmulas. Cantavam o primeiro canto, davam o primeiro vôo. Era uma doce conversa de todos a um tempo, poupas, melharucos, pintassilgos, barbirruivos, pardais. Os lilases, os lírios, as dafnes, as glicínias compunham nas moitas uma deliciosa variedade de cores. Uma linda lentilha aquática que há em Guernesey cobria as lagoas de uma toalha de esmeralda. Banhavam-se as alvéloas nas lagoas, onde costumam fazer tão graciosos ninhos. Via-se o céu através de todas as falhas da vegetação. Algumas nuvens lascivas perseguiam-se no ar ondeando como ninfas. Como que se sentia a passagem de beijos mandados por bocas invisíveis. Nenhum velho muro deixava de ter, como um noivo, o seu ramalhete de girófleas. Os abrunheiros silvestres e os codessos estavam em flor; viam-se aqueles montinhos brancos luzindo e aqueles montinhos amarelos fulgurando através do cruzamento dos ramos.

A primavera atirava toda a sua prata e ouro no imenso cesto rasgado dos bosques. Os pimpolhos novos eram verdes de fresco. Ouvia-se no ar um grito de saudação. Estio hospitaleiro abria a porta aos pássaros longínquos. Era a hora da chegada das andorinhas. Os tirsos dos juncos orlavam os caminhos cavados, esperando os tirsos dos pilriteiros. O belo e o lindo faziam boa vizinhança: o soberbo contemplava-se pelo gracioso; o grande não tolhia o pequeno; não se perdia nenhuma nota do concerto; as magnificências microscópicas estavam em plano próprio naquela vasta beleza universal; distinguia-se tudo como numa água límpida. Por toda a parte uma divina plenitude e um intumescimento misterioso faziam adivinhar o esforço pânico e sagrado da seiva em ação. O que brilhava, brilhava mais; o que amava, amava melhor. Havia um hino na flor e uma irradiação no ruído. Escutava-se a grande harmonia difusa. O que começava a despontar procurava o que começava a surdir. Uma turvação, que surgia de baixo, e vertia também de cima, agitava vagamente os corações, corruptíveis à influência espessa e subterrânea dos germes. A flor prometia obscuramente o fruto, todas as virgens cismavam, a reprodução dos seres, premeditada pela imensa alma da sombra, esboçava-se na irradiação das coisas. Era o universal noivado. A vida, que é a esposa, abraçava o infinito, que é o esposo. O dia estava claro, formoso e ardente; através das sebes, nas cercas, viam-se rir as crianças. Algumas jogavam a palheta. As macieiras, os pessegueiros, as cerejeiras, as pereiras cobriam os vergéis com os seus grossos tufos pálidos ou vermelhos. Na relva, as primaveras, as pervincas, as mil-folhas, as margaridas, os amarílis, os jacintos, as violetas e as verônicas. As borragens azuis, os íris amarelos pululavam, com as belas estrelinhas cor-de-rosa que florescem sempre aos bandos e que por esse motivo chamam-se as companheiras. Animálculos dourados corriam por entre as pedras. O saião florescente purpureava os tetos das cabanas. As operárias das colméias andavam por fora. A abelha trabalhava. A extensão estava cheia do murmúrio dos mares e do zumbido das moscas. A natureza, permeável na primavera, estava úmida de voluptuosidade.

Quando Gilliatt chegou a Saint-Sampson, ainda a maré não enchera e ele pôde atravessar a praia a pé seco, despercebido por trás dos cascos de navios no estaleiro. Um cordão de pedras chatas, postas de espaço a espaço, auxiliava a passagem.

Gilliatt não foi observado. O povo estava do outro lado do porto, perto da saída, junto à casa de Lethierry. Aí andava o nome dele de boca em boca. Falava-se tanto dele que o não chegavam a ver. Gilliatt passou escondido de algum modo pelo próprio rumor que causava.

Viu de longe a pança no lugar onde a amarrara, com o cano da máquina entre as quatro correntes, com um movimento de carpinteiros trabalhando, lineamentos confusos de pessoas que iam e vinham de um para outro lado, e ouviu a voz tonante e alegre de Mess Lethierry dando ordens.

Meteu-se pelas ruelas dentro.

Não havia ninguém por trás de Bravées, toda a curiosidade convergia para a frente. Gilliatt tomou o atalho que costeava o muro baixinho do jardim. Parou no ângulo onde estava a malva silvestre; tornou a ver a pedra onde costumava sentar-se; tornou a ver o banco de Déruchette. Olhava para o chão da alameda onde viu abraçarem-se as duas sombras, que tinham desaparecido.

Foi a caminho. Galgou a colina do castelo do Vale, desceu-a, e dirigiu-se para a casa mal-assombrada, onde morava.

O Houmet Paradis estava solitário.

A casa estava tal qual ele a deixara de manhã depois de vestir-se para ir a SaintPierre-Port.

Havia uma janela aberta. Via-se por ela o bagpipe pendurado em um prego da parede.

Via-se na mesa a pequena Bíblia, dada em agradecimento a Gilliatt por um desconhecido, que era Ebenezer.

A chave estava na porta. Gilliatt aproximou-se, pôs a mão na chave, fechou a porta com duas voltas, pôs a chave no bolso, e afastou-se.

Afastou-se, não para o lado de terra, mas para o lado do mar.

Atravessou diagonalmente o jardim, pelo lado mais curto, pisando os canteiros, mas tendo cuidado de poupar os sea kales que plantara por serem do gosto de Déruchette.

Galgou o parapeito e desceu aos arrecifes.

Continuou a andar, indo sempre para a frente, pela longa e estreita linha de cachopos que ligava a casa dele àquele grande obelisco de granito de pé, no meio do mar, que se chamava Corne de la Bête. Era ali que ficava a Cadeira Gild-Holm'Ur.

Passava de um recife a outro como um gigante caminha nos cabeços. Andar em uma crosta de recifes assemelha-se a andar na borda de um telhado.

Uma pescadora de rede que andava com os pés descalços, nos charcos que ficavam próximos, e voltava para a praia, gritou-lhe: “Cuidado. A maré está enchendo”.

Gilliatt continuou a andar. Chegando ao grande rochedo da ponta, que formava um pináculo no mar, parou. Acabava a terra. Era a extremidade do pequeno promontório.

Olhou.

Ao largo pescavam alguns barcos, com âncoras fora. Via-se de quando em quando naqueles barcos um gotejar de prata: eram as redes que saíam da água. O Cashmere ainda não estava na altura de Saint-Sampson; desenrolara a mezena. Estava entre Herm e Jethou.

Gilliatt torneou o rochedo. Chegou à beira da Cadeira Gild-Holm-'Ur, ao pé dessa espécie de escada tosca que, menos de três meses antes, Ebenezer descera ajudado por ele.

Gilliatt subiu.

A maior parte dos degraus já estava debaixo da água. Apenas dois ou três estavam a seco. Gilliatt escalou-os.

Os degraus iam ter à Cadeira Gild-Holm-'Ur. Chegou à cadeira, contemplou-a por um momento, apoiou a mão nos olhos e fê-la passar de uma a outra sobrancelha, gesto com que parece que se apaga o passado, depois assentou-se na cava da rocha, com o grande declive por trás de si, e o oceano aos pés.

O Cashmere, nesse momento, passava pela grande torre arredondada e imersa, defendida por um sargento e um canhão, e que marca na baía a metade do caminho entre Herm e Saint-Pierre-Port.

Nas fendas do rochedo tremiam algumas flores, por sobre a cabeça de Gilliatt. A água estava toda azul. O vento era de leste, havia pouca ressaca à roda de Serk, da qual em Guernesey só se vê a costa ocidental. Via-se ao longe a França como uma bruma e a longa faixa amarela de areias de Carteret. De quando em quando passava uma borboleta branca. As borboletas gostam de passear sobre o mar.

Fraca era a brisa. Todo aquele azul, embaixo, e em cima, estava imóvel. Nenhuma tremura agitava aquelas serpentes de um azul mais claro ou mais carregado, que marcavam na superfície do mar as torções latentes dos baixios.

O Cashmere, pouco impelido pelo vento, içou os cutelos para apanhar alguma brisa. Cobriu-se todo de panos. Mas o vento era de través, o efeito dos cutelos obrigava-o a costear de perto Guernesey. Já tinha passado a baliza de Saint-Sampson. Atingia a colina do castelo do Vale. Estava quase próximo ao promontório da casa de Gilliatt.

Gilliatt via-o aproximar-se.

O ar e o mar estavam como que adormecidos. A maré enchia, não por meio de ondas, mas por intumescimento. O nível da água ia-se levantando sem palpitação. O vento do largo mar, extinto, assemelhava-se a um hálito de infante.

Ouviam-se na direção da porta de Saint-Sampson pequenos golpes surdos, que eram marteladas. Provavelmente eram os carpinteiros que levantavam guindastes e pranchas para tirar a máquina da pança. Esse rumor mal chegava a Gilliatt, por causa da massa de granito a que ele estava encostado.

O Cashmere aproximava-se com uma lentidão de fantasma.

Gilliatt esperava.

De súbito uma agitação da água e uma sensação de frio obrigaram-no a olhar para baixo. A água tocava-lhe os pés.

Gilliatt abaixou os olhos e levantou-os.

O Cashmere estava perto.

O rochedo onde as chuvas tinham cavado a Cadeira Gild-Holm-'Ur era tão vertical, e havia tanta água naquele sítio, que os navios podiam, em tempo de calma, passar ali à distância de algumas braças.

O Cashmere chegou. Surgiu, alçou-se. Parecia crescer sobre a água. Foi como que um crescimento de sombra. Todo o aparelho destacou-se como massa negra, no céu azul, e no magnífico balanço do mar. As longas velas, por um instante sobrepostas ao sol, tornavam-se quase cor-de-rosa e tiveram urna transparência inefável. As ondas tinham um murmúrio indistinto. Nenhum rumor perturbava o resvalar majestoso daquela massa. De terra via-se o que se passava a bordo como se lá se estivesse.

O Cashmere roçou quase pela rocha.

O timoneiro estava no leme, um grumete trepava aos ovéns, alguns passageiros, encostados à amurada, contemplavam a serenidade do tempo, o capitão fumava. Mas não era nada disso o que Gilliatt contemplava.

Havia no tombadilho um lugar cheio de sol. Era para ali que ele olhava. Ali estavam Ebenezer e Déruchette. Estavam assentados debaixo daquela luz, ele juntinho dela. Contraíam-se graciosamente ao lado um do outro, como dois pássaros que se aquecem a um raio do meio-dia, num desses bancos cobertos de um assento alcatroado que os navios bem preparados oferecem aos viajantes, e nos quais costuma ler-se, quando o navio é inglês: “For ladies only”. A cabeça de Déruchette caía sobre o ombro de Ebenezer, o braço de Ebenezer estava por trás da cintura de Déruchette, tinham as mãos agarradas uma à outra e os dedos entrelaçados nos dedos. As diferenças de um anjo a outro mostravam-se claramente naqueles dois delicados rostos feitos de inocência. Um era mais virginal, o outro mais sideral. Era expressivo aquele casto abraço, que encerrava o himeneu e o pudor. Aquele banco era já uma alcova e quase um ninho. Ao mesmo tempo, era uma glória; a doce glória do amor fugindo numa nuvem.

O silêncio era celeste.

O olhar de Ebenezer agradecia e contemplava; moviam-se os lábios de Déruchette; e nesse silêncio delicioso, como o vento vinha do lado oposto, no instante rápido em que o sloop resvalou a algumas toesas da Cadeira Gild-Holm'Ur, Gilliatt ouvia a voz terna e delicada de Déruchette que dizia:

— Olha! Parece que há um homem no rochedo.

A aparição passou.

O Cashmere deixou a ponta do promontório atrás de si, e mergulhou-se no franzido profundo das vagas. Em menos de um quarto de hora, mastros e velas assemelhavam-se a uma espécie de obelisco branco diminuindo no horizonte. Gilliatt tinha água até os joelhos.

Via o sloop afastar-se.

A brisa refrescava ao longe. Gilliatt pôde ver o Cashmere içar os cutelos baixos para aproveitar o aumento do vento. O Cashmere já estava fora das águas de Guernesey. Gilliatt não tirava os olhos do navio.

A água chegava-lhe à cintura.

A maré levantava-se. O tempo corria.

As cotovias e os corvos-marinhos esvoaçavam inquietos em roda dele. Dissera-se que procuravam adverti-lo. Talvez houvesse naqueles bandos alguma gaivota ainda das Douvres que o reconhecia.

Decorreu uma hora.

O vento do largo não soprava no porto, mas a diminuição do Cashmere era rápida. O sloop, segundo as aparências, ia a toda a força. Já estava quase na altura de Casquets.

Não havia espuma à roda do rochedo Gild-Holin-'Ur, nenhuma vaga batia no granito. A água inchava vagarosamente. Já estava quase na altura dos ombros de Gilliatt.

Decorreu outra hora.

O Cashmere estava já além das águas de Aurigny. O rochedo Ortach escondeu-o por um momento. Ocultou-se atrás desse rochedo, e saiu depois, como de um eclipse. O sloop fugia para o norte. Já entrava no mar alto. Era apenas um ponto, tendo, por causa do sol, a cintilação de uma luz. Os pássaros soltavam pios a Gilliatt. Já não se via mais que a cabeça dele. O mar subia com uma brandura sinistra. Gilliatt, imóvel, olhava para o Cashmere que se desvanecia. A maré estava quase cheia. Caía a tarde. Por trás de Gilliatt, no porto, alguns barcos de pesca voltavam para terra.

Os olhos de Gilliatt, presos ao longe no sloop, estavam fixos.

Aqueles olhos fixos não se pareciam com coisa alguma que se possa ver na terra. Havia o inexprimível naquela pálpebra trágica e calma. O olhar continha toda a soma de tranqüilidade que deixa o sonho abortado; era a aceitação lúgubre de outro complemento. Uma fuga de estrela deve ser acompanhada por olhares semelhantes. De quando em quando a obscuridade celeste aparecia naquela pálpebra cujo raio visual estava fixo num ponto do espaço. Ao mesmo tempo que a água infinita subia à roda do rochedo Gild-Holm-'Ur, ia subindo a imensa tranqüilidade da sombra nos olhos profundos de Gilliatt.

O Cashmere, tornando-se imperceptível, era já uma mancha misturada à bruma. Para distingui-lo era preciso saber onde ele estava.

A pouco e pouco, aquela mancha, que já não era uma forma, foi empalidecendo.

Depois diminuiu.

Depois dissipou-se.

No momento em que o navio dissipava-se no horizonte, a cabeça desaparecia debaixo da água. Tudo acabou; só restava o mar.

[i] Gênesis, cap. III, vers. 16: “Tu parirás com dor”.

[ii] Gênesis, cap. I, vers. 4.


* * *




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